O seu animal de estimação consegue sentir um terramoto antes de si? Ciência explica como os animais percebem o fenómeno

Há séculos observa-se que alguns animais se comportam de forma estranha antes de um terramoto. A ciência tenta analisar se eles realmente percebem sinais invisíveis aos humanos.

O comportamento peculiar de alguns animais antes de um terramoto continua a intrigar os cientistas. Diversos estudos analisam se eles percebem sinais invisíveis que podem surgir antes de um terramoto.
O comportamento peculiar de alguns animais antes de um terramoto continua a intrigar os cientistas. Diversos estudos analisam se eles percebem sinais invisíveis que podem surgir antes de um terramoto.

Durante gerações, pastores, agricultores e habitantes de áreas propensas a terramotos contam histórias curiosas semelhantes. Eles relatam como, dias antes de um terramoto, alguns animais parecem comportar-se de forma estranha. Cães nervosos, gado inquieto ou animais selvagens que desaparecem repentinamente fazem parte destes contos incomuns. Por muito tempo, estas histórias foram consideradas meras superstições. No entanto, hoje, a curiosidade científica começou a prestar mais atenção a estes relatos.

A questão permanece: os animais conseguem detetar sinais antes de um terramoto? Embora a previsão de terramotos continue a ser um dos grandes desafios da geofísica, algumas investigações recentes têm tentado examinar se certas mudanças ambientais desencadeiam reações detetáveis no comportamento animal.

Animais e terramotos: observações que intrigam os cientistas

Durante séculos, houve relatos de comportamentos animais surpreendentes antes de terramotos. Em várias partes do mundo, houve relatos de vacas agitadas, pássaros a abandonar os seus habitats habituais e cobras a emergir da sua hibernação. Mas, por décadas, estas histórias permaneceram relegadas ao folclore local.

No entanto, nos últimos anos, algumas equipas científicas decidiram investigar se estes relatos escondem um fenómeno real. Analisar o comportamento animal antes de terramotos não é fácil, especialmente porque estes eventos não ocorrem com frequência suficiente para se obter uma série de dados consecutivos.

Mesmo assim, certos estudos encontraram pistas muito interessantes. Embora ainda não exista um sinal confiável que permita prever um terramoto com antecedência, os investigadores reconhecem que alguns padrões observados merecem atenção mais aprofundada e análises mais detalhadas.

Um caso impressionante: sapos e o terramoto de L'Aquila

Foi uma observação completamente fortuita que abriu uma linha de investigação surpreendente. Enquanto estudavam a reprodução de sapos num lago na Itália, algo inesperado aconteceu: os animais desapareceram por vários dias do local onde se reproduziam.

Sapos, vacas, gatos e cães podem alterar as suas rotinas antes de um terramoto. A ciência está a tentar entender que mudanças ambientais alertam esses animais.
Sapos, vacas, gatos e cães podem alterar as suas rotinas antes de um terramoto. A ciência está a tentar entender que mudanças ambientais alertam esses animais.

Cinco dias após o desaparecimento dos sapos, um terramoto de magnitude 6,3 atingiu as proximidades da cidade de L'Aquila em 2009. Isto chamou a atenção dos investigadores, pois uma revisão das suas observações revelou que a maioria dos sapos tinha deixado a área antes do tremor.

O estudo posterior mostrou que aproximadamente 96% dos sapos comuns haviam abandonado os seus locais de reprodução dias antes do terramoto de 2009. Esta descoberta foi uma das primeiras tentativas de quantificar uma mudança de comportamento em animais selvagens antes de um evento sísmico.

Sinais detetados na natureza

Estudos deste tipo não se limitam a anfíbios. No Parque Nacional Yanachaga, no Peru, uma organização de conservação chamada Wildlife Insights instalou câmaras para estudar a fauna da floresta. Estes dispositivos registam automaticamente qualquer movimento dos animais na área.

Nas semanas que antecederam um forte terramoto em 2011, os investigadores detetaram uma diminuição significativa na atividade registada pelas câmaras. Onde normalmente apareciam entre cinco e quinze animais diferentes por dia, o número caiu para menos de cinco.

Os dados mais impressionantes surgiram pouco antes do terramoto. Nas 24 horas que antecederam o tremor, as câmaras praticamente pararam de registar movimentos. Este silêncio biológico afetou diversos grupos de vertebrados na floresta, desde pequenos roedores até mamíferos maiores.

Animais de estimação, gado e o possível sinal pré-terramoto

Alterações comportamentais também foram descritas em animais domésticos e de criação. Há relatos de vacas que se deslocavam para locais incomuns ou demonstravam nervosismo antes de alguns terramotos. Existem até mesmo referências históricas que descrevem comportamentos incomuns em bovinos antes do grande terramoto de São Francisco de 1906.

Em estudos mais recentes, sistemas automatizados instalados em quintas japonesas detetaram variações no comportamento de vacas leiteiras antes de alguns terramotos locais. Estas variações incluem pequenas reduções na produção de leite e mudanças nos seus hábitos habituais.

Os animais de estimação também parecem ser afetados. Após o Grande Terramoto Japonês de 2011, investigações com donos de cães e gatos indicaram que um número significativo dos seus animais apresentou inquietação ou nervosismo nas horas que antecederam o desastre.

O que os animais podem pressentir antes de um terramoto?

A grande questão não é apenas se os animais reagem de forma diferente antes de um terramoto. A ciência também está a explorar que sinal específico poderia alertá-los de que um evento sísmico está prestes a ocorrer. Uma das hipóteses mais discutidas, proposta pelo cientista da NASA Friedemann Freund, aponta para as mudanças físicas no ambiente causadas pela acumulação de tensão nas rochas da crosta terrestre.

Este processo pode libertar partículas eletricamente carregadas que alteram as propriedades do ar. O aumento de iões positivos pode mudar o comportamento animal e também influenciar o humor das pessoas.

Outros possíveis sinais incluem vibrações impercetíveis aos humanos, alterações eletromagnéticas ou sons de frequência muito baixa. Mas, por enquanto, nenhuma explicação foi definitivamente confirmada.

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