Por que estão os cadernos de Marie Curie guardados a sete chaves?

As anotações da cientista polaca radicada em França representam os primórdios da nossa compreensão sobre a radioatividade, mas não estão ao alcance de todos. Descubra aqui por que são tão difíceis de consultar.

As notas que Marie Curie tirou ao longo da vida estão entre os documentos mais importantes para a História da Ciência. Imagens das páginas: Wellcome Collection
As notas que Marie Curie tirou ao longo da vida estão entre os documentos mais importantes para a História da Ciência. Imagens das páginas: Wellcome Collection

Na Biblioteca Nacional de França estão alguns dos livros mais valiosos do mundo, desde a Bíblia de Gutenberg até obras de autores consagrados como Stendhal e Montaigne, passando por partituras musicais de Beethoven e Chopin.

Todos estes exemplares são cuidadosamente conservados sob luz e temperatura controladas.

Mas há documentos, guardados longe da vista de todos, que merecem ainda mais cautela. Nas caves da biblioteca, localizada em Paris, os cadernos de Marie Curie são mantidos em cofres protegidos por várias camadas de chumbo.

Os protocolos de segurança da Biblioteca Nacional

Os investigadores que quiserem consultar estes manuscritos têm de assinar uma declaração de consentimento, isentando o Estado francês de qualquer responsabilidade. São igualmente obrigados a usar equipamentos de proteção individual e cumprir rigorosamente todas as normas de segurança.

Os protocolos não servem apenas para garantir que os documentos permaneçam intactos e bem conservados. Dados os níveis de radioatividade elevados, o seu manuseio sem proteção especial é muito perigoso.

Marie Curie morreu aos 67 anos com uma anemia aplásica, consequência provável da exposição prolongada ao rádio e ao polónio. Imagem: Canva/domínio público
Marie Curie morreu aos 67 anos com uma anemia aplásica, consequência provável da exposição prolongada ao rádio e ao polónio. Imagem: Canva/domínio público

Marie Curie é, até à data, a única mulher que recebeu o prémio Nobel duas vezes, em 1903, de Física, e em 1911, de Química. Juntamente com o marido, Pierre Curie, e o físico Henri Becquerel, descobriu a radioatividade, o que lhe valeu o primeiro Nobel. A segunda distinção foi-lhe atribuída por ter descoberto e isolado o rádio e o polónio.

Os prémios foram o culminar de anos de investigação, marcados pela exposição constante a substâncias perigosas. O casal Curie nunca imaginou o impacto devastador que a radioatividade poderia ter na saúde humana.

Marie Curie morreu em 1934, aos 67 anos, vítima de uma anemia aplásica, que terá sido consequência da exposição prolongada ao rádio e ao polónio.

No seu laboratório, a cientista polaca nunca trabalhou com proteção, manuseando metais radioativos perigosos como tório, urânio e plutónio, chegando inclusive a transportar algumas dessas amostras nos bolsos da bata.

O edifício onde Marie Curie vivia e trabalhava está interdito desde a década de 1980, sendo conhecido em França como Chernobyl do Sena. Imagem: Canva/domínio público
O edifício onde Marie Curie vivia e trabalhava está interdito desde a década de 1980, sendo conhecido em França como Chernobyl do Sena. Imagem: Canva/domínio público

Não é de admirar, por isso, que todos os seus objetos tenham de ser guardados em caixas de chumbo. O mesmo acontece, aliás, com o seu próprio corpo.

Uma urna de chumbo no Panteão de Paris

Tendo sido a primeira mulher sepultada no Panteão de Paris, a sua urna também é de chumbo, com 2,5 centímetros de espessura para evitar qualquer fuga de radioatividade.

E, do mesmo modo, o seu laboratório, um edifício de três andares, no sul da capital francesa, está fechado e cercado por um muro e arame farpado.

Após a sua morte, a casa continuou a ser usada durante décadas para diferentes fins, incluindo a sede do Instituto de Física Nuclear da Faculdade de Ciências de Paris.

Desconhecia-se que o local ainda continha níveis de radioatividade elevados, tendo sido interditado apenas na década de 1980, após ser conhecido um aumento no número de casos de cancro na comunidade.

Nas inspeções realizadas no edifício, foram encontrados vestígios de rádio, mas também de um isótopo de urânio com uma vida média de 4,5 mil milhões de anos.

Decidiu-se, por isso, transferir os bens de Marie Curie para as caves da Biblioteca Nacional. Entre os seus pertences, encontravam-se os cadernos de notas, hoje classificados como património nacional de França.

O corpo e os cadernos de Marie Curie deverão ser guardados em caixas de chumbo durante 1,5 mil anos, o tempo médio de desintegração dos átomos de rádio. Imagem: Canva/domínio público
O corpo e os cadernos de Marie Curie deverão ser guardados em caixas de chumbo durante 1,5 mil anos, o tempo médio de desintegração dos átomos de rádio. Imagem: Canva/domínio público

Na década de 1990, o laboratório foi alvo de uma profunda limpeza, mas as autoridades francesas ainda proíbem a entrada no local, continuando a controlar periodicamente os níveis de radiação nos arredores, incluindo no rio Sena.

Anotações disponibilizadas online

O corpo e os cadernos de anotações de Marie Curie deverão ser guardados em caixas de chumbo, por pelo menos 1,5 mil anos, o tempo médio de desintegração dos átomos de rádio.

Marie Curie quebrou muitas barreiras de género. Foi a primeira mulher a ganhar um Nobel e a primeira a lecionar na Sorbonne, abrindo caminho para outras investigadoras na academia e na ciência. Imagens: domínio público
Marie Curie quebrou muitas barreiras de género. Foi a primeira mulher a ganhar um Nobel e a primeira a lecionar na Sorbonne, abrindo caminho para outras investigadoras na academia e na ciência. Imagens: domínio público

As suas anotações, todavia, podem ser consultadas online, no website Wellcome Collection, da Fundação Wellcome Trust, em Londres, que disponibiliza gratuitamente o acesso digital a documentos históricos em áreas como ciência, arquitetura, fotografia ou geopolítica.

No caso dos cadernos de Marie Curie, esta é a única hipótese de consultar as suas anotações sem ter de vestir um fato de proteção individual, que, mesmo assim, não evitará todos os perigos.

Referência da notícia

American Council on Science and Health. Marie Curie’s Notebooks.
Aurora. Digitised Marie Curie Notebook Now Available to View Online.
Réseau Sortir du Nucléair. Tchernobyl-sur-Seine ou trois décennies de radioactivité aux portes de Paris.
Wellcome Collection. Páginas digitalizadas do caderno de anotações de Marie Curie (datado de 1899-1902).