El Niño deu uma pausa? Entenda porque é que não há mudança para um evento muito forte

Após semanas de aquecimento acelerado, as anomalias na região de monitorização do El Niño estagnaram em 1,8 °C. Mas será que isso quer dizer que o Super El Niño perdeu a força?

Anomalia de temperatura da superfície do mar a 24 de agosto de 2026 em relação a 1991-2020, com base nos dados do ERA5. Créditos: Meteored/C3S/Copernicus.
Anomalia de temperatura da superfície do mar a 24 de agosto de 2026 em relação a 1991-2020, com base nos dados do ERA5. Créditos: Meteored/C3S/Copernicus.

Após uma sequência de elevações expressivas nas anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) nos últimos meses, o El Niño mostrou uma desaceleração temporária nas últimas semanas. Segundo atualização semanal da NOAA divulgada na passada segunda-feira (24), a anomalia relativa de TSM na região Niño 3.4 permaneceu em +1,8 °C na última semana, mantendo o mesmo valor das 2 semanas anteriores. Já a anomalia absoluta, que considera o aquecimento de fundo dos oceanos, registou uma ligeira queda em relação à semana anterior, de +2,7 °C para +2,6 °C. Mas afinal, o que é que isto significa?

Pequenas oscilações fazem parte da evolução do El Niño

Embora o comportamento tenha chamado a atenção de quem acompanha os indicadores do Pacífico tropical, variações de curto prazo são comuns e não representam necessariamente uma mudança na tendência do fenómeno, que já tem vindo a bater recordes de aquecimento e com previsão do seu pico atingir um valor histórico.

Ao contrário do que muitos imaginam, o El Niño não evolui de forma contínua e linear. Mesmo durante eventos muito fortes, é normal que ocorram períodos de estabilização ou até mesmo pequenas quedas temporárias nas anomalias de TSM.

Isto acontece porque os índices semanais são influenciados por diversos processos atmosféricos e oceânicos de menor escala e mais curta duração.

Evolução da anomalia relativa (azul) e absoluta (laranja) semanal de TSM desde 15/04/2026, destacando a estabilização do aquecimento nas últimas semanas (círculo vermelho). Créditos: Meterored.
Evolução da anomalia relativa (azul) e absoluta (laranja) semanal de TSM desde 15/04/2026, destacando a estabilização do aquecimento nas últimas semanas (círculo vermelho). Créditos: Meterored.

Por esta razão, os centros climáticos internacionais utilizam principalmente médias mensais e trimestrais para avaliar a intensidade e a evolução do fenómeno, e não médias semanais.

Uma variação de alguns décimos de grau ao longo de uma semana, portanto, não é suficiente para caracterizar um enfraquecimento do evento - assim como também não serve como um indicador da magnitude final do evento.

A MJO teve impacto mais limitado

Um dos fatores que pode ajudar a explicar a recente estabilização do El Niño foi o comportamento da Oscilação Madden-Julian (MJO), um importante padrão de variabilidade tropical capaz de influenciar temporariamente as condições atmosféricas sobre o Pacífico equatorial. Quando ativa sobre as fases 6 e 7, pode aumentar o aquecimento na região do Niño 3.4.

Durante agosto, a MJO avançou brevemente para a fase 6, no entanto, a sua amplitude permaneceu apenas moderada e por um período relativamente curto, limitando a ocorrência de anomalias de vento de oeste mais persistentes sobre o Pacífico equatorial.

Figura 1. Evolução da Oscilação Madden-Julian (MJO) entre julho (azul) e agosto (vermelho) de 2026. Créditos: CPC/NOAA.
Figura 1. Evolução da Oscilação Madden-Julian (MJO) entre julho (azul) e agosto (vermelho) de 2026. Créditos: CPC/NOAA.

As previsões indicavam que a MJO poderia favorecer condições mais propícias ao aquecimento do oceano durante a segunda quinzena de agosto. No entanto, essa atuação acabou por ser mais fraca do que o esperado, reduzindo o impulso adicional que poderia acelerar o aumento das anomalias no período.

Isto não significa que o El Niño perdeu força, mas apenas que um dos mecanismos capazes de intensificar o aquecimento não se manifestou da forma prevista.

Previsões atualizadas indicam anomalias de 3,5 °C no pico do evento

Apesar da pausa observada nas últimas semanas, os indicadores oceânicos e atmosféricos continuam compatíveis com um El Niño muito forte - ou um “Super El Niño”, como convencionado pelos media. Além disso, os modelos climáticos continuam a prever anomalias excecionalmente elevadas durante a primavera e o início do verão no Hemisfério Sul, podendo alcançar cerca de 3,5 °C.

Previsão de anomalia de TSM do conjunto de modelos do IRI, iniciada em agosto, destacando o valor máximo previsto pela média dos modelos. Créditos: Meteored/IRI.
Previsão de anomalia de TSM do conjunto de modelos do IRI, iniciada em agosto, destacando o valor máximo previsto pela média dos modelos. Créditos: Meteored/IRI.

Por isso, é necessário cautela na interpretação dos números semanais. Mais importante do que observar pequenas oscilações de curto prazo é acompanhar a tendência de longo prazo, que ainda aponta para a manutenção de um evento excecionalmente intenso nos próximos meses.