Buraco nos mapas de chuva sobre Portugal: porque é que a precipitação evitará o nosso país nas próximas 144 horas

Buraco nos mapas de chuva sobre Portugal: porque é que a precipitação evitará o nosso país nas próximas 144 horas

Os mapas do modelo Europeu são muito claros: ao longo das próximas 144 horas, isto é, até quarta-feira, 4 de novembro, a chuva continuará ausente de Portugal continental. Importa agora, caro leitor, compreender o porquê!

À semelhança da forma como se irá desenrolar a reta final de outubro, em que a precipitação se manterá ausente da unidade territorial do Continente, os primeiros dias de novembro - pelo menos até dia 4 (próxima quarta-feira) - serão secos, estáveis e predominantemente soalheiros.

O que está na origem deste tempo prolongadamente seco e soalheiro?

Quando uma região do globo é atmosfericamente dominada por uma vasta e persistente área de altas pressões, a subsidência do ar tende a estabilizar o tempo e a dificultar o desenvolvimento das nuvens, dando origem a condições de céu pouco nublado ou limpo. Com esta configuração de tempo estável, seco e soalheiro a persistir, ganha terreno uma série de dias consecutivos sem precipitação significativa.

Para os últimos dias de outubro observa-se com clareza nos mapas da Meteored (ECMWF) a presença de um núcleo robusto de altas pressões sobre a Europa Central e Ocidental, inicialmente centrado sobre a Alemanha, a Bélgica e o Luxemburgo, e de outra área anticiclónica situada a nordeste dos Açores e que rumará às Ilhas Britânicas.

Poderoso anticiclone (com pressão atmosférica central de 1042 hPa) localizado sobre as Ilhas Britânicas na carta de previsão para as 12:00 da próxima segunda-feira, 2 de novembro.
Poderoso anticiclone (com pressão atmosférica central de 1042 hPa) localizado sobre as Ilhas Britânicas na carta de previsão para as 12:00 da próxima segunda-feira, 2 de novembro.

Na transição de outubro para novembro, altura em que também se irão inserir os 4 primeiros dias do décimo primeiro mês do ano, prevê-se que a circulação atmosférica favoreça a 'junção' e consolidação das duas zonas de altas pressões referidas, o que acabará por se traduzir num padrão de forte bloqueio anticiclónico sobre as Ilhas Britânicas.

A circulação das depressões ficará muito condicionada, sendo frequentemente desviada para outras latitudes (Islândia, Gronelândia e Escandinávia, por exemplo) reduzindo-se deste modo a probabilidade de passagem de frentes de chuva ativas sobre o Sudoeste Europeu, onde se insere Portugal continental.

Em consequência disto, Portugal continental, grande parte de Espanha e França e algumas outras zonas da Europa ocidental deverão permanecer à margem da ocorrência de precipitação, mantendo-se a tendência para a estabilidade atmosférica.

Quais são os efeitos deste poderoso anticiclone de bloqueio no tempo em Portugal?

A subsidência associada às altas pressões (movimento vertical e descendente do ar) tende a inibir a formação de nuvens, proporcionando condições de céu geralmente limpo ou pouco nublado. Não obstante, isso não será fator impeditivo para a provável formação de nevoeiro matinal na faixa do litoral situada a norte do Cabo Raso, tal como os nossos mapas revelam, para o período que se estende entre sexta-feira, 30 de outubro e quarta-feira, 4 de novembro.

Outro dos principais efeitos já acima referidos previstos para os próximos dias em Portugal continental é a reduzida ou praticamente inexistente probabilidade de precipitação, o que se traduzirá na persistência do tempo seco, estável e predominantemente soalheiro.

Precipitação acumulada em boa parte da Europa até quarta-feira, 4 de novembro. O tempo seco deverá persistir em Portugal continental até essa data.
Precipitação acumulada em boa parte da Europa até quarta-feira, 4 de novembro. O tempo seco deverá persistir em Portugal continental até essa data.

É preciso ainda ter em conta outro efeito meteorológico muito significativo. Fruto da nebulosidade reduzida das próximas jornadas, o aquecimento durante o dia e a perda de energia por radiação durante a noite fará com que a amplitude térmica diária seja muito elevada, especialmente nas regiões do interior.

Portanto, estaremos perante um panorama meteorológico caracterizado por tardes relativamente amenas e manhãs e noites mais frescas ou frias, mais marcante no interior de Portugal continental, embora no litoral o efeito de grande amplitude térmica também seja sentido.

Acresce ainda que a manutenção persistente de elementos climáticos como o vento fraco do quadrante leste (por vezes soprará de norte ou nordeste) e o céu pouco nublado ou limpo estarão na origem do favorecimento de descidas acentuadas da temperatura durante a noite, especialmente em vales e zonas abrigadas do interior Norte e Centro.

Temperatura prevista às 06:00 da manhã de terça-feira, 3 de novembro. À mesma hora preveem-se 3 ºC em Bragança e 17 ºC em Faro.
Temperatura prevista às 06:00 da manhã de terça-feira, 3 de novembro. À mesma hora preveem-se 3 ºC em Bragança e 17 ºC em Faro.

Caso as previsões de médio prazo não sofram alterações significativas, os modelos indicam a possibilidade das capitais distritais de Bragança e da Guarda já poderem registar temperaturas mínimas apenas ligeiramente acima dos 0 ºC entre terça e quarta-feira, dias 3 e 4 de novembro.

Poderão inclusive ser registados valores negativos na Guarda no dia 4, algo para o qual contribui principalmente a elevada altitude em que a cidade se situa. Estes valores térmicos já são muito mais condizentes com a estação outonal e com o tempo tipicamente novembrino.

Possível regresso da chuva a partir de quinta-feira, 5 de novembro

Ainda é precoce a confirmação deste cenário, mas as saídas deterministas do modelo ECMWF continuam a insistir no regresso da chuva à metade sul de Portugal continental na quinta-feira, 5 de novembro, possivelmente devido à formação de uma depressão que se situaria a sul/sudoeste do nosso país. Teremos de aguardar mais alguns dias para verificar se este cenário ganha consistência.