Como uma pequena água-viva está a ajudar a ciência a estudar o envelhecimento
Capaz de reverter o seu próprio ciclo de vida e regressar a uma fase juvenil, a água-viva imortal intriga os cientistas e pode revelar novas pistas sobre o envelhecimento humano. Saiba mais aqui!

Envelhecer é-nos um destino inevitável, contudo existe uma pequena criatura marinha capaz de contrariar esta regra: a Turritopsis dohrnii, conhecida como água-viva imortal.
A sua extraordinária capacidade de regressar a uma fase juvenil do ciclo de vida está a despertar o interesse da comunidade científica, que procura compreender se os seus mecanismos biológicos podem vir a ajudar a combater doenças associadas ao envelhecimento humano.
Quase transparente e de dimensões reduzidas, esta água-viva esconde uma capacidade invulgar. Quando enfrenta condições adversas, como a falta de alimento ou alterações ambientais, pode abandonar a sua forma adulta e transformar-se numa estrutura celular muito diferente.
Em vez de seguir o percurso habitual até à morte, regressa a uma fase inicial do desenvolvimento, permitindo que surjam novos organismos.
O segredo de voltar atrás no tempo
A transformação da Turritopsis dohrnii começa quando a água-viva adulta, também conhecida como medusa, deixa de apresentar a sua forma característica, semelhante a um pequeno guarda-chuva com tentáculos.
O organismo transforma-se numa massa de células que dá origem a um pólipo, uma fase juvenil que pode desenvolver-se numa colónia e produzir novas medusas.

Este processo está associado à transdiferenciação celular, um mecanismo através do qual células já especializadas conseguem alterar a sua identidade e assumir funções diferentes. Em vez de permanecerem limitadas ao papel que desempenham no organismo adulto, algumas células regressam a um estado menos especializado, permitindo a reconstrução de tecidos e estruturas de uma fase anterior da vida.
Esta capacidade foi identificada na década de 1990, quando um investigador italiano encontrou novos pólipos num recipiente onde mantinha estas águas-vivas. A descoberta abriu caminho a estudos sobre um fenómeno que continua a intrigar os cientistas.
Embora outras espécies consigam regenerar partes do corpo, a possibilidade de reverter o ciclo de vida adulto para uma fase juvenil torna esta pequena criatura particularmente interessante para a biologia.
O que pode esta medusa ensinar sobre o envelhecimento humano?
Segundo a investigação descrita pela BBC Future, os cientistas procuram agora compreender os mecanismos genéticos e moleculares que permitem este rejuvenescimento.
Um estudo publicado em 2022 na revista PNAS por investigadores da Universidade de Oviedo, identificou diferenças genéticas entre a Turritopsis dohrnii e uma espécie próxima. Entre elas, destacam-se cópias adicionais de genes relacionados com a reparação do ADN, o material genético que contém as instruções necessárias ao funcionamento das células.

Os investigadores encontraram também características associadas à manutenção dos telómeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomas que protegem o ADN. Estes tendem a encurtar ao longo das divisões celulares, estando associados a alguns dos processos de envelhecimento.
Compreender como esta água-viva protege o seu material genético e reorganiza as suas células poderá ajudar a identificar mecanismos relevantes para a medicina regenerativa.
Contudo, transformar estas descobertas em tratamentos humanos continua a ser um desafio. Os cientistas ainda precisam de perceber como funcionam estes mecanismos e se será possível reproduzi-los em células humanas de forma segura e eficaz.
Imortal não significa invencível
Apesar do nome, a água-viva imortal não é indestrutível. Alguns exemplares estudados em laboratório parecem não conseguir rejuvenescer, e permanece por esclarecer se os que conseguem realizar esta transformação têm um limite para o número de vezes que a repetem.
Na natureza, estes animais continuam vulneráveis aos predadores, à escassez de alimento e às alterações das condições ambientais. Podem morrer muito antes de terem oportunidade de reiniciar o seu ciclo de vida.
A Turritopsis dohrnii não oferece, por enquanto, uma fórmula para travar o envelhecimento humano. O seu verdadeiro valor reside na possibilidade de revelar que determinados processos biológicos considerados irreversíveis podem, em circunstâncias específicas, ser alterados.
Ao estudar esta criatura, a ciência procura compreender melhor os limites da regeneração e descobrir novas formas de preservar a saúde ao longo da vida. Por vezes, uma das pistas mais promissoras para o futuro da medicina encontra-se num dos organismos mais pequenos dos oceanos.
Referências da notícia
Maria Pascoal, Dido Carrero, José G. Pérez-Silva, and Carlos López-Otín. (2021). Comparative genomics of mortal and immortal cnidarians unveils novel keys behind rejuvenation.
Katarina Zimmer. (2026). The immortal jellyfish can beat ageing. It could inspire treatments for diseases of old age.