Esta cidade italiana esconde um mundo inteiro debaixo dos pés

No alto de uma enorme plataforma de origem vulcânica, esta localidade da Úmbria guarda uma catedral impressionante, túneis subterrâneos e um poço com centenas de degraus.

Debaixo desta cidade italiana há túneis, poços e séculos de história. Foto: Unsplash
Debaixo desta cidade italiana há túneis, poços e séculos de história. Foto: Unsplash

Talvez nunca tenha ouvido falar deste nome. Afinal, cidades como Roma, Veneza ou mesmo Florença sobrepõem-se quando se trata de escolher um destino para conhecer. Mas há outras opções que merecem entrar no roteiro quando se fala em viajar por Itália. É o caso de Orvieto, uma localidade da região da Úmbria, descrita pelo blogue ‘Volto Já’ como “cidade suspensa no coração de Itália” e “esquecida no tempo e nos roteiros”.

“A poucos quilómetros das rotas mais frequentadas por viajantes apressados, esta cidade preserva uma atmosfera de contemplação, onde a história se funde com a paisagem e a arte se revela em cada detalhe.”

Tem uma catedral monumental, túneis escavados na rocha vulcânica e um poço com 248 degraus por escadaria. O melhor? Fica a cerca de uma hora de comboio de Roma e tem muito para contar.

À primeira vista, chamam a atenção os edifícios históricos, as ruas estreitas e a imponente catedral. Mas há um detalhe que torna esta localidade especialmente interessante: parte da sua história está escondida debaixo da terra.

Sim, é isso mesmo. Ao longo dos séculos, os habitantes escavaram a rocha para construir poços, adegas, cisternas e espaços de armazenamento. Hoje, alguns destes locais podem até ser visitados.

Orvieto tem ainda uma ligação inesperada à história da psicanálise. Aliás, foi aqui que Sigmund Freud encontrou inspiração para um dos casos mais conhecidos dos seus estudos sobre os lapsos de memória. Mas, antes de chegar a essa história, há uma paragem que merece toda a atenção.

Uma catedral com séculos de história

O Duomo di Orvieto é o monumento mais emblemático da cidade. A construção começou em 1290 e prolongou-se durante séculos, dando origem a uma das catedrais góticas mais impressionantes de Itália.

A fachada é um dos seus maiores destaques, com mosaicos dourados, esculturas, relevos e uma grande rosácea. Há até quem diga que a decoração é tão detalhada que vale a pena observar os diferentes elementos de perto, em vez de tirar apenas uma fotografia e seguir caminho.

É impressionante. Foto: Unsplash
É impressionante. Foto: Unsplash

O interior também merece atenção, sobretudo a Capela de San Brizio, onde se encontram os frescos de Luca Signorelli dedicados ao Juízo Final. Pintadas entre 1499 e 1504, as cenas representam a ressurreição dos mortos, o paraíso e o inferno, com figuras humanas de grande expressividade.

A forma como o artista trabalhou os corpos terá influenciado outros nomes importantes do Renascimento, entre os quais Michelangelo, conhecido pelos frescos da Capela Sistina, no Vaticano.

Foi precisamente esta obra que ficou ligada a uma das histórias mais curiosas de Orvieto. Em 1897, Sigmund Freud visitou a cidade e ficou impressionado com os frescos de Signorelli. Mais tarde, relatou que, ao falar das pinturas, não conseguia recordar o apelido do artista, apesar de conhecer bem o seu trabalho.

O episódio tornou-se conhecido como o ‘lapso de Signorelli’ e foi analisado no livro Psicopatologia da Vida Quotidiana, publicado em 1901. Freud usou o caso para estudar a forma como pensamentos e experiências podem interferir na memória. Por outras palavras, até uma visita a uma catedral italiana pode acabar por dar origem a uma teoria sobre os esquecimentos humanos.

Depois de conhecer o monumento que inspirou esta história, faz sentido continuar a visita para lá das fachadas. Afinal, em Orvieto, há muito mais para descobrir do que aquilo que está à vista.

Túneis, poços e uma cidade debaixo da cidade

A rocha vulcânica sobre a qual Orvieto foi construída não serviu apenas de base para os edifícios. Ao longo do tempo, os habitantes aproveitaram-na para escavar poços, cisternas, adegas e espaços de armazenamento. Algumas destas estruturas remontam à época etrusca, enquanto outras foram utilizadas em períodos posteriores.

Durante séculos, os habitantes escavaram a rocha vulcânica para criar espaços úteis à vida quotidiana.

“Uma muralha medieval como tantas na Itália, mas não se engane, sob os seus pés escondem-se doze séculos de história e outras interessantes surpresas”, nota a ‘Revista Continente’.

O Pozzo di San Patrizio merece uma visita. Foto: Unsplash
O Pozzo di San Patrizio merece uma visita. Foto: Unsplash

Existem cavidades usadas como adegas e armazéns, bem como cisternas, poços e estruturas ligadas à produção de alimentos. E, sim, é possível conhecer parte deste património através das visitas guiadas, que dão acesso a cavidades e vestígios de antigas atividades quotidianas. O percurso ajuda a perceber como a população aproveitou o subsolo para guardar alimentos, gerir os recursos de água e adaptar-se às características do terreno.

Ainda assim, deixamos o aviso: não é propriamente uma segunda cidade intacta, mas um conjunto de espaços que revela uma parte menos conhecida da história local.

Entre os vestígios encontram-se antigos pombais, utilizados para criar aves destinadas à alimentação. Os pombos forneciam carne e ovos, recursos importantes numa época em que era necessário aproveitar tudo o que estivesse disponível. A tradição chegou à gastronomia regional, e ainda hoje alguns restaurantes incluem pratos de pombo nas ementas.

Em italiano, a palavra a procurar é piccione — uma informação útil tanto para os curiosos como para quem prefere escolher outra opção.

O subsolo de Orvieto guarda ainda outra construção impressionante: o Pozzo di San Patrizio. Mandado construir pelo papa Clemente VII no século XVI, o poço foi pensado para garantir o abastecimento de água à cidade em caso de cerco. A estrutura tem cerca de 54 metros de profundidade e duas escadarias em espiral independentes, que permitiam a circulação de pessoas e animais sem que se cruzassem.

Cada escadaria tem 248 degraus, “o equivalente a um prédio de 18 andares”. Por isso mesmo, convém reservar alguma energia para a subida. Se a ideia é conhecer Orvieto num só dia, este é um daqueles pontos em que vale a pena contar com algum tempo extra.

Como chegar a Orvieto a partir de Portugal

Para visitar Orvieto a partir de Portugal, uma das opções mais práticas é voar para Roma e seguir de comboio. A viagem desde a estação de Roma Termini demora geralmente entre uma hora a uma hora e meia, dependendo do serviço escolhido.

Os horários variam, pelo que convém confirmar as ligações antes de organizar o percurso.

A estação de Orvieto fica na parte baixa da cidade. Para chegar ao centro histórico, existe um funicular que faz a ligação à zona superior, evitando uma subida considerável a pé. A partir daí, é possível visitar grande parte dos principais monumentos caminhando pelas ruas do centro. Como há calçada e algumas inclinações, o calçado confortável será um bom aliado.

Esqueça Roma por um dia: esta cidade italiana merece entrar no roteiro. Foto: Unsplash
Esqueça Roma por um dia: esta cidade italiana merece entrar no roteiro. Foto: Unsplash

Também é possível alugar um carro em Roma. A viagem demora habitualmente cerca de uma hora e meia, consoante o trânsito, e permite aproveitar a deslocação para conhecer outras localidades da Úmbria. No entanto, o estacionamento e as restrições de circulação no centro histórico exigem alguma atenção.

Referências da notícia

Volto Já. (2026). Esta cidade suspensa no coração de Itália é esquecida no tempo e nos roteiros – descubra como visitá-la.
Revista Continente, Filho, Á. (2026). Orvieto: a cidade que inspirou uma teoria freudiana.