O clima da Terra Bola de Neve continuou a variar, mesmo durante a enorme Idade do Gelo, dizem cientistas de Southampton
Pensava-se que a Terra Bola de Neve estava completamente congelada e que o clima tinha parado, mas a análise de rochas bem preservadas sugere que pode não ter sido esse o caso.

A Terra já foi uma bola de neve gigante, ou pelo menos é assim que teria parecido vista do espaço durante o Período Criogénico, entre 720 e 635 milhões de anos atrás. O planeta estava a atravessar a sua mais severa Idade do Gelo, quase totalmente congelado e coberto por camadas de gelo que chegavam aos trópicos.
Pensava-se que o clima da Terra tinha parado completamente durante este período, mas uma nova investigação da Universidade de Southampton encontrou provas em rochas antigas que mostram que o clima continuou a variar.
Análise camada a camada
O estudo desafia a crença de que grande parte da interação entre a atmosfera e os oceanos parou, silenciando a variabilidade climática a curto prazo durante milhões de anos. Durante pelo menos um intervalo, as oscilações climáticas ocorreram em escalas de tempo anuais, decadais e centenárias - ciclos incrivelmente semelhantes aos que vemos atualmente no sistema climático da Terra.
Os investigadores examinaram 2600 camadas individuais de rochas laminadas incrivelmente bem preservadas - ou varves - da Formação de Port Askaig, nas Ilhas Garvellach, ao largo da costa ocidental da Escócia. Estes sedimentos acumularam-se durante a glaciação Sturtian, o evento mais grave da Terra Bola de Neve que persistiu durante 57 milhões de anos e cada camada regista um único ano de deposição.
“Estes depósitos são algumas das rochas da Terra Bola de Neve mais bem preservadas do mundo”, explica o Dr. Elias Rugen, investigador. “Através delas, é possível ler a história climática de um planeta gelado, neste caso um ano de cada vez”.
As rochas “preservam o conjunto completo de ritmos climáticos que conhecemos atualmente - estações anuais, ciclos solares e oscilações interanuais - todos eles a funcionar durante uma Terra Bola de Neve”, acrescenta Thomas Gernon, Professor de Ciências da Terra e Planetárias. "É de cair o queixo. Diz-nos que o sistema climático tem uma tendência inata para oscilar, mesmo em condições extremas, se lhe for dada a mais pequena oportunidade."
Estas rochas “extraordinárias" "funcionam como um registador de dados natural, registando as alterações no clima ano após ano durante um dos períodos mais frios da história da Terra”, afirma a Dra. Chloe Griffin, investigadora em Ciências da Terra. “Até agora, não sabíamos se a variabilidade climática a estas escalas de tempo poderia existir durante a Terra Bola de Neve, porque ninguém tinha encontrado um registo como este no interior da própria glaciação”.
As camadas formaram-se provavelmente durante ciclos sazonais de gelo-degelo num ambiente de águas calmas e profundas sob o gelo, e os investigadores "encontraram provas claras da repetição de ciclos climáticos que operam de poucos em poucos anos ou décadas. Alguns deles assemelham-se muito aos padrões climáticos modernos, como as oscilações do tipo El Niño e os ciclos solares", afirma Griffin.
Mas estes ciclos climáticos eram provavelmente “a exceção e não a regra”, acrescenta Gernon. "O estado de fundo da Terra Bola de Neve era extremamente frio e estável. O que estamos a ver aqui é provavelmente uma perturbação de curta duração, que durou milhares de anos, tendo como pano de fundo um planeta profundamente gelado".
Hipótese da "Slushball Earth"
As simulações climáticas para a Snowball Earth mostraram que um oceano completamente selado com gelo suprimiria a maioria das oscilações climáticas; no entanto, se cerca de 15% da superfície do oceano permanecesse sem gelo, as interações familiares entre a atmosfera e o oceano poderiam recomeçar.
O Dr. Minmin Fu, professor de Ciências Climáticas, afirma: "Os nossos modelos mostraram que não são necessários vastos oceanos abertos. Mesmo áreas limitadas de águas abertas nos trópicos podem permitir o funcionamento de modos climáticos semelhantes aos que vemos atualmente, produzindo os tipos de sinais registados nas rochas".

O estudo apoia a ideia de que a Terra Bola de Neve estava geralmente congelada, mas era intercalada por intervalos em que surgiam pequenas áreas de oceano aberto, durante os estados de “lamaçal/gelo derretido - Slushball Earth” ou “cintura de água”.
Gernon acrescenta: "Este trabalho ajuda-nos a compreender até que ponto o sistema climático é realmente resistente e sensível. Mostra que, mesmo nas condições mais extremas que a Terra alguma vez viu, o sistema pode ser posto em movimento. Isto tem implicações profundas na forma como os planetas respondem a grandes perturbações, incluindo a nossa no futuro".
Referência da notícia
Interannual to multidecadal climate oscillations occurred during Cryogenian glaciation, Earth and Planetary Science Letters, 2026. Griffin, C., et al.