De acordo com Carl Sagan, astrónomo, toda a história da humanidade ocupa apenas 21 segundos no calendário cósmico
Sente-se o centro do mundo? Carl Sagan mostrou que a humanidade é um simples sopro de 21 segundos num ano galáctico, um facto que abala a nossa realidade atual.
O universo tem uma idade tão vasta que é quase impossível para as nossas mentes compreenderem totalmente. Por esta razão, o carismático astrónomo Carl Sagan concebeu uma ferramenta magistral nas suas obras Os Dragões do Éden e Cosmos: condensar os 13,7 mil milhões de anos de existência de tudo num único ano terrestre - o Calendário Cósmico. Nesta escala, cada mês representa mais de mil milhões de anos, transformando a eternidade em algo tangível.
Através desta lente, a humanidade perde o trono que lhe foi atribuído durante milénios. Não somos o centro da criação, mas sim chegados tardios que mal espreitam quando a festa está quase a acabar. Esta perspetiva - tanto poética como científica - pretende colocar-nos na nossa verdadeira posição perante a imensidão das estrelas e do vazio.
A origem da vida e o início do calendário cósmico
Imaginando que o Big Bang ocorreu no primeiro segundo de janeiro do calendário cósmico, o espaço permaneceu em silêncio durante meses. A Via Láctea só se formou completamente em maio, e o nosso Sol esperou até setembro para nascer. É surpreendente perceber que a Terra passou grande parte da sua existência como um lugar desabitado ou povoado apenas por organismos microscópicos invisíveis ao olho humano.
Carl Sagan was the first person to explain the history of the universe in a single year, as the “Cosmic Calendar,” in his television series Cosmos.
— Ciudad Artes Ciencia (@CACiencies) February 2, 2026
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O aparecimento das formas mais elementares de vida situa-se a 25 de setembro. Durante os meses de outubro e novembro, a evolução progrediu lentamente, permitindo a reprodução sexual e o aparecimento de células nucleadas. Este processo transformou um mundo mineral num palco vibrante, preparando o terreno para uma explosão de diversidade que só chegaria quando o ano imaginário já se aproximava do fim.
Com a chegada de dezembro, a atmosfera encheu-se de oxigénio, permitindo o desenvolvimento de criaturas mais complexas. Em meados do mês, os mares fervilham de vida marinha e a vegetação começa a conquistar a terra firme. Tudo o que conhecemos como natureza selvagem é um fenómeno tardio a esta escala, um lembrete de que a estabilidade do nosso ecossistema é uma dádiva recente.
A breve história da humanidade no calendário cósmico
Neste quadro, os dinossauros reinaram durante apenas cinco dias, desaparecendo a 28 de dezembro. Os mamíferos e os primatas assumiram o controlo pouco antes do final do ano. No entanto, o facto mais espantoso é que a nossa espécie só aparece no último dia, 31 de dezembro, confirmando que somos os últimos convidados a chegar à vasta festa da existência.
Os registos sugerem que os hominídeos surgiram por volta das 22h30 do último dia. Segundo o autor, “toda a história da humanidade ocupa apenas 21 segundos” neste imenso relógio galáctico. Desde o domínio do fogo até à criação das primeiras ferramentas, tudo se desenrolou nessa última hora, o que torna claro que a nossa presença no planeta é apenas um piscar de olhos.
A agricultura e as grandes cidades do Egito ou da Suméria só aparecem no último minuto do ano. Nesses últimos sessenta segundos estão concentradas todas as guerras, todos os poemas e todos os avanços tecnológicos que alcançámos. O nascimento de religiões e impérios são breves flashes que ocorrem quando as uvas do Ano Novo estão prestes a cair, sublinhando a nossa brevidade.
Um segundo de Ciência e o futuro da nossa espécie
Com o Calendário Cósmico, Carl Sagan não procurou apresentar-nos factos frios, mas sim despertar uma profunda curiosidade pelo conhecimento. A sua capacidade de unir a ciência a uma narrativa elegante permitiu que milhões de pessoas olhassem para o céu com novos olhos. Este exercício temporal é uma lição de humildade necessária para uma civilização que muitas vezes se esquece de como é delicado o equilíbrio biológico que nos sustenta.

Situados no presente, habitamos o primeiro segundo do novo ano cósmico - uma etapa de grande expansão, mas também de grande risco. Temos a capacidade de explorar outros mundos e procurar sinais de vida extraterrestre, mas também carregamos o perigo de terminar abruptamente o nosso próprio caminho. Nós somos aquela chegada tardia que tem de decidir como gerir os próximos momentos neste vasto palco.
A universalização do conhecimento nos coloca diante de um espelho que reflete nossa pequenez. Cuidar do planeta é uma tarefa vital, pois na imensidão do tempo, somos um belo acaso. Aproveitar cada momento para buscar respostas e nos entender melhor é a melhor forma de honrar essa breve, porém intensa, passagem pelo universo que habitamos.