Como uma pequena água-viva está a ajudar a ciência a estudar o envelhecimento

Capaz de reverter o seu próprio ciclo de vida e regressar a uma fase juvenil, a água-viva imortal intriga os cientistas e pode revelar novas pistas sobre o envelhecimento humano. Saiba mais aqui!

A Turritopsis dohrnii consegue reverter o seu ciclo de vida e regressar a uma fase juvenil. Fonte: Wikimedia Commons
A Turritopsis dohrnii consegue reverter o seu ciclo de vida e regressar a uma fase juvenil. Fonte: Wikimedia Commons

Envelhecer é-nos um destino inevitável, contudo existe uma pequena criatura marinha capaz de contrariar esta regra: a Turritopsis dohrnii, conhecida como água-viva imortal.

A sua extraordinária capacidade de regressar a uma fase juvenil do ciclo de vida está a despertar o interesse da comunidade científica, que procura compreender se os seus mecanismos biológicos podem vir a ajudar a combater doenças associadas ao envelhecimento humano.

Quase transparente e de dimensões reduzidas, esta água-viva esconde uma capacidade invulgar. Quando enfrenta condições adversas, como a falta de alimento ou alterações ambientais, pode abandonar a sua forma adulta e transformar-se numa estrutura celular muito diferente.

Em vez de seguir o percurso habitual até à morte, regressa a uma fase inicial do desenvolvimento, permitindo que surjam novos organismos.

O segredo de voltar atrás no tempo

A transformação da Turritopsis dohrnii começa quando a água-viva adulta, também conhecida como medusa, deixa de apresentar a sua forma característica, semelhante a um pequeno guarda-chuva com tentáculos.

O organismo transforma-se numa massa de células que dá origem a um pólipo, uma fase juvenil que pode desenvolver-se numa colónia e produzir novas medusas.

Os cientistas estudam os mecanismos celulares e genéticos que permitem a esta espécie renovar os seus tecidos. Fonte: Reddit
Os cientistas estudam os mecanismos celulares e genéticos que permitem a esta espécie renovar os seus tecidos. Fonte: Reddit

Este processo está associado à transdiferenciação celular, um mecanismo através do qual células já especializadas conseguem alterar a sua identidade e assumir funções diferentes. Em vez de permanecerem limitadas ao papel que desempenham no organismo adulto, algumas células regressam a um estado menos especializado, permitindo a reconstrução de tecidos e estruturas de uma fase anterior da vida.

Esta capacidade foi identificada na década de 1990, quando um investigador italiano encontrou novos pólipos num recipiente onde mantinha estas águas-vivas. A descoberta abriu caminho a estudos sobre um fenómeno que continua a intrigar os cientistas.

Embora outras espécies consigam regenerar partes do corpo, a possibilidade de reverter o ciclo de vida adulto para uma fase juvenil torna esta pequena criatura particularmente interessante para a biologia.

O que pode esta medusa ensinar sobre o envelhecimento humano?

Segundo a investigação descrita pela BBC Future, os cientistas procuram agora compreender os mecanismos genéticos e moleculares que permitem este rejuvenescimento.

Um estudo publicado em 2022 na revista PNAS por investigadores da Universidade de Oviedo, identificou diferenças genéticas entre a Turritopsis dohrnii e uma espécie próxima. Entre elas, destacam-se cópias adicionais de genes relacionados com a reparação do ADN, o material genético que contém as instruções necessárias ao funcionamento das células.

Compreender esta criatura marinha poderá abrir novas pistas sobre a regeneração celular e o envelhecimento humano. Fonte: A-Z Animals
Compreender esta criatura marinha poderá abrir novas pistas sobre a regeneração celular e o envelhecimento humano. Fonte: A-Z Animals

Os investigadores encontraram também características associadas à manutenção dos telómeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomas que protegem o ADN. Estes tendem a encurtar ao longo das divisões celulares, estando associados a alguns dos processos de envelhecimento.

Compreender como esta água-viva protege o seu material genético e reorganiza as suas células poderá ajudar a identificar mecanismos relevantes para a medicina regenerativa.

"Esse conhecimento poderá contribuir para melhorar a recuperação de tecidos danificados, acelerar a cicatrização de feridas ou desenvolver novas abordagens para doenças relacionadas com a idade, incluindo algumas doenças neurodegenerativas."

Contudo, transformar estas descobertas em tratamentos humanos continua a ser um desafio. Os cientistas ainda precisam de perceber como funcionam estes mecanismos e se será possível reproduzi-los em células humanas de forma segura e eficaz.

Imortal não significa invencível

Apesar do nome, a água-viva imortal não é indestrutível. Alguns exemplares estudados em laboratório parecem não conseguir rejuvenescer, e permanece por esclarecer se os que conseguem realizar esta transformação têm um limite para o número de vezes que a repetem.

Na natureza, estes animais continuam vulneráveis aos predadores, à escassez de alimento e às alterações das condições ambientais. Podem morrer muito antes de terem oportunidade de reiniciar o seu ciclo de vida.

A Turritopsis dohrnii não oferece, por enquanto, uma fórmula para travar o envelhecimento humano. O seu verdadeiro valor reside na possibilidade de revelar que determinados processos biológicos considerados irreversíveis podem, em circunstâncias específicas, ser alterados.

Ao estudar esta criatura, a ciência procura compreender melhor os limites da regeneração e descobrir novas formas de preservar a saúde ao longo da vida. Por vezes, uma das pistas mais promissoras para o futuro da medicina encontra-se num dos organismos mais pequenos dos oceanos.

Referências da notícia

Maria Pascoal, Dido Carrero, José G. Pérez-Silva, and Carlos López-Otín. (2021). Comparative genomics of mortal and immortal cnidarians unveils novel keys behind rejuvenation.
Katarina Zimmer. (2026). The immortal jellyfish can beat ageing. It could inspire treatments for diseases of old age.