Estufa caseira e túneis: o que montar em setembro para colher no inverno

Montar uma cobertura em dezembro, com o frio já instalado, chega tarde de mais. O que decide a colheita de inverno é aquilo que estiver de pé e plantado nas próximas semanas.

Uma estufa caseira montada no outono permite manter culturas vivas e colhíveis durante todo o inverno.
Uma estufa caseira montada no outono permite manter culturas vivas e colhíveis durante todo o inverno.

Há uma ideia muito difundida sobre estufas caseiras que convém corrigir logo de início: a de que servem para proteger as plantas do frio quando ele chegar.

Servem para isso, mas não é aí que está o essencial. O essencial é que uma cobertura montada agora permite que as plantas cresçam durante mais algumas semanas, e é esse avanço, e não o abrigo em si, que enche a mesa em dezembro e janeiro.

O que uma estufa sem aquecimento faz mesmo

Convém perceber o que se está a comprar antes de investir seja no que for.

Estufa fria- Estrutura coberta sem qualquer sistema de aquecimento, que funciona apenas com a energia do sol. Durante o dia deixa entrar a radiação e retém o calor no ar e no solo. Durante a noite, atrasa a perda desse calor para o céu. Não produz calor nenhum, apenas o guarda durante mais tempo.

Na prática, isso traduz-se num ganho de alguns graus nas temperaturas mínimas. Parece pouco, mas é a diferença entre uma alface que congela e uma alface que se colhe. Na tabela abaixo, consegue encontrar algumas soluções para minimizar o impacto das baixas temperaturas nas culturas da horta.

Uma cobertura simples vale duas a três semanas de atraso no inverno. É como mudar a horta algumas centenas de quilómetros para sul.

Solução

Ganho típico na mínima

Custo

Melhor para

Manta térmica sobre as plantas

2 a 3 ºC

Muito baixo

Folhosas em canteiro

Túnel baixo com arcos

3 a 5 ºC

Baixo

Alfaces, espinafres, rabanetes

Túnel alto onde se entra

4 a 6 ºC

Médio

Couves, favas, aromáticas

Manta dentro do túnel

Até 7 ou 8 ºC

Baixo, acumulado

Noites de geada forte

Garrafa cortada sobre a planta

2 a 4 ºC

Quase nulo

Plantas isoladas

Principais soluções para proteger as culturas das baixas temperaturas. Fonte: elaboração própria

Valores indicativos. O ganho real depende muito da noite: é maior em noites limpas e sem vento, e bastante menor em noites ventosas.

Três erros que estragam o investimento

O primeiro é não ventilar. Parece contraditório num artigo sobre proteger do frio, mas num dia de sol de dezembro um túnel fechado passa facilmente dos 30 ºC lá dentro. E, pior do que o calor, é a humidade que fica presa. Um túnel permanentemente fechado é uma câmara húmida, e as doenças de folha instalam-se muito mais depressa do que o frio faria estragos. Abra nos dias de sol e feche a meio da tarde, para guardar calor antes da noite.

O segundo é subestimar o vento. A maior parte dos túneis caseiros não se perde por frio, perde-se numa noite de vendaval. Em zonas expostas, como no litoral de Aveiro, a ancoragem importa mais do que a qualidade do plástico. Enterre bem os bordos, use varões que entrem fundo e prenda o filme com fio cruzado por cima.

Porta aberta num dia de sol, para renovar o ar e evitar a humidade que traz as doenças.
Porta aberta num dia de sol, para renovar o ar e evitar a humidade que traz as doenças.

O terceiro é a orientação. No inverno o sol anda baixo no céu. Um túnel baixo orientado no sentido nascente-poente apanha muito mais luz do que um orientado no sentido norte-sul, porque oferece o lado comprido à trajetória do sol.

O que faz sentido pôr lá dentro

Não vale a pena tentar cultivar de tudo. As culturas que compensam são as que já toleram frio e a que a cobertura dá o empurrão final.

Alfaces de inverno, espinafres, rúcula, agriões, rabanetes, nabiças e aromáticas como a salsa e os coentros são as apostas seguras. As couves e as favas dispensam cobertura em boa parte do país, mas em zonas frias como Bragança agradecem-na.

O que não faz sentido é tentar manter tomate, pimento ou feijão. Não é o frio que os impede, é a falta de luz, e isso nenhuma cobertura resolve.

O limite do inverno não é o frio, é a luz

Fica para o fim a razão pela qual este artigo sai em setembro e não em novembro.

Entre meados de novembro e o início de fevereiro, em quase todo o país, os dias têm menos de dez horas de luz. Abaixo desse valor, o crescimento das hortícolas praticamente para, por muito abrigadas e aquecidas que estejam. As plantas não morrem, ficam simplesmente em suspenso, à espera que os dias voltem a alongar.

Isto muda completamente a forma de pensar a horta de inverno. A cobertura não serve para fazer crescer em dezembro. Serve para conservar vivo e colhível aquilo que já cresceu antes.

E é por isso que as próximas semanas decidem tudo. As plantas têm de atingir um tamanho próximo do de colheita até meados de novembro, porque a partir daí quase não progridem. Quem semeia em dezembro, mesmo dentro de uma estufa, colhe em março.

Nas próximas semanas, acompanhe as mínimas na previsão da sua zona e repare em duas coisas. Quando começarem a aparecer valores abaixo dos 5 ºC, é altura de ter a cobertura pronta a fechar. E nas noites limpas e sem vento, que são as de geada, é quando a proteção rende mais. Em noites de vento, mesmo com temperaturas parecidas, o ganho é bastante menor, e vale mais confiar nas culturas resistentes do que no plástico. Já no sul, em Faro, a cobertura serve menos para proteger e mais para adiantar colheitas.