Noites cada vez mais tropicais: como as árvores certas podem ajudar a refrescar as cidades

Cidades cada vez mais quentes e noites sem descanso: a escolha das árvores pode fazer toda a diferença. Saiba mais aqui!

A cor dos materiais importa: ruas e telhados mais claros refletem até 30–50% mais radiação solar do que os escuros, reduzindo significativamente o aquecimento local.
A cor dos materiais importa: ruas e telhados mais claros refletem até 30–50% mais radiação solar do que os escuros, reduzindo significativamente o aquecimento local.

Nas últimas décadas, as alterações climáticas têm-se manifestado de forma clara no aumento das temperaturas mínimas noturnas, fenómeno particularmente evidente em Espanha. O estudo mostra que as chamadas “noites tropicais”, em que a temperatura não desce abaixo dos 20 °C, deixaram de ser raras em muitas regiões do país e tornaram-se um indicador claro da tropicalização do clima ibérico.

Além de mais frequentes, noites tropicais também são cada vez mais intensas

Entre 1970 e 2023, a frequência destas noites aumentou em quase todas as regiões, com maior intensidade no arquipélago das Canárias, no sudeste peninsular e na costa mediterrânica, onde já se verificam dezenas ou mesmo centenas de noites tropicais por ano. A tendência não é apenas de maior frequência, mas também de maior intensidade, prolongamento da época em que ocorrem (surgindo cada vez mais cedo na primavera e estendendo-se até ao outono) e consecutividade, o que expõe as populações a períodos mais longos de desconforto térmico noturno.

As superfícies impermeáveis (asfalto, betão, telhados escuros) absorvem calor durante o dia e libertam-no lentamente à noite, o que explica porque as cidades quase não arrefecem depois do pôr do sol.
As superfícies impermeáveis (asfalto, betão, telhados escuros) absorvem calor durante o dia e libertam-no lentamente à noite, o que explica porque as cidades quase não arrefecem depois do pôr do sol.

O estudo evidencia também que, enquanto nas regiões costeiras estas noites se acompanham frequentemente de elevada humidade relativa, nas áreas interiores tendem a ser secas, agravando a sensação de calor.

Estes resultados são preocupantes do ponto de vista da saúde pública, já que noites excessivamente quentes dificultam o descanso e estão associadas a maiores taxas de mortalidade e morbilidade durante vagas de calor.

O estudo conclui que estamos perante uma clara “tropicalização” das noites espanholas, com impactos profundos na qualidade de vida, exigindo medidas de adaptação urbana e de saúde pública.

O que nos dizem os estudos para mitigar os efeitos?

Paralelamente, outros estudos destacam a importância das árvores na mitigação destes efeitos, sobretudo em contexto urbano. A investigação demonstra que nem todas as espécies de árvores oferecem o mesmo benefício térmico, e que o seu efeito varia consoante o clima, o desenho urbano e a densidade edificada. Em climas áridos, como no Médio Oriente ou no norte de África, as árvores conseguem reduzir a temperatura diurna em cerca de 9 °C, ainda que provoquem um ligeiro aumento noturno, na ordem dos 0,4 °C.

Uma única árvore adulta pode transpirar até 500 litros de água por dia no verão, contribuindo para arrefecer o ar através da evapotranspiração.
Uma única árvore adulta pode transpirar até 500 litros de água por dia no verão, contribuindo para arrefecer o ar através da evapotranspiração.

Já em climas tropicais húmidos, o arrefecimento diurno é mais reduzido, cerca de 2 °C, acompanhado por um aquecimento noturno de 0,8 °C. Nos climas temperados, mais próximos da realidade portuguesa e espanhola, a redução média é de 6 °C durante o dia, mas com um efeito colateral de aumento noturno até 1,5 °C.

Um dado relevante é que a combinação de árvores de folha caduca e perene, sobretudo em espaços urbanos mais abertos, potencia os efeitos de arrefecimento, garantindo cerca de 0,5 °C adicionais de redução. Pelo contrário, em áreas densamente construídas de climas áridos, as espécies perenes são mais eficazes, assegurando sombra persistente e evapotranspiração constante.

Estes resultados sublinham que plantar árvores em meio urbano não deve ser feito de forma aleatória, mas sim estratégica. É necessário escolher as espécies certas para cada contexto climático e urbano, localizar os exemplares em pontos críticos para maximizar o sombreamento e combinar tipologias arbóreas para potenciar o arrefecimento.

Além disso, o planeamento deve articular-se com outras soluções de “infraestrutura verde”, como coberturas e paredes vegetadas, corredores ecológicos e superfícies permeáveis, que em conjunto reforçam a resiliência das cidades às ondas de calor. Exemplos como Barcelona, Paris ou Vitoria mostram que estratégias como a “regra 3-30-300” (ver três árvores desde casa, garantir 30 % de cobertura arbórea no bairro e ter um espaço verde a menos de 300 metros) têm benefícios tanto no conforto térmico como na saúde mental e social das populações.

Em síntese, os estudos analisados convergem para a mesma preocupação: as cidades estão a enfrentar noites cada vez mais quentes, o que compromete a saúde e o bem-estar dos cidadãos. O aumento das noites tropicais em Espanha ilustra o impacto direto do aquecimento global, enquanto os estudos sobre arborização urbana revelam que, embora as árvores sejam uma das soluções mais eficazes para mitigar o calor, a sua escolha e distribuição têm de ser planeadas com rigor.

Referência da notícia

Correa, J., Dorta, P., López-Díez, A., & Díaz-Pacheco, J. (2024). Analysis of tropical nights in Spain (1970–2023): Minimum temperatures as an indicator of climate change. International Journal of Climatology, 44(9), 3006–3027. https://doi.org/10.1002/joc.8510

Daniel Jato-Espino, Sophie Lierow, María-Ángeles Rodríguez-Sánchez, Using classification algorithms to model nighttime Surface Urban Heat Island (SUHI), with an emphasis on the role of urban trees, Building and Environment, Volume 270

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