Meteorologistas espanhóis avisam sobre a "canícula" que começa amanhã: o que um português deve saber sobre isto

A canícula arranca amanhã, quarta-feira 15 de julho e durará 4 semanas. Saiba o que esperar da possível evolução do estado do tempo em Portugal durante o período estatisticamente mais quente e seco do ano.

A canícula é estatisticamente o período mais quente e seco do ano em Portugal e decorre entre 15 de julho e 15 de agosto. Saiba o que se prevê para as próximas semanas.
A canícula é estatisticamente o período mais quente e seco do ano em Portugal e decorre entre 15 de julho e 15 de agosto. Saiba o que se prevê para as próximas semanas.

Amanhã - quarta-feira, 15 de julho - começa a canícula em Portugal, o período que é considerado estatisticamente o mais quente e seco do ano. Habitualmente decorre entre 15 de julho e 15 de agosto, porém, por vezes, podem ocorrer ondas de calor intensas antes ou depois deste intervalo. O termo vem do latim canis, associado à constelação Canis Maior, onde brilha Sirius, estrela tradicionalmente ligada ao calor mais intenso do ano.

De acordo com um antigo ditado espanhol, “De Virgem a Virgem, o calor aperta com força”. Tradicionalmente, este período estende-se entre 16 de julho (Nossa Senhora do Carmo) e 15 de agosto (Nossa Senhora da Assunção), coincidindo com festas religiosas. Contudo, os episódios de calor extremo fora da canícula têm-se tornado mais frequentes, surgindo também em qualquer momento do trimestre estival (junho-julho-agosto) e, ocasionalmente, até mesmo noutras estações.

As temperaturas em Portugal não irão sofrer grandes variações até 18 de julho

Ao contrário do que aconteceu em vários anos recentes, os primeiros dias da canícula em Portugal continental serão relativamente frescos, com temperaturas geralmente abaixo da média climatológica para julho ou, nalgumas regiões, próximas dos valores normais para a época.

Nos primeiros dias da canícula em Portugal continental as temperaturas mantêm-se inferiores ao normal para esta época do ano, tal como evidenciado por este mapa da anomalia de temperatura do ar medida à superfície para as 16:00 de sexta-feira, 17 de julho.
Nos primeiros dias da canícula em Portugal continental as temperaturas mantêm-se inferiores ao normal para esta época do ano, tal como evidenciado por este mapa da anomalia de temperatura do ar medida à superfície para as 16:00 de sexta-feira, 17 de julho.

O contraste será evidente face à zona leste da Península Ibérica, onde várias regiões de Espanha irão registar, de acordo com os nossos colegas meteorologistas espanhóis da Meteored, máximas superiores a 40 ºC, podendo pontualmente aproximar-se dos 45 ºC. Em Portugal, a influência marítima continuará dominante, mantendo-se a tendência de frescura de origem atlântica pelo menos até sábado, 18 de julho.

Crista atlântica poderá provocar um breve período de tempo quente entre 19 e 24 de julho

A partir de domingo (19), o modelo Europeu prevê uma elevada probabilidade de instalação do padrão meteorológico “Crista Atlântica” na região Euro-Atlântica. Consiste num bloqueio de altas pressões sobre o Atlântico Norte que se estende para sul em forma de crista, modificando as condições meteorológicas em vários países europeus, incluindo Portugal.

Observa-se a crista atlântica perfeitamente formada sobre o Atlântico Norte a partir de domingo, 19 de julho.
Observa-se a crista atlântica perfeitamente formada sobre o Atlântico Norte a partir de domingo, 19 de julho.

Em Portugal, o domínio da “Crista Atlântica” costuma favorecer, regra geral, tempo seco, estável e a presença da habitual nortada no litoral. Ainda assim, a distribuição das temperaturas dependerá da interação entre diferentes massas de ar à escala sinóptica.

Os cenários atuais perspetivam o dito anticiclone reforçado no Atlântico Norte (Crista Atlântica), uma bolsa fria isolada em altitude a oeste de Portugal continental e uma massa de ar muito quente vinda do Norte de África a estender-se sobre a Península Ibérica.

A crista atlântica fortalecida sobre o Atlântico Norte favorecerá a estabilidade atmosférica no nosso país, ao passo que a bolsa de ar frio manter-se-á estacionada a oeste de Portugal, contribuindo para amenizar as temperaturas junto ao litoral. Ao mesmo tempo, esta circulação favorecerá a entrada de uma massa de ar muito quente e seco proveniente do Norte de África, que se estenderá sobre grande parte da Península Ibérica. No nosso país influenciará sobretudo as regiões do interior, contribuindo para um grande contraste térmico com o litoral.

Configuração sinóptica prevista para quarta-feira, 22 de julho deteta uma crista Atlântica sobre o Atlântico Norte, uma bolsa de ar frio a oeste de Portugal continental e uma massa de ar quente vinda do Norte de África a penetrar na Península Ibérica.
Configuração sinóptica prevista para quarta-feira, 22 de julho deteta uma crista Atlântica sobre o Atlântico Norte, uma bolsa de ar frio a oeste de Portugal continental e uma massa de ar quente vinda do Norte de África a penetrar na Península Ibérica.

Caso este cenário efetivamente se concretize, as temperaturas deverão subir significativamente no interior do nosso país entre os dias 19 e 24, especialmente nas regiões do interior, tais como o Nordeste Transmontano, Alto Douro, Beira Alta e Beira Baixa, Alentejo, zonas do Ribatejo e vale do Tejo, vale do Guadiana, entre outras.

Apesar da subida prevista para a próxima semana, os mapas não indicam, para já, a ocorrência de uma onda de calor no nosso país, dado que não parecem estar reunidos os critérios de duração, intensidade e extensão espacial normalmente utilizados para a sua classificação.

Nestas regiões do interior poderão registar-se temperaturas entre 35 e 40 ºC. No litoral também se espera uma subida das temperaturas, mas a influência moderadora do oceano manterá os valores relativamente amenos. Assim, o contraste entre litoral e interior continuará a ser significativo, num contexto de tempo predominantemente estável e seco.

O ECMWF antecipa temperaturas entre 1 e 3 ºC acima da média em Portugal continental na semana de 20 a 26 de julho.
O ECMWF antecipa temperaturas entre 1 e 3 ºC acima da média em Portugal continental na semana de 20 a 26 de julho.

Após a presente semana mais fresca do que o habitual, em claro contraste com aquilo que normalmente caracteriza a canícula, embora seja importante recordar que nenhum verão é igual ao anterior, os mapas para a semana de 20 a 27 de julho vislumbram anomalias térmicas positivas entre 1 e 3 ºC em toda a extensão de Portugal continental e de cerca de 1 ºC no arquipélago da Madeira. Por outro lado, prevê-se uma anomalia térmica negativa de -1 ºC no arquipélago dos Açores.

Elevada incerteza na evolução do estado do tempo entre 27 de julho e 15 de agosto

Fazer previsões meteorológicos com um prazo superior a 7 dias envolve um elevado grau de incerteza, quase como se entrássemos no campo da ficção científica. Por isso, quando se pretende analisar o tempo a médio-longo prazo, é mais correto falar em tendências do que em previsões.

Apesar da persistência de temperaturas acima da média, tudo indica que as anomalias térmicas positivas tenderão a diminuir à medida que a canícula for decorrendo. Não obstante, nem mesmo isso exclui a possibilidade de ocorrência de uma onda de calor.
Apesar da persistência de temperaturas acima da média, tudo indica que as anomalias térmicas positivas tenderão a diminuir à medida que a canícula for decorrendo. Não obstante, nem mesmo isso exclui a possibilidade de ocorrência de uma onda de calor.

Ora, de acordo com o modelo de confiança da Meteored - o ECMWF - a tendência para as três semanas seguintes da canícula aponta para a continuidade de temperaturas acima da média, embora com anomalias relativamente moderadas e que terão tendência a diminuir gradualmente à medida que o período canicular for avançando.

Nesta fase, continua a ser muito precoce equacionar a ocorrência de uma onda de calor na geografia de Portugal continental, já que os principais indicadores utilizados para este tipo de evento não evidenciam sinais consistentes nesse sentido. No entanto, já se sabe que em meteorologia não existem certezas absolutas e os modelos meteorológicos atualizam constantemente, pelo que, a qualquer instante, o cenário previsto pode alterar-se significativamente.

A precipitação é uma das variáveis mais complexas de analisar, no entanto, a tendência para as próximas 4 semanas plasmada nos mapas semanais de anomalias do ECMWF evidencia, com consistência, valores próximos da média para os meses de julho e agosto, que já é habitualmente escassa, embora em certas zonas do país se verifique a possibilidade de anomalias positivas.
A precipitação é uma das variáveis mais complexas de analisar, no entanto, a tendência para as próximas 4 semanas plasmada nos mapas semanais de anomalias do ECMWF evidencia, com consistência, valores próximos da média para os meses de julho e agosto, que já é habitualmente escassa, embora em certas zonas do país se verifique a possibilidade de anomalias positivas.

Quanto à precipitação, destaca-se um detalhe interessante: os mapas semanais de anomalias do ECMWF continuam a detetar valores próximos da média e, em algumas semanas da canícula, até ligeiramente acima do normal em certas zonas do país.

Isto reforça a possibilidade de alternância entre diferentes padrões meteorológicos, com a eventual passagem de superfícies frontais ou a formação de bolsas de ar frio isoladas em altitude a descer até à nossa latitude, que consigam enfraquecer temporariamente o domínio das altas pressões, produzindo episódios localizados de precipitação, geralmente fraca e irregular.