O financiamento climático também pode contribuir para a mitigação de conflitos nos países em desenvolvimento
O financiamento climático refere-se a todos os fluxos financeiros que se destinam a apoiar ações para a redução das emissões e de adaptação ás alterações climáticas, visando alcançar os objetivos do Acordo de Paris.

Este apoio, privado ou público, por parte dos países desenvolvidos, historicamente mais poluidores, destina-se a países em desenvolvimento, que são mais vulneráveis aos fenómenos extremos provocados pelas alterações climáticas.
Alterações climáticas e conflitos
A escassez de recursos, o descontentamento social e a desigualdade são fatores que alimentam muitas vezes os conflitos nos países em desenvolvimento.
Os conflitos destroem justamente aquilo que uma comunidade precisa para se adaptar. As pessoas são deslocadas e o conhecimento local perde-se. A infraestrutura é destruída, e a base física da resiliência desaparece.
Nas zonas de conflito os grupos armados controlam a terra e a água, transformando os bens comuns em campos de batalha. A circulação é restringida, impedindo que agricultores cheguem aos mercados e que o produtor rural, dedicado à pecuária, tenha acesso às pastagens.
Muitos cientistas já identificaram as alterações climáticas como um fator significativo de conflitos, particularmente conflitos civis de pequena escala e aqueles impulsionados pela competição por recursos.
Quanto aos eventos extremos, estes provocam perdas no PIB, aumentam a escassez de recursos e elevam os custos futuros de adaptação, pressionando as economias nacionais e o sector do desenvolvimento global. A subida das temperaturas leva a eventos climáticos extremos mais frequentes, provocando escassez de água, de terras aráveis e de energia, além de danificar as infraestruturas.

Nas regiões afetadas por conflitos, os investimentos direcionados para as infraestruturas e os serviços sociais são essenciais para implementar intervenções climáticas ativas e ampliar as iniciativas de adaptação climática.
Isto verifica-se especialmente no caso do financiamento climático, que alivia o stress hídrico e impulsiona projetos de energias renováveis. E quanto maior for o financiamento climático, maior será o impacto na promoção da paz.
Os autores do estudo analisaram dados de 85 países em desenvolvimento, ao longo de mais de duas décadas, entre 2000 a 2023, e concluíram que o financiamento climático relacionado com infraestruturas sociais desempenha um papel importante na redução de conflitos, especialmente em conflitos intraestatais de pequena escala e aqueles ligados à competição por recursos.
O financiamento climático relacionado com infraestruturas não só apoia o desenvolvimento, como também reforça a resiliência e o bem-estar das comunidades vulneráveis, melhorando o acesso a recursos essenciais como a água e a energia, que são vitais para a subsistência e podem, por sua vez, ajudar a reduzir o risco de conflitos.
Além disso, os resultados mostram que quanto mais financiamento climático chega aos países beneficiários, menor é a incidência de conflitos relacionados com os recursos naturais.
Os investimentos na defesa contra inundações, na gestão da água e na agricultura resiliente ao clima ajudam uma região a adaptar-se a um clima imprevisível. Isto reduz a pressão sobre as pessoas que vivem nestas regiões e diminui a probabilidade de conflitos.
Recomendações dos autores do estudo
O financiamento climático aos países onde a desertificação e as secas, devido às alterações climáticas, levaram à redução das pastagens, corroendo a coexistência pacífica das comunidades agrícolas, é fundamental.

O estudo constata que o financiamento climático faz muito mais do que apenas ajudar as nações a adaptarem-se às alterações climáticas. Também contribui para a paz e a estabilidade em regiões frágeis.
Os governos, os decisores políticos e os doadores devem considerar as implicações mais amplas quando decidirem quanto investir em financiamento climático.
Os responsáveis pelo licenciamento climático devem garantir que este chegue às regiões mais vulneráveis, aquelas que são afetadas por conflitos e insegurança, que podem sofrer com um financiamento climático insuficiente e uma maior vulnerabilidade, o que pode agravar os riscos de segurança relacionados com o clima.
Os decisores políticos devem dar maior prioridade aos investimentos em água e energias renováveis em contextos afetados por conflitos e altamente vulneráveis, uma vez que estes parecem ser especialmente relevantes para a redução do risco de conflito.
Os responsáveis pelos projetos devem ajudar os países que recebem o financiamento a reforçar os seus sistemas de planeamento, execução e monitorização de projetos, para que possam utilizar o financiamento de forma eficiente, mesmo em situações difíceis e instáveis.
Além disso, é necessária uma governação forte no terreno, incluindo o envolvimento das comunidades locais e dos grupos marginalizados.
Referência da notícia
Chin-Hsien YuORCID Icon, Yingyi ShiORCID Icon et al., “Climate finance as a catalyst for peace”, Climate Policy Journal, Published: 23 April 2026
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