Existe uma preocupação crescente com o futuro da criosfera no Ártico, designadamente com a camada de gelo da Gronelândia

A Gronelândia, que é a maior ilha do mundo, tem a segunda maior reserva de gelo do globo, apenas ultrapassada pela Antártida, mas tem sofrido as consequências das alterações climáticas.

As alterações climáticas têm contribuído para a perda de neve e gelo na Gronelândia.
As alterações climáticas têm contribuído para a perda de neve e gelo na Gronelândia.

A região do Ártico, que inclui toda a Gronelândia, tem registado um dos aquecimentos mais rápidos das últimas décadas, com as temperaturas a aumentarem a um ritmo quase quatro vezes superior à média global.

Consequências das chuvas sobre a neve na Gronelândia

A região do Ártico está a registar um dos aquecimentos mais rápidos no globo. Este fenómeno ficou assim designado por “amplificação ártica”, com a perda de gelo marinho e neve, resultando de diversos mecanismos.

Os principais mecanismos são: 1) albedo da superfície, ou seja, a perda de gelo marinho e neve reduz a refletividade da superfície, aumentando assim a absorção de calor da superfície e reforçando o aquecimento próximo à superfície; 2) feedback positivo da taxa de variação da temperatura , com a troposfera cada vez mais estável do Ártico retendo calor sensível próximo à superfície, aumentando assim o aquecimento da superfície mesmo antes que ocorra uma perda substancial de gelo marinho; e 3) mudanças no transporte e circulação de calor oceânico e atmosférico em direção aos polos.

São previstos impactos a nível global devido ao forte degelo da camada de gelo que se tem verificado em toda a região do Ártico. Esses impactos incluem a subida do nível do mar, atingirem-se potenciais pontos de inflexão, sem retorno e um enfraquecimento abrupto da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), que é um sistema de correntes oceânicas, que ao ser perturbada afeta fortemente o clima.

Na AMOC a água quente é transportada superficialmente de sul para norte no Oceano Atlântico e a água fria numa camada mais profunda de norte para sul
Na AMOC a água quente é transportada superficialmente de sul para norte no Oceano Atlântico e a água fria numa camada mais profunda de norte para sul

Uma área crítica de preocupação em relação aos grandes impactos no ambiente, é também a ocorrência de chuvas e eventos de chuva sobre a neve, intensificada pelas alterações climáticas em curso, o que pode levar, entre outros efeitos, ao aumento da atividade de avalanches devido à desestabilização da camada de neve, ao degelo acelerado do permafrost impulsionado pelo aumento da transferência de calor do solo, bem como impacto nos ecossistemas.

Na Gronelândia, no verão, uma proporção crescente da precipitação é líquida (chuva), o que faz com que a neve derreta e deixe o gelo desprotegido, levando a um derretimento ainda maior.

Atendendo à importância de compreender os processos que impulsionam o balanço de massa superficial da camada de gelo na Gronelândia, um estudo recente, publicado no Journal of Geophysical Research, teve por objetivo perceber as propriedades climatológicas dos eventos de chuva sobre a neve, no verão, sobre a Gronelândia e as suas mudanças a longo prazo.

Este estudo utilizou o modelo climático regional MAR (versão 3.14) alimentado pela reanálise ERA5 com uma resolução de 10 km sobre a Gronelândia. Com recurso ao modelo MAR foram assim simuladas as propriedades climatológicas dos eventos de chuva no verão sobre a Gronelândia, no período de 1940 a 2023.

Os resultados mostraram que os eventos de chuva sobre a neve aumentaram drasticamente em frequência, tamanho e quantidade de precipitação. Este aumento deve-se, em parte, ao aquecimento da atmosfera, que transforma a precipitação de neve em chuva.

Este aumento verificou-se especialmente ao longo das costas oeste e leste da Gronelândia e surgiram ou se aceleraram fortemente durante os últimos 40 anos.

Configurações sinópticas dos eventos de chuva no verão na Gronelândia

A mudança climática, nomeadamente o aumento das temperaturas globais, também tem afetado os padrões de circulação atmosférica.

O estudo revelou que as circulações atmosféricas propícias à ocorrência dos eventos de chuva no verão, na Gronelândia, resultam geralmente de anomalias de ventos do sul, que transportam humidade e calor em direção aos polos e que afetam regiões diferentes dependendo da localização, direção de deslocamento e intensidade dos centros de ação associados.

Cerca de 10% a 20% desses grandes eventos de chuva sobre neve corresponderam à ação de rios atmosféricos (corredores de transporte de humidade particularmente intenso em direção aos polos), eventos que ocorrem 1% a 2% das vezes, mas aumentam a probabilidade de precipitação sobre a Gronelândia em um fator de 10, e, por vezes, até de 40 localmente, em relação à climatologia.

Os rios atmosféricos que atingem a Gronelândia aumentam a probabilidade de precipitação em cerca de dez vezes na costa leste e trinta vezes na costa oeste.

Estes resultados dão uma imagem mais clara de como o aquecimento e o aumento da precipitação alteram a superfície da Gronelândia, reduzindo a acumulação de neve, aumentando o derretimento e alterando o equilíbrio necessário para manter uma camada de gelo saudável.

Além do aquecimento que a Gronelândia tem sentido, também a chuva sobre a neve na Gronelândia, no verão, tem contribuído para a perda de neve e gelo naquela região
Além do aquecimento que a Gronelândia tem sentido, também a chuva sobre a neve na Gronelândia, no verão, tem contribuído para a perda de neve e gelo naquela região

Compreender os processos que impulsionam o balanço da massa superficial da camada de gelo é de importância primordial, não só para os ecossistemas e comunidades locais, mas também para os impactos que esta pode ter em todo o mundo.

Os resultados que foram atingidos com este estudo podem ajudar a compreender melhor o equilíbrio da massa de gelo da Gronelândia.