Portugueses lideram projeto para recuperar a tradição e fortalecer a agricultura mediterrânica

Consórcio internacional reúne investigadores, agricultores e inovadores para revitalizar culturas esquecidas e técnicas ancestrais que podem garantir o futuro dos sistemas agrícolas de sequeiro.

Combinando o conhecimento tradicional com a inovação, o projeto NUSTALGIC promove paisagens agrícolas mediterrâneas mais resilientes e eficientes. Foto: planet fox via Pixabay
Combinando o conhecimento tradicional com a inovação, o projeto NUSTALGIC promove paisagens agrícolas mediterrâneas mais resilientes e eficientes. Foto: planet fox via Pixabay

A agricultura na região Mediterrânica enfrenta grandes desafios, como alterações climáticas, degradação dos solos e escassez de recursos hídricos. Ainda assim, a biodiversidade agrícola é elevada.

As culturas tradicionais, como leguminosas, catos e cevada, adaptadas a climas áridos e eficientes no consumo de água, têm um papel central na resiliência e na sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

Estes alimentos representam, por isso, oportunidades estratégicas para a segurança alimentar da região mediterrânica, mas o seu cultivo tem sido progressivamente abandonado pela agricultura moderna.

Recuperar sabedorias ancestrais

O objetivo do projeto NUSTALGIC (Neglected and Underutilized Species and waTer hArvesting for buiLdinG ClImate Change resilience) é precisamente recuperar essas práticas caídas no esquecimento. A iniciativa reúne 11 parceiros de Portugal, Líbano, Marrocos, Tunísia, Espanha, Itália, Grécia e Jordânia.

O projeto centra-se nas leguminosas, cevada e catos, culturas tolerantes à seca que melhoram a fertilidade do solo, poupam água e abrem novas oportunidades de mercado. Foto: yilmazfatih via Pixabay
O projeto centra-se nas leguminosas, cevada e catos, culturas tolerantes à seca que melhoram a fertilidade do solo, poupam água e abrem novas oportunidades de mercado. Foto: yilmazfatih via Pixabay

Com um orçamento de 4,41 milhões de euros, o programa irá promover, até 2028, soluções sociais e tecnológicas, combinadas com técnicas ancestrais de captação de água e sistemas agrícolas baseados em variedades negligenciadas.

Campos agrícolas convertidos em laboratórios

Desde junho de 2025, os parceiros do NUSTALGIC têm conduzido a preparação e instalação dos ensaios de demonstração nas diversas regiões envolvidas no projeto. Atualmente, as atividades estão concentradas na seleção dos locais, no planeamento da implementação e na distribuição e plantio de cevada, leguminosas e catos.

Em Portugal, os pilotos já arrancaram na LIPOR (Maia, Porto) e na Herdade do Freixo do Meio (Montemor-o-Novo, Évora), onde o grão-de-bico e a fava foram cultivados e estão em crescimento.

As atividades de campo vão funcionar como laboratórios vivos para testar técnicas de captação de água, de cultivo e soluções naturais adaptadas às condições locais.

Esta união de esforços e de sabedorias antigas e modernas cria um ecossistema muito especial para implementar ações com verdadeiro potencial de gerar impacto nas economias locais. Um aspeto que me entusiasma é o envolvimento de mulheres e de jovens agricultores na cocriação de soluções verdadeiramente inclusivas.”
Marta Vasconcelos, investigadora e coordenadora do projeto.

Financiado pelo programa PRIMA (Parceria para a Investigação e Inovação na Região Mediterrânica), o NUSTALGIC integra instituições de investigação, organizações não governamentais e empresas, unidas por um objetivo comum de fortalecer cadeias de valor alimentares mais sustentáveis no Mediterrânico.

Culturas subestimadas como catalisadoras de inovação

O Centro de Biotecnologia e Química Fina, da Universidade Católica Portuguesa, desempenha um papel central, assegurando a coordenação, gestão e implementação científica do projeto.

A instituição irá, desde logo, desenvolver produtos alimentares inovadores a partir de variedades negligenciadas. O intuito passa essencialmente por caracterizar e valorizar os alimentos, promovendo dietas saudáveis e inteligentes para a população mediterrânica e em sintonia com o clima.

As espécies negligenciadas são culturas e plantas tradicionais com elevado valor nutricional, ambiental ou cultural, mas ainda marginais nos sistemas agrícolas modernos. Foto: Pexels via Pixabay
As espécies negligenciadas são culturas e plantas tradicionais com elevado valor nutricional, ambiental ou cultural, mas ainda marginais nos sistemas agrícolas modernos. Foto: Pexels via Pixabay

Os investigadores irão implementar tecnologias de captação de água, incluindo sistemas de recolha em coberturas, estruturas em socalcos e a modernização de reservatórios tradicionais.

Estima-se que estas soluções permitam aumentar a disponibilidade de água entre 20 e 25% e melhorar a eficiência do uso da água em cerca de 20% nas áreas piloto.

O regresso da agricultura de sequeiro

O projeto prevê quatro plataformas de inovação para a agricultura de sequeiro em Marrocos, Líbano, Tunísia e Jordânia, com 80 locais de demonstração e 1200 agricultores envolvidos.

Estes campos agrícolas experimentais irão testar inovações que vão de sistemas de cultivo baseados em culturas subutilizadas até à monitorização das condições do solo, passando pela pequena maquinaria destinada à colheita e produção de alimentos para animais, assegurando resultados práticos e escaláveis.

A meta, no final, é desenvolver 18 tecnologias voltadas para a gestão da água, melhoria de culturas e valorização de subprodutos. O que se espera é diminuir os custos de produção, aumentar a produtividade entre 15% e 20%, além de incentivar a inclusão e capacitação de mulheres e jovens no empreendedorismo.

Referência da notícia

NUSTALGIC- Neglected and Underutilized Species for Water Harvesting and Building Climate Resilience-project