Sara Oliveira Santos conseguiu cultivar grão-de-bico em solo lunar
O estudo, liderado pela investigadora portuguesa, demonstrou que a leguminosa cresce em misturas com regolito lunar, desde que o solo seja enriquecido com matéria orgânica e microrganismos.

O programa espacial Artemis está prestes a arrancar. Ainda antes de 1 de abril, a NASA prevê colocar quatro astronautas na Lua. Ao longo de dez dias, a tripulação irá começar a preparar o terreno para criar as condições que assegurem uma presença humana de longa duração fora da Terra.
Os objetivos do Artemis são ambiciosos. Está prevista a construção da base espacial Gateway em órbita lunar e missões tripuladas de superfície de duração prolongada.
São inúmeras as investigações atualmente em curso que procuram medir a capacidade das plantas de sobreviver nos habitats espaciais. Sara Oliveira Santos, investigadora portuguesa na Universidade do Texas, em Austin (EUA), está mais perto do que nunca de uma solução.

A sua equipa conseguiu um feito considerado importantíssimo para a produção de alimentos em missões tripuladas à Lua. Ao enriquecer o solo de regolito lunar com matéria orgânica e microrganismos, as investigadoras conseguiram, pela primeira vez, cultivar o grão-de-bico, abrindo a porta a novas possibilidades na agricultura espacial.
O trabalho ajuda a compreender os desafios de produzir alimentos na superfície lunar. Como transformar o regolito em solo? Que tipos de mecanismos naturais podem provocar esta conversão? Estas são algumas das questões que Sara Oliveira Santos, pós-doutoranda do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas (UTIG), na Escola de Geociências Jackson, procura responder.
Simular o solo da Terra
O regolito lunar é o material que cobre a superfície da Lua. Ao contrário do solo terrestre, não contém microrganismos nem matéria orgânica, elementos vitais para o crescimento das plantas. Embora contenha nutrientes e minerais úteis para as plantas, o regolito pode também incluir metais pesados potencialmente tóxicos.
Para o estudo, as investigadoras utilizaram um simulador de solo lunar produzido pela empresa Exolith Labs. Trata-se de uma mistura que reproduz a composição das amostras recolhidas pelos astronautas das missões Apollo.
O contributo das minhocas no espaço
Para criar condições mais favoráveis ao cultivo, a equipa da Universidade do Texas acrescentou vermicomposto ao simulador de solo lunar. Este material, produzido por minhocas vermelhas da Califórnia, é rico em nutrientes, contendo microbioma diversificado.
O composto é produzido por minhocas que se alimentam de matéria orgânica, como restos de comida, tecidos de algodão ou produtos de higiene pessoal. Materiais que, segundo as investigadoras, podem fazer parte dos resíduos gerados em missões espaciais.
Antes da semeadura, os grãos-de-bico foram revestidos com fungos micorrízicos arbusculares. Estes microrganismos vivem em simbiose com as plantas, auxiliando-as na absorção de nutrientes, podendo reduzir a assimilação de metais pesados. Para plantar o grão-de-bico foram usadas diferentes misturas de solo lunar simulado e vermicomposto.
Ainda assim, as plantas inoculadas com fungos sobreviveram mais tempo do que as não tratadas, sugerindo que os microrganismos podem desempenhar um papel importante na adaptação das culturas ao ambiente da Lua.

As investigadoras verificaram também que os fungos foram capazes de colonizar e sobreviver no simulador de solo lunar, sugerindo que podem ser introduzidos apenas uma vez num sistema agrícola em ambiente lunar.
A segurança dos alimentos lunares
Sendo o cultivo e a colheita do grão-de-bico um passo determinante, o estudo, para ficar completo, carece ainda de um trabalho minucioso. É preciso garantir, antes de mais, a segurança alimentar e testar o sabor da leguminosa cultivada na Lua.

O valor nutricional das plantas espaciais precisa ser analisado com todo o rigor. Não menos importante é verificar se houve absorção de metais tóxicos. Esses pontos vão ser determinantes para viabilizar o grão-de-bico como fonte de alimento adequada aos astronautas e, quem sabe, aos futuros colonizadores da Lua e de Marte.
Referência da notícia
Jessica Atkin, Elizabeth Pierson, Terry Gentry & Sara Oliveira Santos. Bioremediation of lunar regolith simulant through mycorrhizal fungi and plant symbioses enables chickpea to seed. Scientific Report