Por que estão os cadernos de Marie Curie guardados a sete chaves?
As anotações da cientista polaca radicada em França representam os primórdios da nossa compreensão sobre a radioatividade, mas não estão ao alcance de todos. Descubra aqui por que são tão difíceis de consultar.

Na Biblioteca Nacional de França estão alguns dos livros mais valiosos do mundo, desde a Bíblia de Gutenberg até obras de autores consagrados como Stendhal e Montaigne, passando por partituras musicais de Beethoven e Chopin.
Mas há documentos, guardados longe da vista de todos, que merecem ainda mais cautela. Nas caves da biblioteca, localizada em Paris, os cadernos de Marie Curie são mantidos em cofres protegidos por várias camadas de chumbo.
Os protocolos de segurança da Biblioteca Nacional
Os investigadores que quiserem consultar estes manuscritos têm de assinar uma declaração de consentimento, isentando o Estado francês de qualquer responsabilidade. São igualmente obrigados a usar equipamentos de proteção individual e cumprir rigorosamente todas as normas de segurança.
Os protocolos não servem apenas para garantir que os documentos permaneçam intactos e bem conservados. Dados os níveis de radioatividade elevados, o seu manuseio sem proteção especial é muito perigoso.

Marie Curie é, até à data, a única mulher que recebeu o prémio Nobel duas vezes, em 1903, de Física, e em 1911, de Química. Juntamente com o marido, Pierre Curie, e o físico Henri Becquerel, descobriu a radioatividade, o que lhe valeu o primeiro Nobel. A segunda distinção foi-lhe atribuída por ter descoberto e isolado o rádio e o polónio.
Os prémios foram o culminar de anos de investigação, marcados pela exposição constante a substâncias perigosas. O casal Curie nunca imaginou o impacto devastador que a radioatividade poderia ter na saúde humana.
No seu laboratório, a cientista polaca nunca trabalhou com proteção, manuseando metais radioativos perigosos como tório, urânio e plutónio, chegando inclusive a transportar algumas dessas amostras nos bolsos da bata.

Não é de admirar, por isso, que todos os seus objetos tenham de ser guardados em caixas de chumbo. O mesmo acontece, aliás, com o seu próprio corpo.
Uma urna de chumbo no Panteão de Paris
Tendo sido a primeira mulher sepultada no Panteão de Paris, a sua urna também é de chumbo, com 2,5 centímetros de espessura para evitar qualquer fuga de radioatividade.
E, do mesmo modo, o seu laboratório, um edifício de três andares, no sul da capital francesa, está fechado e cercado por um muro e arame farpado.
Desconhecia-se que o local ainda continha níveis de radioatividade elevados, tendo sido interditado apenas na década de 1980, após ser conhecido um aumento no número de casos de cancro na comunidade.
Nas inspeções realizadas no edifício, foram encontrados vestígios de rádio, mas também de um isótopo de urânio com uma vida média de 4,5 mil milhões de anos.
Decidiu-se, por isso, transferir os bens de Marie Curie para as caves da Biblioteca Nacional. Entre os seus pertences, encontravam-se os cadernos de notas, hoje classificados como património nacional de França.

Na década de 1990, o laboratório foi alvo de uma profunda limpeza, mas as autoridades francesas ainda proíbem a entrada no local, continuando a controlar periodicamente os níveis de radiação nos arredores, incluindo no rio Sena.
Anotações disponibilizadas online
O corpo e os cadernos de anotações de Marie Curie deverão ser guardados em caixas de chumbo, por pelo menos 1,5 mil anos, o tempo médio de desintegração dos átomos de rádio.

As suas anotações, todavia, podem ser consultadas online, no website Wellcome Collection, da Fundação Wellcome Trust, em Londres, que disponibiliza gratuitamente o acesso digital a documentos históricos em áreas como ciência, arquitetura, fotografia ou geopolítica.
No caso dos cadernos de Marie Curie, esta é a única hipótese de consultar as suas anotações sem ter de vestir um fato de proteção individual, que, mesmo assim, não evitará todos os perigos.
Referência da notícia
American Council on Science and Health. Marie Curie’s Notebooks.
Aurora. Digitised Marie Curie Notebook Now Available to View Online.
Réseau Sortir du Nucléair. Tchernobyl-sur-Seine ou trois décennies de radioactivité aux portes de Paris.
Wellcome Collection. Páginas digitalizadas do caderno de anotações de Marie Curie (datado de 1899-1902).