Microplásticos na praia da Barra evidenciam a urgência de vigiar toda a costa portuguesa
Investigadores da Universidade de Aveiro detetam uma acumulação significativa de pequenas partículas sintéticas na zona balnear aveirense, sobretudo junto à linha de água, onde as ondas depositam os poluentes.

Caminhar descalço pelo areal da Praia da Barra é um dos rituais prediletos de milhares de veraneantes que visitam o litoral de Aveiro. Sob os nossos pés, no entanto, esconde-se uma realidade preocupante que escapa ao olhar humano.
Uma investigação pioneira liderada por cientistas da Universidade de Aveiro revela que esta popular estância da costa portuguesa apresenta uma quantidade expressiva de microplásticos, fragmentos de polímeros inferiores a cinco milímetros.
Para traçar este mapa da poluição, a equipa recolheu mais de três dezenas de amostras de sedimentos em áreas estratégicas da praia. A escolha do local não foi aleatória, uma vez que a Barra sofre a pressão combinada de um turismo balnear intenso e de um forte tráfego comercial e pesqueiro oriundo do porto contíguo.
O resultado da contagem laboratorial fixou uma mediana de cem partículas por cada quilograma de areia, embora os picos de contaminação atinjam valores três vezes superiores em determinados pontos.
A radiografia dos resíduos domésticos
A esmagadora maioria dos materiais encontrados na areia (95,5%) corresponde a plásticos utilizados diariamente em ambiente doméstico ou industrial.
O restante inventário divide-se entre fibras de nylon de redes de pesca e restos de poliéster provenientes da lavagem de vestuário sintético.
Mais do que a origem, as dimensões destas substâncias despertam apreensão na comunidade académica. Quase a totalidade dos fragmentos recolhidos mede menos de um milímetro, apresentando colorações escuras ou transparentes que se confundem facilmente com os minerais da própria praia.

Esta camuflagem física facilita a dispersão dos resíduos através das marés, potenciando a sua entrada direta na base da cadeia alimentar marinha, onde são ingeridos por pequenos organismos que servem de alimento a peixes de consumo humano.
Um alerta para toda a costa nacional
Face à gravidade dos dados recolhidos, os autores do relatório lançam um aviso que ultrapassa as fronteiras do distrito de Aveiro. Os cientistas defendem que estes resultados evidenciam a necessidade urgente de se avançar para uma monitorização sistemática e contínua de toda a costa portuguesa.
Esta vigilância científica regular deve ser aplicada prioritariamente nas zonas balneares com maior afluência de público, onde a pressão humana e económica é superior e o impacto potencial na saúde pública se torna mais imediato.
Os riscos associados a esta acumulação sedimentar estendem-se à saúde dos banhistas de formas que ainda não são totalmente conhecidas. Os depósitos plásticos acumulados servem de suporte para o desenvolvimento de colónias de microrganismos nocivos.

Vírus e bactérias patogénicas encontram nestas superfícies artificiais um ancoradouro ideal para proliferar, elevando a probabilidade de ocorrência de infeções cutâneas ou gastrointestinais nas águas locais.
A urgência de uma nova gestão costeira
As propriedades químicas destes materiais fazem ainda com que absorvam compostos químicos altamente tóxicos que flutuam na água, tais como pesticidas agrícolas e metais pesados. Quando os animais ingerem estes fragmentos contaminados, as substâncias venenosas acumulam-se nos tecidos biológicos e desencadeiam desregulações hormonais severas.
A resolução deste problema exige uma transformação estrutural na gestão de resíduos urbanos e no comportamento cívico das populações. Reduzir a introdução de materiais descartáveis no quotidiano e reforçar a limpeza das praias são passos obrigatórios para inverter a tendência atual, rematam os autores.
Referência da notícia
Universidade de Aveiro. Microplásticos acumulam-se em grande quantidade na Praia da Barra.
Khawla Chouchene, Joana C. Prata, João da Costa, Armando C. Duarte, Teresa Rocha-Santos & Mohamed Ksibi. Microplastics on Barra beach sediments in Aveiro, Portugal, Marine Pollution Bulletin.