A Europa quer menos turistas, mas está a construir aeroportos para receber mais

A Europa enfrenta uma contradição crescente, tenta aliviar a pressão turística sobre as cidades, enquanto investe em aeroportos capazes de trazer ainda mais visitantes. Fique aqui a saber mais sobre este assunto!

O aumento do turismo em destinos europeus está a colocar uma pressão crescente sobre cidades, aeroportos e comunidades locais.
O aumento do turismo em destinos europeus está a colocar uma pressão crescente sobre cidades, aeroportos e comunidades locais.

A Europa enfrenta um paradoxo cada vez mais difícil de ignorar, enquanto várias cidades procuram limitar os efeitos do turismo excessivo, muitos dos seus aeroportos estão a preparar-se para receber ainda mais passageiros.

Esta contradição coloca em cima da mesa uma questão essencial, até onde pode crescer o turismo sem ultrapassar os limites das cidades e do próprio planeta?

Mais visitantes num continente já pressionado

O problema do chamado overtourism deixou de ser uma preocupação exclusiva de destinos como Veneza ou Barcelona. Em várias regiões europeias, o número crescente de visitantes tem provocado pressão sobre a habitação, os transportes, os espaços públicos e os recursos naturais.

Ao mesmo tempo, a resposta dada pelas infraestruturas aeroportuárias aponta numa direção diferente. Grandes aeroportos europeus estão a preparar novas pistas, terminais ou outras ampliações para acompanhar o crescimento previsto do tráfego aéreo.

É precisamente esta contradição que está no centro da discussão levantada pelo The New York Times num artigo publicado a 18 de setembro de 2026 sobre a expansão dos aeroportos europeus num momento em que várias cidades tentam controlar o excesso de turismo.

A questão torna-se ainda mais complexa porque os aeroportos não funcionam isoladamente. Cada nova ligação aérea pode facilitar a chegada de milhares ou milhões de visitantes, enquanto os custos dessa pressão, desde o congestionamento à subida dos preços da habitação, são sobretudo sentidos pelas populações locais.

Um crescimento com custos ambientais

Um recente estudo da organização Transport & Environment analisou os planos de expansão e as previsões de tráfego de 20 dos maiores aeroportos europeus, distribuídos por dez países.

Segundo a análise, todos os aeroportos estudados ultrapassariam o respetivo orçamento de carbono compatível com um cenário de aquecimento global de 1,7 °C. Mesmo considerando aviões mais eficientes e uma maior utilização de combustíveis sustentáveis, os autores concluem que os ganhos tecnológicos não seriam suficientes para compensar o aumento previsto do tráfego.

“O setor da aviação não pode continuar a crescer sem comprometer os objetivos climáticos da Europa.”
De acordo com a Transport & Environment.

A T&E estima que os planos de expansão analisados acrescentariam cerca de 225 milhões de toneladas de CO₂ às emissões associadas à capacidade aeroportuária atual até 2050.

O estudo aponta ainda que a aviação europeia poderá esgotar o seu orçamento de carbono compatível com 1,5 °C já em 2026 e o correspondente a 1,7 °C em 2033, segundo a metodologia utilizada pela organização.

Portugal surge entre os casos mais preocupantes

De acordo com a T&E, os aeroportos de Lisboa e Porto apresentam, entre os 20 aeroportos analisados, um dos maiores níveis de ultrapassagem do orçamento de carbono, 2,8 vezes o valor atribuído no cenário de 1,7 °C.

A organização calcula ainda que estes dois aeroportos representam aproximadamente 80% das emissões da aviação portuguesa.

A situação torna-se especialmente relevante perante o projeto de construção de um novo aeroporto para Lisboa e os planos de desenvolvimento da capacidade aeroportuária nacional.

Mais visitantes significam mais movimento e receitas, mas também podem trazer congestionamento, pressão sobre a habitação e desgaste dos espaços turísticos.
Mais visitantes significam mais movimento e receitas, mas também podem trazer congestionamento, pressão sobre a habitação e desgaste dos espaços turísticos.

Segundo a T&E, o novo aeroporto de Lisboa poderá representar mais 18 milhões de toneladas de CO₂ face ao cenário considerado no estudo uma quantidade equivalente, na comparação apresentada pela organização, a cerca de metade das emissões anuais de toda a economia portuguesa.

Espanha prepara uma grande expansão

A discussão não se limita a Portugal.
Em Espanha, estão previstas intervenções em 12 dos aeroportos mais movimentados do país, incluindo Madrid, Barcelona, Palma de Maiorca e Málaga. A T&E calcula que estes quatro aeroportos foram responsáveis por 66% das emissões associadas às partidas em Espanha em 2025.

As expansões surgem num país onde algumas das principais cidades e destinos turísticos enfrentam simultaneamente problemas relacionados com a concentração de visitantes.

Palma de Maiorca é um exemplo particularmente evidente desta tensão. A ilha depende fortemente do turismo, mas enfrenta também preocupações relacionadas com habitação, mobilidade, pressão sobre os serviços e capacidade dos espaços públicos.

A promessa da tecnologia

Os defensores da expansão aeroportuária argumentam que o futuro da aviação será mais eficiente. Aviões com menor consumo de combustível, combustíveis de aviação sustentáveis e novas tecnologias deverão permitir transportar mais passageiros com menos emissões por viagem.

A T&E, contudo, contesta que esses ganhos sejam suficientes para acompanhar o crescimento previsto. Na sua análise, o aumento do número de voos anula grande parte das melhorias obtidas através da eficiência dos aviões e da utilização de combustíveis sustentáveis.

Isto cria um dos principais dilemas da discussão, uma viagem individual pode tornar-se progressivamente menos poluente, mas o impacto total pode continuar a aumentar se o número de viagens crescer ainda mais depressa.

Turismo: crescimento ou limite?

O debate sobre os aeroportos é, por isso, também um debate sobre o próprio modelo turístico europeu. O turismo representa uma importante fonte de emprego, receitas e atividade económica para numerosas regiões. Ao mesmo tempo, a concentração excessiva de visitantes pode aumentar a pressão sobre a habitação e os serviços e alterar profundamente a vida das comunidades locais.

Para a T&E, os benefícios económicos da expansão aeroportuária também precisam de ser avaliados com maior cuidado. A organização cita uma investigação realizada com a New Economics Foundation segundo a qual o crescimento da conectividade aérea impulsiona diretamente o crescimento económico em apenas 37% das regiões europeias analisadas.

Assim, construir mais capacidade aeroportuária não significa necessariamente que todos os territórios beneficiarão da mesma forma.

Referência da notícia

Abend, Lisa. (2026). Europe’s Overtourism Problem Is Getting Worse. Airports Are Expanding.
Miele, Giacomo. (2026). Overshoot: How expansion plans break European airports’ carbon limits.