Sete rios atmosféricos alimentaram a chuva extrema do inverno passado em Portugal

Sete tempestades em menos de um mês levaram investigadores de Évora a observar a atmosfera em tempo real, numa campanha que poderá melhorar as previsões de cheias e de precipitação extrema.

As cheias em Montemor-o-Velho, em fevereiro de 2026, foram causadas pela subida acentuada do caudal do rio Mondego e pelo colapso de diques de contenção no Baixo Mondego. Foto: Município de Montemor-o-Velho
As cheias em Montemor-o-Velho, em fevereiro de 2026, foram causadas pela subida acentuada do caudal do rio Mondego e pelo colapso de diques de contenção no Baixo Mondego. Foto: Município de Montemor-o-Velho

Em menos de um mês, sete rios atmosféricos atingiram a Península Ibérica durante o inverno de 2025-2026. Carregados de vapor de água proveniente do Atlântico, contribuíram para uma sucessão de episódios de precipitação intensa, que saturaram os solos e aumentaram o risco de cheias, inundações e deslizamentos de terra.

Em Évora, investigadores do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia para o Sistema Terra e Energia (CREATE), da Universidade de Évora, aproveitaram esta sequência excecional para observar a atmosfera em tempo real.

Integrada numa campanha científica internacional, a investigação procurou compreender como a humidade circula em altitude e interage com outros sistemas meteorológicos para desencadear episódios de chuva intensa. Os dados recolhidos poderão contribuir para melhorar a representação destes fenómenos nos modelos meteorológicos, ajudando a antecipar situações de risco.

Balões para seguir a humidade transportada pela atmosfera

Os rios atmosféricos são corredores longos e relativamente estreitos que concentram enormes quantidades de vapor de água em movimento na atmosfera. Podem estender-se por milhares de quilómetros, transportando humidade de regiões subtropicais para latitudes mais elevadas.

Apesar da sua dimensão, nem todos produzem impactos significativos na superfície. O efeito que exercem depende da quantidade de vapor transportada, da duração do fenómeno e da sua interação com depressões, frentes meteorológicas ou barreiras montanhosas. Quando estas condições favorecem a condensação, a humidade converte-se em precipitação persistente ou intensa.

Rios atmosféricos transportam grandes quantidades de vapor de água dos subtrópicos para latitudes mais elevadas. Imagem: United States Naval Research Laboratory, domínio público
Rios atmosféricos transportam grandes quantidades de vapor de água dos subtrópicos para latitudes mais elevadas. Imagem: United States Naval Research Laboratory, domínio público

Para estudar estes processos, a equipa de Évora lançou 14 radiossondas, pequenos instrumentos transportados por balões de hélio. Durante a subida, estes equipamentos medem temperatura, humidade, pressão atmosférica e velocidade do vento, podendo atingir altitudes entre 20 e 25 quilómetros.

Ao contrário das estações meteorológicas instaladas à superfície, as radiossondas permitem reconstruir o perfil vertical da atmosfera e observar a forma como o vento e a humidade variam em diferentes níveis de altitude.

As medições integraram a parceria científica europeia EUROP e foram igualmente disponibilizadas a sistemas internacionais de previsão meteorológica, incluindo os utilizados pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) e pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Um inverno excecionalmente chuvoso

A sucessão de rios atmosféricos coincidiu com um dos períodos mais húmidos das últimas décadas em Portugal continental. Segundo o IPMA, fevereiro de 2026 foi o fevereiro mais chuvoso dos últimos 47 anos e o quinto mais chuvoso desde o início dos registos, em 1931.

Considerando o intervalo entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, Portugal registou o sexto período mais chuvoso da série histórica e o mais chuvoso dos últimos 30 anos.

No Alentejo, as estações meteorológicas operadas pelo CREATE registaram, em fevereiro, totais expressivos de precipitação: 252,8 milímetros em Portel, 243,8 milímetros na cidade de Évora e 252,1 milímetros no Polo da Mitra.

A sucessão de depressões prolongou os períodos de chuva. A tempestade Kristin destacou-se por trazer ventos particularmente fortes e rajadas superiores a 150 km/h em zonas dos distritos de Leiria e Coimbra.

Com os solos já saturados após semanas de chuva, a capacidade de absorver água diminuiu significativamente, provocando cheias, inundações e deslizamentos de terra.

Alterações climáticas podem reforçar estes fenómenos

Os rios atmosféricos fazem parte da circulação natural da atmosfera e desempenham um papel essencial na redistribuição da humidade à escala planetária. Os cientistas, contudo, consideram que o aquecimento global poderá aumentar a sua intensidade.

Uma atmosfera mais quente consegue armazenar maiores quantidades de vapor de água. Por essa razão, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) considera altamente provável que estes corredores transportem mais humidade e gerem episódios mais intensos e duradouros num clima em aquecimento.

Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Geophysical Research Letters analisou os rios atmosféricos que atingiram a Península Ibérica entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, comparando os dados com simulações representativas de uma fase inicial de um cenário de elevadas emissões.

Em algumas regiões, o transporte de humidade observado foi entre 10% e 15% superior ao da simulação de referência.

Os resultados não permitem concluir que as alterações climáticas tenham causado aquele inverno específico. Mostram, porém, que alguns episódios recentes já apresentam características semelhantes às projetadas para cenários futuros de aquecimento, reforçando a necessidade de compreender melhor estes fenómenos.

Prever mais cedo para reduzir os danos

Identificar a aproximação de um rio atmosférico já não é, portanto, o principal desafio para os investigadores. A maior dificuldade está em determinar com precisão a quantidade de humidade transportada, a sua trajetória e os locais onde poderá originar precipitação extrema.

As radiossondas lançadas em Évora permitiram acompanhar a evolução da humidade e do vento em altitude durante vários episódios de rios atmosféricos. Foto: UÉvora
As radiossondas lançadas em Évora permitiram acompanhar a evolução da humidade e do vento em altitude durante vários episódios de rios atmosféricos. Foto: UÉvora

Os modelos meteorológicos atuais conseguem reconhecer condições favoráveis ao desenvolvimento destes fenómenos com vários dias de antecedência. Ainda assim, é difícil prever exatamente onde a precipitação será mais intensa.

A equipa do CREATE prepara agora uma nova participação numa campanha científica prevista para o inverno de 2026-2027. As observações recolhidas ajudarão a melhorar a representação da atmosfera nos modelos de previsão e poderão aumentar a capacidade de antecipar episódios meteorológicos potencialmente perigosos.

O objetivo é perceber com maior antecedência onde estes corredores de humidade irão descarregar mais precipitação e com que intensidade. Quanto mais precisas forem as previsões, maior será a margem de preparação das autoridades, dos serviços de proteção civil e das populações perante cheias, inundações e outros impactos associados aos fenómenos extremos.

Referências da notícia

Universidade de Évora. Rios atmosféricos trouxeram chuva extrema ao Alentejo.
J. C. Fernández-Alvarez, G. Alvarez-Socorro, R. Nieto & L. Gimeno. The 2025–2026 Iberian Atmospheric Rivers Exhibited Moisture Transport Resembling the Early SSP5-8.5 Climate Response. Geophysical Research Letters.
IPCC. Chapter 11: Weather and Climate Extreme Events in a Changing Climate.