O sapo-comum está a adaptar-se ao calor, mas a ciência descobriu um limite decisivo
Investigadores portugueses descobriram que os girinos alteram a alimentação e aceleram o desenvolvimento para enfrentar águas mais quentes. Mas a estratégia perde eficácia à medida que a temperatura sobe.

Há uma história muito conhecida sobre um sapo colocado numa panela com água fria. Com a temperatura a subir lentamente, o animal não reage e acaba cozido. A história é falsa, mas a metáfora tornou-se uma forma popular de descrever quem se habitua gradualmente a situações prejudiciais.
A investigação de uma equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa conta uma versão muito diferente. Quando a água aquece, os girinos do sapo-comum não ficam passivos.
O problema é que essa capacidade tem limites. À medida que a temperatura aumenta, as estratégias de adaptação tornam-se progressivamente menos eficazes. O aquecimento pode estar a avançar mais depressa do que a fisiologia destes animais consegue acompanhar.
A estratégia está no prato
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, é o primeiro a demonstrar, num vertebrado, que a capacidade de compensar os efeitos do aumento da temperatura através da alimentação é condicionada por limitações fisiológicas.

A equipa estudou girinos de sapo-comum (Bufo spinosus) recolhidos na Serra de Sintra. Os animais foram criados em laboratório a 12, 16 e 20 graus Celsius, com três regimes alimentares distintos. Uns receberam alimento de origem animal, outros matéria vegetal. Um terceiro grupo podia escolher entre os dois.
A experiência revelou que os girinos conseguem ajustar a dieta à temperatura. Em condições mais quentes, os animais com possibilidade de escolha aumentaram a assimilação de alimento vegetal. Também elevaram a taxa de consumo. Essa flexibilidade permitiu atenuar alguns efeitos do aquecimento, mas apenas parcialmente.
Mais depressa, mas com custos
A temperatura alterou profundamente o desenvolvimento dos girinos. O período larvar diminuiu de cerca de 177 dias, nas condições mais frias, para apenas 30 dias a 20 graus Celsius.
A aceleração teve um preço. Os indivíduos que completaram a metamorfose sob temperaturas mais elevadas apresentaram menor massa corporal e pior condição física. O comprimento, porém, sofreu poucas alterações, sugerindo que algumas características podem ser mantidas com maior prioridade do que outras.
A investigação mostra, assim, que a adaptação não é uma resposta ilimitada. Um animal pode alterar o que come, acelerar o desenvolvimento e redistribuir recursos entre diferentes funções. Mas, quando as condições ambientais se afastam demasiado daquelas a que está adaptado, essas possibilidades começam a estreitar-se.
Quando o refúgio desaparece
A conclusão ultrapassa a história de uma espécie. Os girinos vivem num ambiente em que temperatura e alimentação estão intimamente ligadas. À medida que a água aquece, aumentam as exigências metabólicas e nutricionais. A capacidade de compensar esse desequilíbrio através da alimentação, porém, não cresce indefinidamente.

As consequências podem estender-se às relações entre espécies. Alterações no crescimento e na composição dos tecidos podem modificar o valor energético dos anfíbios enquanto presas e produzir efeitos em cadeia nos ecossistemas aquáticos.
A história do sapo na panela é uma metáfora sem fundamento científico. A investigação portuguesa revela algo mais complexo. Os animais não ignoram necessariamente a mudança. Podem responder-lhe, alterar comportamentos e reorganizar o próprio desenvolvimento.
Mas quando o ambiente muda mais depressa do que a fisiologia consegue acompanhar, já não basta escolher melhor o que comer. É preciso que ainda existam lugares onde seja possível escapar ao calor.