Navegação no Oceano Ártico e a relação com o degelo em 2019

Devido ao derretimento do gelo a partir de meados de agosto, o Oceano Ártico está amplamente aberto à navegação. Esta ocorrência permite reduzir para metade do tempo certas viagens. Contamos-lhe mais aqui.

Teresa Abrantes Teresa Abrantes 31 Ago. 2019 - 17:32 UTC
O degelo no Oceano Ártico em meados de agosto atingiu recorde anterior.

Este verão o degelo foi tão intenso, ao nível do recorde de 2012, que é possível fazer a travessia nordeste da costa da Sibéria totalmente livre de gelo. Esta ausência de gelo permite a navegação no Oceano Ártico e reduzir para metade do tempo certas viagens, como por exemplo entre os portos chineses e a Antuérpia, que normalmente se faz pelo canal de Suez. Pode ser praticada atualmente a navegação também através das ilhas e costas do Canadá.

Esta situação, excecional já há três décadas, tende a repetir-se cada vez com mais frequência. Este é o resultado de um aquecimento global particularmente forte nas latitudes mais elevadas. Um aquecimento bem previsto pelos modelos numéricos do clima. Mas esses mesmos modelos subestimaram a velocidade com a qual o bloco de gelo reagiria, principalmente porque não levaram em conta o efeito da sua fragmentação. Assim, há vinte anos atrás, a situação atual não era esperada antes de meados do século XXI.

A partir de meados de agosto a superfície do bloco de gelo - área do oceano onde pelo menos 15% da superfície é coberta de gelo - era de apenas 5,04 milhões de km², em comparação com cerca de 8 milhões de km² na mesma data no início dos anos 80.

Fenómeno irreversível

A ocorrência do degelo mais rápido do que o esperado no verão é um fenómeno irreversível. De facto, ao longo dos anos, o derretimento foi removendo o gelo marinho que existe há muitos anos, aqueles que sobreviveram ao verão. Estes velhos blocos de gelo empilhavam-se uns sobre os outros e formavam uma espessura muito maior, até mais de 4 metros, do que a do gelo formado durante um único inverno.

O degelo na Gronelândia intensificou-se a partir de 2004.

Pouco a pouco, a espessura média do gelo marinho foi diminuindo e os últimos dados de 15 de julho deste ano, apontam para pouco mais de um metro, contra mais de dois metros no início dos anos 80, na mesma data. Essa redução na espessura do gelo, inclusive durante o inverno, facilita o seu derretimento renovado e precoce quando o verão regressa.

Durante o verão, as águas superficiais do Oceano Árctico aquecidas e livres de gelo, vêem o desenvolvimento do fitoplâncton bem como a fauna marinha que o explora. É todo o ecossistema que se está a alterar. De acordo com os cientistas e algumas investigações da NASA, o processo de degelo na Gronelândia intensificou-se a partir de 2004.

Segundo estudos recentes, no lado do gelo continental, a calota de gelo da Gronelândia no verão de 2019 também sofreu um derretimento significativo com dois episódios marcantes: um no final de junho e outro no início de agosto. Em contraste com o gelo do mar, o derretimento do gelo continental é refletido num aumento global no nível do mar.

Mesmo que os registos de diminuição do bloco de gelo não estejam necessariamente em coincidência com as temperaturas médias globais, vale a pena notar que o ano de 2019 tem sido particularmente quente a nível global. Observou-se um período de janeiro a julho como o segundo mais quente desde o início das leituras e registo de temperaturas (1880) e o mês de julho de 2019 foi recorde absoluto para este mês.

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