Um mundo sem colheitas? O relatório drástico da OMM sobre o limite dos nossos sistemas agrícolas

O calor deixou de ser apenas um incómodo; agora está a mudar a forma como produzimos os nossos alimentos. Um novo relatório da OMM alerta que os sistemas agrícolas estão no limite.

Durante ondas de calor intensas, o solo pode perder até 50% mais humidade em comparação com condições normais.
Durante ondas de calor intensas, o solo pode perder até 50% mais humidade em comparação com condições normais.

A agricultura sempre prosperou em condições extremas, mas o que vemos hoje não faz mais parte do “ciclo natural”. O calor extremo tornou-se um ponto de inflexão que está a mudar as regras do jogo para agricultores, pecuaristas e toda a cadeia alimentar.

De acordo com um relatório conjunto recente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), a frequência, a intensidade e a duração das ondas de calor aumentaram significativamente nos últimos 50 anos. Isso, além de significar dias de calor insuportável, também implica períodos mais longos de calor intenso que impactam diretamente a produtividade agrícola.

O calor deixou de ser um problema isolado; tornou-se uma nova condição crítica que afeta a própria base do sistema agrícola.

O problema não é apenas a temperatura em si. O calor extremo atua como um "multiplicador de riscos", intensificando outros problemas como secas, pragas, incêndios e stress hídrico. Por outras palavras, ele não ocorre isoladamente; vem acompanhado de uma combinação de problemas que complicam completamente a produção agrícola.

O stress térmico em vacas pode reduzir a produção de leite em até 20% em condições severas.
O stress térmico em vacas pode reduzir a produção de leite em até 20% em condições severas.

Além disso, esse fenómeno não faz distinção entre sistemas. Culturas, pecuária, pesca e até mesmo florestas estão a ser afetadas, comprometendo a produção e, sobretudo, o sustento de milhões de pessoas que dependem do setor agroalimentar.

Calor extremo e o seu impacto direto no campo

Quando falamos de calor extremo, não estamos a falar apenas de "muito sol". Em termos agronómicos, existem limites críticos que, uma vez ultrapassados, começam a afetar a produtividade. Por exemplo, muitas culturas começam a perder produtividade acima de 30 °C, e algumas, como a cevada e a batata, são muito mais sensíveis.

No caso da pecuária, a situação não é menos crítica. O stress térmico pode começar já a 25 °C, afetando a ingestão de alimentos, a reprodução e a produção de leite ou carne. Animais como suínos e aves são ainda mais suscetíveis a temperaturas extremas porque não conseguem regular a temperatura corporal de forma eficaz.

O calor também afeta as pessoas, pois em algumas regiões o número de dias em que é impossível trabalhar devido às altas temperaturas pode aumentar, afetando a produtividade agrícola.

Hoje, vivemos numa era em que cada gota de água conta, e o calor complica a situação, aumentando a evaporação e reduzindo a disponibilidade de água, o que leva a secas repentinas. Estas secas representam um enorme perigo, pois espalham-se rapidamente, deixando pouco tempo para reação em terra.

As altas temperaturas também ameaçam tanto os ecossistemas aquáticos quanto as pessoas. Nos ecossistemas aquáticos, o calor reduz os níveis de oxigénio na água, o que pode causar a mortandade de peixes e, consequentemente, afetar a pesca e a segurança alimentar em muitas regiões.

Adaptação: o que podemos fazer no campo

É aqui que a situação muda completamente. Adaptar-se ao calor deixa de ser uma opção e torna-se uma necessidade absoluta. Tudo começa com decisões muito específicas, como a escolha das melhores culturas para plantar. Existem culturas e variedades que toleram melhor as altas temperaturas, e essa escolha pode determinar o sucesso da safra.

Algumas plantas podem fechar os seus estômatos devido ao calor extremo, reduzindo a fotossíntese mesmo quando há água disponível.
Algumas plantas podem fechar os seus estômatos devido ao calor extremo, reduzindo a fotossíntese mesmo quando há água disponível.

O calendário agrícola também desempenha um papel significativo. Alterar as datas de plantio em alguns dias ou semanas pode impedir que a cultura entre na sua fase mais vulnerável justamente no auge do calor. Isto faz uma diferença notável no campo, e um plantio mal planeado pode ser bastante custoso.

Ter acesso a previsões e alertas meteorológicos, como os partilhados na Meteored, transforma completamente a forma como trabalhamos.

Outro aspeto crucial é o acesso à informação. Ter previsões e alertas meteorológicos transforma completamente a nossa forma de trabalhar. Isso permite-nos antecipar eventos e evitar reações tardias.

Na gestão de culturas, não existem soluções mágicas, mas existem ferramentas que podem ajudar. Cobrir o solo, melhorar a irrigação ou criar sombra reduz o stress térmico na lavoura. Estas práticas não eliminam o stress térmico, mas proporcionam mais flexibilidade, e às vezes essa flexibilidade é o que salva a colheita.

Nem todos conseguem adaptar-se no mesmo ritmo, e é aí que entram em cena o seguro, o apoio e o financiamento. A adaptação tem um custo, e muitas vezes a diferença entre prosperar e abandonar a atividade reside em ter esse apoio financeiro.

Na agricultura, já estamos a jogar no modo lendário, e continuar a fazer as mesmas coisas que temos feito nos últimos anos já não é suficiente. Embora não fiquemos sem colheitas amanhã, estamos a ver sinais de que, se não mudarmos de rumo, pagaremos um preço muito alto.

Referência da notícia

Food and Agriculture Organization (FAO) y World Meteorological Organization (WMO) (2026). Extreme Heat and Agriculture. FAO; WMO.

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