Do fundo do mar ao espaço: como a ciência está a redefinir o alerta de tsunamis

Inovação no alerta precoce: cientistas unem dados de satélite e geologia para identificar tsunamis imprevisíveis através de sinais do espaço. Saiba mais aqui!

A atmosfera funciona como um espelho do oceano; grandes movimentos de água provocam perturbações nos eletrões lá no alto, revelando o perigo antes mesmo de a onda chegar à costa.
A atmosfera funciona como um espelho do oceano; grandes movimentos de água provocam perturbações nos eletrões lá no alto, revelando o perigo antes mesmo de a onda chegar à costa.

Durante décadas, a regra de ouro da geologia para tsunamis era simples: grandes sismos verticais em zonas de subdução equivaliam a perigo como o caso do sismos de 1755 em Lisboa; sismos horizontais eram, em grande parte, ignorados. No entanto, novos estudos estão a virar este paradigma do avesso, provando que o perigo pode vir de onde menos se espera e que a solução para o monitorizar está a milhares de quilómetros acima das nossas cabeças.

A lição de Palu: o perigo oculto

O ponto de viragem ocorreu em 2018, na cidade de Palu, Indonésia. Um sismo de magnitude 7.5 gerou um tsunami devastador que apanhou a comunidade científica de surpresa.

Mas qual era o motivo?

A falha era de "desligamento" (movimento horizontal), que teoricamente não deveria deslocar água suficiente para criar tais ondas.

Estudos recentes indicam que a geometria complexa das baías e, sobretudo, os deslizamentos de terra submarinos provocados pelo abalo são os verdadeiros culpados.

A natureza do fundo do mar e a forma como os sedimentos se movem podem ser tão letais quanto o sismo em si, sugerem as investigações.

Durante décadas, acreditou-se que sismos com movimento horizontal não causavam tsunamis. O desastre de Palu, em 2018, provou que a ciência estava incompleta.
Durante décadas, acreditou-se que sismos com movimento horizontal não causavam tsunamis. O desastre de Palu, em 2018, provou que a ciência estava incompleta.

Esta descoberta obriga agora os governos a reavaliar os mapas de risco em regiões anteriormente consideradas "seguras", onde falhas horizontais predominam.

Olhar para o céu para ler o mar

Enquanto os geólogos decifram o que acontece no abismo oceânico, os engenheiros aeroespaciais encontraram uma nova forma de detetar estas ondas: utilizando a ionosfera terrestre. Tradicionalmente, a deteção de tsunamis depende de boias oceânicas dispendiosas e de manutenção difícil.

A nova técnica, contudo, utiliza satélites de navegação (como o GPS ou o sistema europeu Galileo) para detetar a "assinatura" do tsunami na atmosfera.

Quando uma massa colossal de água se move, ela empurra o ar acima de si, criando ondas acústicas que viajam até à ionosfera — a camada superior da atmosfera carregada de eletrões.

Enquanto as boias de deteção são raras e caras, existem milhares de satélites em órbita que podem transformar o céu num sistema de alerta global e gratuito.
Enquanto as boias de deteção são raras e caras, existem milhares de satélites em órbita que podem transformar o céu num sistema de alerta global e gratuito.

Estas ondas causam perturbações na densidade de eletrões, que os satélites conseguem medir com extrema precisão através de variações nos sinais de rádio. É, literalmente, ler as ondas do mar através das ondas no céu.

Um futuro mais seguro

A integração destes dados promete revolucionar os sistemas de alerta precoce. Atualmente, os falsos alarmes são comuns e dispendiosos, muitas vezes provocando pânico desnecessário. A monitorização por satélite permite confirmar se um sismo realmente gerou uma onda de choque atmosférica significativa, filtrando eventos inofensivos de ameaças reais.

Com a densidade populacional nas zonas costeiras a atingir máximos históricos, a combinação entre uma nova compreensão geológica e a vigilância espacial pode ser a diferença entre a vida e a morte. A ciência prova, mais uma vez, que para compreender as profundezas da Terra, por vezes, é preciso olhar para as estrelas.

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