De acordo com Carl Sagan, astrónomo, toda a história da humanidade ocupa apenas 21 segundos no calendário cósmico

Sente-se o centro do mundo? Carl Sagan mostrou que a humanidade é um simples sopro de 21 segundos num ano galáctico, um facto que abala a nossa realidade atual.

O Calendário Cósmico de Carl Sagan revela que os 13,7 mil milhões de anos do universo cabem num único ano terrestre, com a humanidade a ocupar apenas os últimos 21 segundos.
O Calendário Cósmico de Carl Sagan revela que os 13,7 mil milhões de anos do universo cabem num único ano terrestre, com a humanidade a ocupar apenas os últimos 21 segundos.

O universo tem uma idade tão vasta que é quase impossível para as nossas mentes compreenderem totalmente. Por esta razão, o carismático astrónomo Carl Sagan concebeu uma ferramenta magistral nas suas obras Os Dragões do Éden e Cosmos: condensar os 13,7 mil milhões de anos de existência de tudo num único ano terrestre - o Calendário Cósmico. Nesta escala, cada mês representa mais de mil milhões de anos, transformando a eternidade em algo tangível.

O Calendário Cósmico de Carl Sagan é uma poderosa ferramenta educacional popularizada no seu livro Os Dragões do Éden (1977) e na sua série televisiva Cosmos (1980), concebida para visualizar os 13,8 mil milhões de anos de história do universo na escala manejável de um único ano terrestre, de 1 de janeiro a 31 de dezembro.

Através desta lente, a humanidade perde o trono que lhe foi atribuído durante milénios. Não somos o centro da criação, mas sim chegados tardios que mal espreitam quando a festa está quase a acabar. Esta perspetiva - tanto poética como científica - pretende colocar-nos na nossa verdadeira posição perante a imensidão das estrelas e do vazio.

A origem da vida e o início do calendário cósmico

Imaginando que o Big Bang ocorreu no primeiro segundo de janeiro do calendário cósmico, o espaço permaneceu em silêncio durante meses. A Via Láctea só se formou completamente em maio, e o nosso Sol esperou até setembro para nascer. É surpreendente perceber que a Terra passou grande parte da sua existência como um lugar desabitado ou povoado apenas por organismos microscópicos invisíveis ao olho humano.

O aparecimento das formas mais elementares de vida situa-se a 25 de setembro. Durante os meses de outubro e novembro, a evolução progrediu lentamente, permitindo a reprodução sexual e o aparecimento de células nucleadas. Este processo transformou um mundo mineral num palco vibrante, preparando o terreno para uma explosão de diversidade que só chegaria quando o ano imaginário já se aproximava do fim.

Com a chegada de dezembro, a atmosfera encheu-se de oxigénio, permitindo o desenvolvimento de criaturas mais complexas. Em meados do mês, os mares fervilham de vida marinha e a vegetação começa a conquistar a terra firme. Tudo o que conhecemos como natureza selvagem é um fenómeno tardio a esta escala, um lembrete de que a estabilidade do nosso ecossistema é uma dádiva recente.

A breve história da humanidade no calendário cósmico

Neste quadro, os dinossauros reinaram durante apenas cinco dias, desaparecendo a 28 de dezembro. Os mamíferos e os primatas assumiram o controlo pouco antes do final do ano. No entanto, o facto mais espantoso é que a nossa espécie só aparece no último dia, 31 de dezembro, confirmando que somos os últimos convidados a chegar à vasta festa da existência.

Esta escala de tempo criada por Carl Sagan comprime a existência universal em doze meses, situando o aparecimento da humanidade no último suspiro de 31 de dezembro.
Esta escala de tempo criada por Carl Sagan comprime a existência universal em doze meses, situando o aparecimento da humanidade no último suspiro de 31 de dezembro.

Os registos sugerem que os hominídeos surgiram por volta das 22h30 do último dia. Segundo o autor, “toda a história da humanidade ocupa apenas 21 segundos” neste imenso relógio galáctico. Desde o domínio do fogo até à criação das primeiras ferramentas, tudo se desenrolou nessa última hora, o que torna claro que a nossa presença no planeta é apenas um piscar de olhos.

A agricultura e as grandes cidades do Egito ou da Suméria só aparecem no último minuto do ano. Nesses últimos sessenta segundos estão concentradas todas as guerras, todos os poemas e todos os avanços tecnológicos que alcançámos. O nascimento de religiões e impérios são breves flashes que ocorrem quando as uvas do Ano Novo estão prestes a cair, sublinhando a nossa brevidade.

Um segundo de Ciência e o futuro da nossa espécie

Com o Calendário Cósmico, Carl Sagan não procurou apresentar-nos factos frios, mas sim despertar uma profunda curiosidade pelo conhecimento. A sua capacidade de unir a ciência a uma narrativa elegante permitiu que milhões de pessoas olhassem para o céu com novos olhos. Este exercício temporal é uma lição de humildade necessária para uma civilização que muitas vezes se esquece de como é delicado o equilíbrio biológico que nos sustenta.

Situados no presente, habitamos o primeiro segundo do novo ano cósmico - uma etapa de grande expansão, mas também de grande risco. Temos a capacidade de explorar outros mundos e procurar sinais de vida extraterrestre, mas também carregamos o perigo de terminar abruptamente o nosso próprio caminho. Nós somos aquela chegada tardia que tem de decidir como gerir os próximos momentos neste vasto palco.

A universalização do conhecimento nos coloca diante de um espelho que reflete nossa pequenez. Cuidar do planeta é uma tarefa vital, pois na imensidão do tempo, somos um belo acaso. Aproveitar cada momento para buscar respostas e nos entender melhor é a melhor forma de honrar essa breve, porém intensa, passagem pelo universo que habitamos.