O papel dos oceanos na regulação do clima

Os oceanos desempenham papel determinante na variabilidade dos padrões atmosféricos, uma vez que atuam na distribuição dos ventos, do calor e a dinâmica das suas correntes é fulcral para o equilíbrio do mecanismo climático.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 11 Jun. 2019 - 17:05 UTC
Existem correntes frias e quentes que influenciam a distribuição das diferentes formas de vida e a navegação.

Os espaços de água do planeta - 71% da superfície da Terra - são oxigenados por movimentos de grandes massas de água, as correntes marítimas, as quais influem determinantemente na distribuição zonal do clima no planeta. Circulam transversalmente por todos os oceanos a uma velocidade que pode rondar os 8-10 km/h, não se misturando com as águas que as circundam, isto por efeito de diferenças de densidade e de temperatura, sendo que estes movimentos, podendo ser superficiais ou profundos, têm a sua direcção determinada por fatores como o movimento de rotação da Terra, os ventos, a força de Coriolis e a topografia subaquática.

A circulação destes "rios", destas massas de água nos oceanos, ocorre por acção de movimentos verticais, através de afundamentos e ressurgências como a circulação Termohalina, e/ou horizontais, as correntes marítimas. Trata-se de um mecanismo que redistribui pelo planeta o calor proveniente do sol, sendo contudo passível de alterações, numa métrica temporal de milénios, quando por efeito de variações na órbita da Terra em torno do Sol, ou na inclinação do seu eixo de rotação, ou por cíclicos fatores climáticos como glaciações.

Existem dois tipos de correntes marítimas: as quentes, que se formam na proximidade do Equador, numa zona de baixas pressões, carregando as características térmicas do local, e as correntes frias, que se formam nas latitudes mais altas, nas regiões polares, em zonas oceânicas profundas. Alude-se aqui, o circuito que leva as águas do equador até às regiões polares, saindo destas regiões, correntes em direcção às latitudes mais baixas, e isso explica o motivo de regiões que se encontram na mesma latitude, terem climas diferentes.

Considere-se então, o trópico de Câncer, a zona temperada norte, referindo-se por exemplo, a corrente do Golfo, uma corrente quente, que começa no México com uns agradáveis 28⁰ e chega à Europa com uns frescos 12⁰C, sendo que o seu efeito ameniza as temperaturas no Reino Unido e impede que os mares da Noruega congelem; por outro lado, a corrente do Labrador, uma corrente fria, que sai do Ártico em direcção ao Canadá, arrefece o clima da costa oeste da América do Norte.

No Hemisfério Norte as correntes marítimas desviam para a direita e no Hemisfério Sul para a esquerda.

Refira-se ainda a influência das correntes marítimas nos regimes pluviométricos, como a corrente de Humboldt, uma corrente fria no Pacifico sul que impede a evaporação das águas do oceano, diminuindo a formação de nuvens, e fazendo com que chegue à massa continental baixíssimos níveis de humidade, o que impossibilita a ocorrência de precipitação no leste da América do Sul, mais propriamente na costa do Chile, onde se situa o deserto do Atacama.

A importância da corrente do Golfo

Desempenha determinante função no clima europeu. Nasce na costa oeste do México, a uma profundidade de cerca de 1500 metros, transportando diariamente um volume de água mil vezes superior ao do rio Mississipi, percorre parte da costa oeste dos EUA e atravessa o Atlântico em direção ao noroeste europeu, possibilitando o clima ameno que o caracteriza - esta é a forte e intensa corrente do Golfo. Ao atravessar o Atlântico Norte, na corrente do Golfo ocorre um processo de evaporação de grandes volumes de água, accionado pela sua elevada temperatura, possibilitando que o clima do noroeste Europeu desfrute de amenidade, uma vez que esse vapor de água aquecida, cria uma corrente atmosférica que repele o ar frio.

Contudo, de acordo com resultado de investigação publicada na revista Nature, tem-se verificado um enfraquecimento deste rio, que transporta consigo biliões de algas, seres marinhos e energia sob a forma de calor. Uma mudança que está a ocorrer, devido à velocidade com que as massas geladas do Ártico estão a derreter, e vão despejando água doce e fria no Atlântico, o que interfere com o equilíbrio das correntes marítimas, redesenhando os seus percursos, enfraquecendo-os, e tornando-os aleatórios.

Quanto à corrente do Golfo, ela está a desacelerar, e a diminuir o fluxo e a intensidade com que chega à Europa, resultando no arrefecimento de uma região de clima normalmente temperado, bem como, numa maior suscetibilidade para a ocorrência de eventos climáticos extremos, apesar que, a cada dois anos, ocorrem variações neste regime, fazendo com que a Europa enfrente invernos mais rigorosos.

E se não existissem correntes marítimas?

Uma vez estáticas, as águas oceânicas concentrariam toda a energia recebida do Sol, e ao longo da linha do Equador, o calor seria tórrido e as latitudes mais elevadas seriam bem mais frias! As correntes marítimas, transportam a energia solar concentrada nas águas equatoriais, para latitudes em que o Sol incide com menor intensidade, daí que o seu fluxo, regular e contínuo, seja de extrema importância, uma vez que garante o equilíbrio climático do planeta.

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