Oídio: a doença que gosta de calor seco e de noites húmidas

Ao contrário de quase todas as doenças das plantas, esta não precisa de chuva para se instalar. Prospera nas semanas secas de agosto e usa a humidade da noite para se multiplicar.

Nas curgetes, o oídio começa pelas folhas mais velhas e alastra depressa em semanas quentes e secas.
Nas curgetes, o oídio começa pelas folhas mais velhas e alastra depressa em semanas quentes e secas.

Há uma regra que se aprende cedo na horta: fungo gosta de humidade, por isso as doenças aparecem quando chove. O oídio é a exceção que estraga a regra, e é por isso que apanha tanta gente desprevenida.

Aparece precisamente naquelas semanas de agosto em que não cai uma gota, com dias quentes e secos. Começa por umas manchas de pó branco na folha, como se alguém tivesse espalhado farinha, e em poucos dias está espalhado pela planta toda.

Porque é que esta doença é diferente das outras

A maioria dos fungos que atacam as plantas precisa de água líquida sobre a folha para germinar. É o caso do míldio, que só arranca depois de uma chuvada.

Oídio- Doença provocada por fungos que se desenvolvem à superfície das folhas, sem penetrarem nos tecidos profundos. Ao contrário da maioria, não precisa de chuva nem de folhas molhadas para germinar. Basta-lhe humidade elevada no ar, que encontra nas noites de fim de verão.

O oídio dispensa isso. Instala-se com humidade no ar e, curiosamente, a chuva forte até o prejudica, porque lava o pó branco das folhas. É a razão pela qual aparece em anos secos e desaparece em anos chuvosos, ao contrário de tudo o resto na horta.

O ciclo diário que explica tudo

Agosto oferece-lhe a combinação perfeita, e é uma combinação de duas partes do dia.

Durante o dia, temperaturas entre os 20 e os 27 ºC, que é a faixa em que trabalha melhor. Acima dos 32 ºC abranda bastante, e é por isso que nas ondas de calor mais severas parece parar. Durante a noite, a humidade do ar sobe muito, sobretudo com o arrefecimento das últimas semanas do mês, e é nesse período que os esporos germinam e se multiplicam.

Dias quentes e secos, noites húmidas. É esta alternância, e não a chuva, que faz o oídio explodir no fim do verão.

Junte-se a isto o facto de que o vento transporta os esporos a grandes distâncias e percebe-se porque uma horta inteira pode ficar afetada em poucos dias, sem que tenha caído qualquer chuva.

Onde procurar e o que se vê

Comece pelas folhas mais velhas e pelas que estão em zonas de sombra, no interior da planta, onde o ar circula menos e a humidade se mantém mais tempo. Na tabela abaixo encontra alguns exemplos de culturas da horta afectadas pelo oídio.

Cultura

Onde aparece primeiro

O que se vê

Curgete e abóbora

Folhas mais velhas, junto à base

Manchas brancas circulares que se juntam

Videira

Folhas novas e cachos

Pó cinzento e bagos que racham

Tomateiro

Folhas do terço inferior

Manchas amareladas com pó branco por baixo

Pepino

Página superior das folhas

Cobertura branca que amarelece o tecido

Roseira e aromáticas

Rebentos novos

Folhas deformadas e enroladas

Culturas da horta afectadas pelo oídio. Fonte: elaboração própria.

Um pormenor útil para distinguir de outras doenças: o pó do oídio sai se esfregar a folha com o dedo. Se a mancha permanecer, provavelmente não é oídio.

Prevenir é sobretudo dar espaço e ar

Como o fungo precisa de ar parado e húmido, quase tudo se joga na forma como a horta está organizada.

Dê espaço às plantas. Um canteiro apinhado é uma estufa de humidade. Conduza na vertical o que puder, tutorando tomateiros e pepinos, e retire as folhas mais velhas junto à base, aquelas que já não produzem nada e apenas travam a circulação do ar.

Ataque numa fase inicial, quando ainda é fácil travar. Poucos dias depois, a planta pode estar toda coberta.
Ataque numa fase inicial, quando ainda é fácil travar. Poucos dias depois, a planta pode estar toda coberta.

Regue de manhã e sempre no solo, nunca por cima da folhagem. Molhar as plantas ao fim do dia prolonga a humidade noturna, que é exatamente aquilo de que o fungo precisa.

E não exagere no azoto. Rebentos tenros em excesso são o tecido preferido do fungo, e uma planta empanturrada de adubo azotado é um alvo fácil.

Se já apareceu, o essencial é travar a expansão

Comece por cortar e retirar as folhas mais atacadas, sem as deixar no chão da horta nem as pôr no composto, porque continuam a libertar esporos.

Depois, aja cedo. O oídio é muito mais fácil de travar no início, quando são só duas ou três manchas, do que quando já cobriu a planta. Vigie a horta de dois em dois dias nesta altura do ano.

Vale ainda a pena escolher variedades tolerantes na próxima sementeira, sobretudo em aboborinhas e pepinos, onde a diferença entre variedades é enorme e se nota logo no primeiro ano.

Antes de mais nada, olhe para dois números na previsão da sua zona: as máximas e a humidade relativa da noite. Se as tardes andarem entre os 20 e os 27 ºC e as noites forem húmidas, como é comum em Coimbra ou em Leiria no fim de agosto, é altura de olhar para as folhas todos os dias.