Ciência Cidadã: População chamada a monitorizar inseto que combate espécie invasora

Todos contra as invasoras: Investigadores precisam de "olhos no terreno" para vigiar as florestas. Saiba mais aqui!

A introdução deste inseto "Trichi" em Portugal, em 2015, foi o primeiro caso autorizado de controlo biológico de plantas na Europa Continental.
A introdução deste inseto "Trichi" em Portugal, em 2015, foi o primeiro caso autorizado de controlo biológico de plantas na Europa Continental.

Uma campanha nacional de ciência cidadã lançada pela plataforma Invasoras.pt está a apelar à população portuguesa para colaborar ativamente na monitorização ambiental dos ecossistemas costeiros do país.

O objetivo central desta iniciativa é mapear e monitorizar a presença de um pequeno inseto de origem australiana, popularmente designado por "Trichi" (Trichilogaster acaciaelongifoliae).

Este organismo foi introduzido estrategicamente em Portugal no ano de 2015 com o intuito de atuar como um agente de controlo biológico para travar a proliferação descontrolada da acácia-de-espigas (Acacia longifolia), classificada como uma das espécies exóticas invasoras mais problemáticas e destrutivas em território nacional.

O mecanismo de controlo biológico

A acácia-de-espigas representa uma séria ameaça para a biodiversidade nativa ibérica, pois ocupa áreas ecologicamente sensíveis e desequilibra as dinâmicas da flora local.

Para mitigar esta expansão, o inseto "Trichi" desempenha um papel ecológico fundamental: ele desenvolve-se especificamente no interior das gemas florais desta variedade de acácia, induzindo a formação de "galhas", que são pequenas deformações ou excrescências nos ramos da planta.

As galhas criadas pelo inseto funcionam como "ralos" que roubam os nutrientes da acácia, impedindo-a de gerar sementes invasoras.
As galhas criadas pelo inseto funcionam como "ralos" que roubam os nutrientes da acácia, impedindo-a de gerar sementes invasoras.

O aparecimento destas estruturas impede o desenvolvimento normal das inflorescências, bloqueando de forma muito eficaz a produção de flores e de sementes. Consequentemente, a capacidade reprodutiva e a velocidade de propagação geográfica da espécie invasora diminuem drasticamente, disponibilizando uma solução ecológica a longo prazo.

A importância da mobilização cívica

Segundo os investigadores, embora se saiba que o inseto já se encontra amplamente espalhado por várias regiões de Portugal, os meios de amostragem puramente científicos são insuficientes para cobrir todo o território.

O "Trichi" é uma micro-vespa totalmente inofensiva para pessoas e animais; o seu único foco é depositar ovos nas acácias.
O "Trichi" é uma micro-vespa totalmente inofensiva para pessoas e animais; o seu único foco é depositar ovos nas acácias.

Torna-se, por isso, indispensável contar com a colaboração pública. A comunidade científica necessita de "mais olhos no terreno" para perceber com exatidão onde o agente biológico já atua, onde ainda não conseguiu chegar e qual é o real impacto prático que está a ter na contenção das acácias.

Como participar na campanha?

O desafio destina-se a um espectro muito alargado da sociedade, convocando cidadãos comuns, comunidades escolares, associações ambientalistas, estudantes, técnicos municipais e profissionais ligados ao ordenamento e gestão florestal.

Para colaborar, os participantes devem procurar árvores de acácia-de-espigas, examinar minuciosamente os ramos em busca de galhas e recolher registos fotográficos das suas observações.

Os dados obtidos devem ser submetidos através de duas vias digitais: a aplicação móvel Epicollect5 (no projeto designado "Registo de Trichilogaster acaciaelongifoliae") ou através das plataformas iNaturalist e BioDiversity4All.

Tanto a acácia-de-espigas como o inseto "Trichi" são nativos da Austrália, onde coexistem em equilíbrio ecológico há milénios.
Tanto a acácia-de-espigas como o inseto "Trichi" são nativos da Austrália, onde coexistem em equilíbrio ecológico há milénios.

Os investigadores enfatizam que o registo de "dados negativos", isto é, reportar zonas onde foram inspecionadas acácias mas não se detetaram quaisquer galhas, possui um valor científico igualmente crucial, servindo para delimitar as fronteiras reais de expansão do inseto.

Com esta mobilização coletiva, a plataforma Invasoras.pt visa reforçar o envolvimento do público na gestão de espécies invasoras, ao mesmo tempo que consolida o contributo de Portugal para uma das experiências de controlo biológico de plantas mais significativas e pioneiras atualmente em curso na Europa. Mais informações sobre o manual de campo e formas adicionais de participação estão disponíveis no portal oficial da iniciativa (www.invasoras.pt).

Referência da notícia

invasoras.pt. Vamos mapear a Trichi!.
JLS/Lusa. Cientistas querem cidadãos a vigiar acácias em busca de pequeno inseto.