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Mantos de gelo marinho foram decisivos na aceleração do aquecimento global

Durante o penúltimo período de deglaciação, a intensidade de degelo foi muito mais rápida do que aquilo que se pensava anteriormente. Perante um cenário de alterações climáticas, a instabilidade das camadas de gelo marinhas foi responsável pelo aceleramento do aquecimento global. Saiba mais aqui!

Manto de gelo marinho; degelo; aquecimento global
Estudo publicado na Nature Communications demonstra que os mantos de gelo marinhos foram decisivos para a aceleração do aquecimento global durante o último período de degelo.

O artigo publicado na revista Nature Communications baseou-se num projeto de investigação liderado pelo Departament de Dinàmica de la Terra i de l'Oceà, Facultat de Ciències de la Terra, da Universitat de Barcelona, em Barcelona, e pelo Eidgenössische Technische Hochschule Zürich, em Zurique.

O conhecimento da velocidade de degelo em grandes massas de gelo polar é, de facto, um dos maiores e promissores desafios científicos. Além disso, embora não seja semelhante à situação atual, uma análise do passado pode facultar bons inputs para identificar a velocidade de resposta destas massas de gelo.

Este estudo, apresentado agora pela Universidade de Barcelona, revela uma primeira cronologia robusta para o período que se prolongou entre 13500 e 13000 anos antes do presente.

Mudanças climáticas estudadas com base em dados da cordilheira Cantábrica

Esta penúltima deglaciação foi um período difícil para se estabelecer uma datação ao considerar apenas os registos marítimos, tendo em conta as técnicas indiretas e imprecisas que permitem averiguar as mudanças climáticas numa escala temporal de décadas até milénios.

Esta investigação baseou-se na análise de estalagmites de grutas na cordilheira cantábrica da Península Ibérica. Estas grutas são manifestações importantes da alteração da salinidade no Atlântico Norte decorrentes do degelo de grandes mantos polares.

“Até ao momento, esta penúltima deglaciação só foi bem datada em registos de grutas de áreas tropicais (Ásia e América do Sul), mas em nenhum caso conseguiram capturar o sinal de degelo no Atlântico Norte” - referiu I. Cacho, do Departamento de Dinâmica da Terra e Oceânica da Faculdade de Ciências da Terra da Universidade de Barcelona .

O uso das estalagmites, como detetores da mudança climática, permite estabelecer uma cronologia com alta precisão científica. Além do mais, a química dos carbonatos que formam as estalagmites são decisivas para a reconstrução climática.

A integração de indicadores relacionados com os elementos sólidos, líquidos e decorrentes da temperatura contribuem para que os registos publicados tenham um carácter extraordinário na compreensão dos diversos processos da atmosfera e do oceano durante o período de aquecimento global. Estes resultados são uma ótima evidência para a afirmação de uma perspetiva sobre o ritmo e a velocidade dos diversos processos durante o penúltimo período de degelo.

Áreas geladas no passado com ilações para o presente

Este estudo representa também um grande avanço na identificação dos sinais de degelo e de desestabilização nas áreas geladas. Mais ainda, quando os processos oceânicos e atmosféricos identificados no artigo mostram uma relação diferencial relativamente a outras glaciações.

Sabe-se, por exemplo, que durante o período interglaciar que foi mais quente do que o atual (com temperaturas com anomalias térmicas positivas entre 0,5 a 1,5 ºC relativamente ao período pré-industrial), a subida do nível do mar situou-se entre 5 a 6 metros acima dos níveis atuais e causou o degelo da camada superior da Gronelândia e da Antártida.

"Isto é muito preocupante, pois estamos a passar pelas mudanças climáticas mais rápidas da história do nosso planeta. As nossas observações de climas passados confirmam as projeções climáticas disponíveis, incentivando-nos a implementar medidas para conter o aquecimento global até um limiar de 1,5 °C e assim retardar uma série de mudanças que terão um alto custo para nós e para os ecossistemas que nos sustentam. Mas conter as mudanças climáticas requer ação imediata a todos os níveis" - concluem os investigadores que publicaram o artigo.

Os autores deste artigo conseguiram, assim, chegar a conclusões muito relevantes no panorama da ciência internacional e destacaram a urgência de nos posicionarmos sobre os custos que a passividade perante os problemas poderá acarretar.