Nascimento do primeiro bebé no Reino Unido após transplante de útero de dadora falecida

O transplante de útero é uma técnica inovadora que possibilita a gravidez em mulheres com infertilidade uterina absoluta, representando um avanço relevante na medicina reprodutiva moderna. Saiba mais aqui sobre o caso real no Reino Unido!

Primeiro bebé no Reino Unido nasce após transplante de útero de dadora falecida, marcando um avanço histórico na medicina reprodutiva. Fonte: Womb Transplant UK/PA
Primeiro bebé no Reino Unido nasce após transplante de útero de dadora falecida, marcando um avanço histórico na medicina reprodutiva. Fonte: Womb Transplant UK/PA

A infertilidade uterina, definida pela ausência de um útero funcional, afeta um número significativo de mulheres em idade reprodutiva e limita severamente a capacidade de engravidar.

Uma causa congénita comum é a síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH), na qual o útero não se desenvolve apesar da presença de ovários funcionais.

Desde o primeiro transplante uterino bem-sucedido, realizado na Suécia em 2014, esta técnica emergiu como uma possibilidade real de proporcionar a gravidez a mulheres com infertilidade uterina absoluta.

O caso clínico: transplante de útero de dadora falecida no Reino Unido

A paciente, Grace Bell, nasceu com MRKH e foi selecionada para um estudo clínico conduzido no Reino Unido que permitiu a realização de um transplante de útero de uma dadora falecida. A cirurgia teve lugar em 2024 como parte de um programa de investigação.

Após o transplante, Bell concebeu através de fertilização in vitro (FIV) com os seus próprios gametas. A gravidez foi acompanhada clinicamente até ao termo.

"O nascimento de um bebé no Reino Unido, resultante de um transplante de útero proveniente de uma dadora falecida, constitui um avanço notável na medicina reprodutiva e transplantológica." The Guardian

Em dezembro de 2025, a paciente deu à luz um bebé do sexo masculino, chamado Hugo Richard Norman Powell, por cesariana no Queen Charlotte’s and Chelsea Hospital, em Londres. Ambos, mãe e filho, apresentaram boa saúde imediata.

Este nascimento marca o primeiro caso no Reino Unido de bebé nascido após transplante de útero de dadora falecida e está entre os poucos casos documentados desta modalidade de doação na Europa.

Frequência global de transplantes uterinos com nascimento

O transplante uterino é uma intervenção médica rara e altamente especializada. Desde o primeiro nascimento bem-sucedido em 2014 na Suécia, foram realizadas mais de 130 transplantes uterinos em todo o mundo.

Estima-se que, até ao início de 2026, mais de 70 bebés tenham nascido mundialmente após transplantes de útero, quer de dadoras vivas quer de dadoras falecidas, como resultado de mais de cem procedimentos realizados em diversos países, incluindo Suécia, Estados Unidos, Brasil, China e agora Reino Unido.

Embora ainda raros, estes nascimentos demonstram que os transplantes uterinos podem proporcionar resultados reprodutivos positivos e constituem uma opção terapêutica para mulheres com infertilidade uterina absoluta.

Saúde materna e neonatal

Os nascimentos após transplantes de útero documentados até agora têm, em geral, resultados neonatais positivos, sem anomalias de desenvolvimento significativas reportadas nos bebés nascidos de úteros transplantados.

Grace Bell e Steven Powell com o seu filho bebé, Hugo. Foto: Womb Transplant UK/PA.
Grace Bell e Steven Powell com o seu filho bebé, Hugo. Foto: Womb Transplant UK/PA.

No entanto, a gestação após transplante uterino é considerada de alto risco, com maior incidência de complicações obstétricas, como hipertensão gestacional e parto prematuro, exigindo uma monitorização médica intensiva.

Após o transplante, as receptoras necessitam de imunossupressores para evitar a rejeição do órgão. Normalmente, o útero transplantado é removido após um ou dois partos para permitir a interrupção dos imunossupressores.

Implicações éticas e políticas de saúde

A utilização de úteros de dadoras falecidas levanta questões sobre consentimento informado, uma vez que este órgão não está tipicamente incluído nos sistemas de doação padrão em cadáveres no Reino Unido.

Dados os recursos clínicos e financeiros necessários, bem como os riscos associados, existe um debate sobre a priorização desta técnica no sistema de saúde pública, especialmente em contextos onde a FIV e outras opções reprodutivas alternativas estão disponíveis. A equidade no acesso a este tratamento permanece um desafio.

O desenvolvimento futuro desta área exigirá políticas claras sobre doação, consentimento e alocação de recursos, bem como estudos longitudinais para avaliar a saúde a longo prazo das mães e dos filhos nascidos após transplantes uterinos.