Clima extremo torna os animais mais agressivos: o que revelou um estudo de 33 anos da UCLA
Três décadas de observação com macacos-prego revelaram que o clima extremo não apenas destrói habitats, mas também altera as regras sociais dos animais, com consequências preocupantes que a ciência está a começar a medir.

Os grupos de animais funcionam, de certa forma, como equipas desportivas: quanto mais membros, maior a força coletiva para obter alimento e repelir rivais. Mas quando os recursos são escassos, essa equipe começa a lutar entre si.
Foi exatamente isto que uma equipa de investigadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e do Instituto Max Planck de Comportamento Animal (MPI-AB) documentou.
Após 33 anos de monitorização contínua de 335 macacos-prego-de-cara-branca em 12 grupos na Costa Rica, eles concluíram que o clima extremo diminui as vantagens da vida em grupo e desencadeia competição, agressão e, em alguns casos, fragmentação dos grupos. O estudo foi publicado na revista Nature Ecology and Evolution em maio deste ano.
O que acontece quando o clima sai do controlo?
Em condições normais, grandes grupos de macacos-prego têm uma clara vantagem: dominam os grupos menores e têm acesso às melhores áreas de alimentação. Durante a estação seca, quando a água, o alimento e a sombra se concentram perto dos rios, os grupos maiores aprendem a deslocar-se para essas áreas, deixando os rivais com menos recursos.
Quando ocorrem os fenómenos El Niño — que trazem secas severas — ou La Niña — que trazem chuvas extraordinárias —, todo esse equilíbrio é perturbado. O custo dos alimentos dispara, mesmo para grandes grupos, e a competição interna torna-se tão intensa que as vantagens de viver em grupo praticamente desaparecem. Alguns indivíduos optam por partir.

A coesão social está a fragmentar-se. E este padrão não é exclusivo dos macacos-prego: um estudo publicado na revista Science of the Total Environment sobre cabras-monteses dos Apeninos descobriu que o aquecimento e as secas cumulativas aumentaram a agressividade entre os indivíduos a um ponto que, se persistir, projeta um aumento de 50% até 2080.
O que isto significa para o futuro?
O que complica o cenário é a velocidade da mudança. Os animais evoluíram ao longo de milénios para lidar com as variações climáticas sazonais.
Quando os grupos se fragmentam, as populações perdem diversidade genética, a cooperação na defesa contra predadores diminui e toda a cadeia alimentar que depende dessas espécies é interrompida.
A investigadora Susan Perry, que lidera o projeto em Guanacaste (Costa Rica) há 35 anos, explica sem rodeios: grandes grupos normalmente compensam os seus custos internos a deslocar grupos mais fracos para territórios menos hospitaleiros.

Sob as condições climáticas extremas de hoje, este mecanismo atinge o seu limite. O que a ciência está a começar a entender é que o clima não muda apenas o termómetro: ele muda quem vive com quem, como estas pessoas se organizam e se essa sociedade pode sustentar-se. Cedo ou tarde, isso afeta a todos nós.
Referências da notícia
Perry, S. et al. (2026). "Environmental fluctuations alter the competitive trade-offs of group size in a social primate." Nature Ecology & Evolution.
Max Planck Institute of Animal Behavior (2026). "How do climate extremes alter animal societies?"
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