O que acontece no cérebro quando imaginamos algo? A ciência explica

Um novo estudo revela que a imaginação não é ilimitada, está profundamente ligada à visão e aos mecanismos cerebrais que utilizamos para interpretar o mundo real. Vemha saber mais aqui!

Em vez de criar imagens do zero, o cérebro combina e reorganiza experiências visuais anteriores, mostrando que a imaginação está limitada pelo que já vimos e vivemos.
Em vez de criar imagens do zero, o cérebro combina e reorganiza experiências visuais anteriores, mostrando que a imaginação está limitada pelo que já vimos e vivemos.

Durante séculos, a imaginação foi vista como uma capacidade quase ilimitada do cérebro humano, uma ferramenta criativa capaz de transcender a realidade.

No entanto, um estudo recente publicado na revista Science vem desafiar essa ideia ao mostrar que a imaginação está profundamente ancorada nos mesmos mecanismos biológicos que usamos para ver o mundo.

Um código comum entre ver e imaginar

A investigação revela que a imaginação visual não é um processo independente, mas sim uma espécie de “reutilização” do sistema visual.

Quando observamos um objeto, determinados neurónios são ativados para codificar as suas características. Surpreendentemente, ao imaginar esse mesmo objeto mais tarde, o cérebro reativa parte desses mesmos neurónios, utilizando um código neural semelhante.

Os cientistas conseguiram demonstrar que cerca de 40% dos neurónios envolvidos na perceção visual voltam a disparar quando uma pessoa imagina uma imagem previamente vista.

Isto sugere que a imaginação não cria imagens do nada, ela reconstrói experiências visuais passadas com base em padrões já armazenados no cérebro.

Este “código partilhado” foi observado numa região chamada giro fusiforme, essencial para o processamento visual de alto nível, como o reconhecimento de rostos e objetos.

Porque é que a imaginação parece real, mas não é?

Uma das questões mais intrigantes é por que razão as imagens mentais podem parecer tão vívidas.

A resposta está precisamente nesta sobreposição neural, ao reutilizar os mesmos circuitos da visão, o cérebro cria experiências internas que se aproximam da perceção real.

No entanto, existe uma diferença crucial. Durante a visão real, a atividade neuronal é mais intensa e completa. Já na imaginação, apenas uma parte desses neurónios é ativada, o que cria uma versão menos detalhada e mais “difusa” da imagem.

É essa diferença de intensidade que permite ao cérebro distinguir entre o que é real e o que é imaginado. Quando esse mecanismo falha, como em certas perturbações psiquiátricas, as imagens mentais podem tornar-se intrusivas e difíceis de separar da realidade.

O papel da memória e os limites da imaginação

O estudo também sugere que a imaginação está limitada pelo o que já vimos ou experienciámos. Como depende da reativação de padrões existentes, não conseguimos imaginar algo completamente desligado da nossa experiência visual prévia.

A imaginação recorre aos mesmos circuitos da visão, ativando neurónios semelhantes, mas com menor intensidade, o que explica porque é que as imagens mentais são menos nítidas do que a realidade.
A imaginação recorre aos mesmos circuitos da visão, ativando neurónios semelhantes, mas com menor intensidade, o que explica porque é que as imagens mentais são menos nítidas do que a realidade.

Mesmo quando pensamos estar a criar algo totalmente novo, o cérebro está, na prática, a combinar e reorganizar elementos já armazenados. Isto coloca um limite biológico à criatividade: ela é poderosa, mas não infinita.

Implicações para a saúde e a tecnologia

Para além de aprofundar o conhecimento sobre o funcionamento do cérebro, estas descobertas têm implicações práticas importantes.

Ao compreender como o cérebro gera imagens mentais, os investigadores acreditam que será possível desenvolver novas abordagens para tratar doenças como o stress pós-traumático (PTSD) ou a perturbação obsessivo-compulsiva, onde imagens mentais vívidas desempenham um papel central.

Além disso, o uso de inteligência artificial foi essencial neste estudo. Os cientistas conseguiram traduzir a atividade neuronal em representações visuais e até prever o que uma pessoa estava a imaginar com base nesses padrões. Isto abre portas a tecnologias futuras capazes de interpretar ou até reconstruir imagens mentais.

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