Oásis em risco no gelo: a urgência de blindar a vegetação única da Antártida

Satélites revelam grandes lacunas na rede de reservas ecológicas da Antártida. Saiba mais aqui!

Detetar esta escassa vegetação requer satélites de alta resolução capazes de distinguir manchas milimétricas de musgo entre a imensidão branca.
Detetar esta escassa vegetação requer satélites de alta resolução capazes de distinguir manchas milimétricas de musgo entre a imensidão branca.

Apesar da imagem tradicional da Antártida como uma vasta e inóspita paisagem de gelo e neve, o continente mais frio do planeta também abriga vida vegetal. No entanto, um estudo recente revela uma realidade preocupante: apenas 21,4% da escassa flora antártica encontra-se, atualmente, inserida em áreas protegidas.

Esta vegetação cobre sensivelmente 44 quilómetros quadrados, o que equivale a um ínfimo 0,00031% da superfície total do continente.

Apesar da sua reduzida dimensão, esta flora desempenha funções ecológicas absolutamente cruciais. É um elemento fundamental para a regulação global do ciclo da água e do carbono, servindo também para proporcionar abrigo e alimento a diversas comunidades de insetos e microrganismos vitais para a sobrevivência do ecossistema polar.

Identificação de novas áreas prioritárias

Para colmatar esta considerável lacuna de proteção, uma nova investigação, identificou 92 localizações onde a ampliação das zonas de conservação seria prioritária. A equipa internacional utilizou dados de satélite de alta resolução para mapear estas áreas. O estudo pretende apoiar e orientar as decisões do Comité para a Proteção do Ambiente do Tratado Antártico.

Toda a vegetação da Antártida cabe em 44 quilómetros quadrados, cobrindo apenas 0,00031% do continente, mas sustentando microecossistemas vitais.
Toda a vegetação da Antártida cabe em 44 quilómetros quadrados, cobrindo apenas 0,00031% do continente, mas sustentando microecossistemas vitais.

A proposta assume particular relevância por contribuir para o objetivo do Quadro Mundial de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que estabelece a necessidade de proteger pelo menos 30% das zonas terrestres e marinhas do planeta até 2030. Entre as zonas propostas para proteção destacam-se a Península de Fildes, o Vale de Taylor e as Colinas de Vestfold.

Ameaças e singularidade da flora antártica

Na seleção destas áreas críticas, os cientistas ponderaram as graves ameaças que a flora enfrenta. Avaliou-se o impacto da proximidade a infraestruturas humanas, como estações de investigação, bem como o perigo introduzido por espécies exóticas invasoras (como é o caso da Poa annua, uma planta que já se estabeleceu na região e ameaça a flora nativa).

A Antártida tem só duas plantas com flor. Os seus musgos sobrevivem desidratando no frio extremo e reativam-se com água.
A Antártida tem só duas plantas com flor. Os seus musgos sobrevivem desidratando no frio extremo e reativam-se com água.

A vegetação autóctone é altamente especializada e inclui apenas duas espécies com flor: o cravo-antártico (Deschampsia antarctica) e a Colobanthus quitensis. A maior riqueza encontra-se nos quase 400 líquenes e em mais de 150 briófitas (musgos). Os investigadores sublinham que estes musgos são excelentes indicadores climáticos, pois conseguem desidratar na ausência de humidade e reativar-se rapidamente quando as condições ambientais se tornam favoráveis.

Os próximos passos para a conservação futura

As conclusões da investigação fornecem um roteiro estruturado, sustentado em evidências empíricas, para reforçar a proteção dos ecossistemas terrestres da Antártida. A pesquisa demonstra claramente que amplas faixas desta flora essencial se encontram hoje fora da rede de reservas protegidas.

De acordo com os investigadores, o próximo passo crucial envolverá a validação da informação recolhida através dos satélites. Será necessário realizar campanhas e expedições no terreno de forma a confirmar presencialmente a presença e o estado desta vegetação. Este esforço analítico e prático criará bases sólidas e cientificamente rigorosas para as futuras políticas de preservação vegetal, salvaguardando assim a biodiversidade ímpar deste recôndito ponto do globo.

Referência da notícia

CREAF. (2026). Solo una quinta parte de la vegetación de la Antártida está en áreas protegidas.