Estudo analisa a dinâmica de resposta das florestas naturais e das artificiais às ondas de calor e seca em simultâneo

Plantar árvores parece ser sempre uma boa ideia, mas, perante uma onda de calor extremo e seca, nem todas as florestas reagem da mesma forma.

As florestas cobrem cerca de 30% da Terra.
As florestas cobrem cerca de 30% da Terra.

Um estudo científico, publicado na Water Resources Research, analisou a vulnerabilidade e o nível de recuperação de uma floresta natural e de uma floresta plantada.

Respostas diferentes entre os dois tipos de floresta

O estudo recaiu na bacia do rio Yangtze, na China, que se estende desde o planalto de Qinghai-Tibete, de alta altitude e clima frio, a oeste, até às regiões costeiras subtropicais, quentes e húmidas, a leste.

A bacia abriga algumas das florestas mais importantes da China, que ajudam a prevenir a erosão do solo, a regular o abastecimento de água e a sustentar a biodiversidade. Sendo a maior bacia hidrográfica da China, o Yangtze é também um importante centro de recursos hídricos e de atividade económica, o que significa que as florestas saudáveis desempenham um papel crucial.

Na sequência de um desmatamento histórico em grande escala e de inundações significativas, nomeadamente a devastadora cheia do rio Yangtze de 1998, a China implementou programas ambiciosos de reflorestação.

A reflorestação é importante, designadamente para a mitigação das alterações climáticas ou para a restauração de ecossistemas e habitats ou mesmo para a extração de madeira.
A reflorestação é importante, designadamente para a mitigação das alterações climáticas ou para a restauração de ecossistemas e habitats ou mesmo para a extração de madeira.

Desde 2000 que têm vindo a ser implementadas iniciativas de reflorestação em grande escala nesta região da bacia do rio Yangtze para mitigar a erosão do solo e melhorar os serviços ecossistémicos.

Nesta bacia, em 2022, ocorreu um evento extremo sem precedentes, que durou semanas, uma onda de calor muito intensa em simultâneo com uma situação de seca extrema, levando mais de 90% da região a enfrentar condições invulgarmente quentes e secas.

Este evento proporcionou uma oportunidade única para os autores do estudo avaliarem as respostas das florestas plantadas e das florestas naturais a tais perturbações climáticas extremas.

No entanto a resposta que obtiveram não foi bem o que os cientistas esperavam.

Em ecologia, este evento é designado por «seca composta-onda de calor» e que funciona como um teste de stress planetário para qualquer ecossistema florestal.

Estes fenómenos podem ser particularmente prejudiciais, uma vez que as plantas enfrentam dois fatores de stress em simultâneo: a falta de água no solo e o aumento da perda de água através das folhas. Estes fatores de stress combinados podem ameaçar não só a saúde das florestas, mas também os serviços mais amplos que estas prestam, tais como o armazenamento de água e a regulação do escoamento.

Os autores do estudo, nomeadamente Yong Su, da Universidade da Academia Chinesa de Ciências, e os seus colegas, utilizaram observações por satélite para comparar a forma como os dois tipos de floresta reagiram, analisando três indicadores da atividade da vegetação: o verde da floresta (a aparência saudável e densa da cobertura vegetal vista do espaço), a fotossíntese e a quantidade de carbono produzida através do crescimento.

Os resultados revelaram um compromisso. As florestas naturais demonstraram maior capacidade para resistir às condições adversas, sofrendo menos danos durante o evento, enquanto as florestas plantadas sofreram uma maior perda de vegetação, mas recuperaram mais rapidamente assim que as condições meteorológicas extremas passaram.

O estudo reconhece que ambos os tipos de floresta desempenham papéis diferentes, mas importantes, para garantir a longevidade dos ecossistemas florestais no futuro.

Florestas naturais e florestas plantadas

As florestas naturais revelaram-se mais resilientes a curto prazo. Sofreram menos danos causados pela seca e pela onda de calor, com mais de 70% das áreas analisadas a demonstrarem que as florestas naturais eram mais capazes de resistir à seca e onda de calor extremo.

Os cientistas sugerem que esta maior resistência pode estar relacionada com a maior complexidade das florestas naturais. Estas contêm, normalmente, uma maior variedade de espécies arbóreas que reagem de forma diferente à seca e ao calor, árvores de idades diferentes e copas mais estratificadas, criando um ecossistema variado capaz de amortecer melhor as condições extremas.

Por outro lado, as florestas plantadas são frequentemente compostas por menos espécies e por árvores de idades semelhantes. Esta estrutura mais simples pode torná-las mais vulneráveis a condições extremas, uma vez que reagem ao stress da mesma forma.

As florestas plantadas são frequentemente compostas por menos espécies e por árvores de idades semelhantes.
As florestas plantadas são frequentemente compostas por menos espécies e por árvores de idades semelhantes.

Quando em 2023, os autores do estudo compararam a atividade da vegetação em 2023, as florestas plantadas apresentaram, de um modo geral, uma recuperação mais forte do que as florestas naturais.

Esta recuperação mais rápida pode ser explicada pelo facto de as florestas plantadas serem frequentemente dominadas por árvores mais jovens e de crescimento rápido, que podem retomar o crescimento rapidamente assim que a água voltar a estar disponível.

As florestas naturais são compostas por árvores maiores, maior biomassa e estruturas mais complexas que as ajudam a lidar com a seca, mas isso também significa uma recuperação mais lenta.

A recuperação não significa necessariamente que a floresta tenha regressado completamente ao seu estado anterior.

Alguns aspetos do funcionamento da floresta, como a absorção de carbono e os processos subterrâneos que envolvem as raízes e o solo, podem demorar mais tempo a recuperar do que as alterações visíveis nas folhas e na intensidade da cor verde da copa.

Os cientistas propõem a transição de plantações de uma única espécie para florestas mais mistas, pois será possível combinar alguns dos benefícios de resiliência dos ecossistemas naturais com a rápida capacidade de recuperação das árvores plantadas.

No futuro é cada vez mais importante compreender como os diferentes tipos de floresta respondem aos eventos de seca e ondas de calor em simultâneo, pois as alterações climáticas aumentam a probabilidade de ocorrência de eventos combinados.

Referência da notícia

Su, Y., Wang, W., et al.. (2026). Higher Vulnerability But Faster Recovery in Planted Than Natural Forests During the 2022 Compound Drought–Heatwave in China's Yangtze River Basin.