Borboletas mais bonitas recebem mais atenção, mas podem deixar outras espécies para trás
Estudo internacional com participação de cientistas de Lisboa mostra que preferências estéticas humanas podem condicionar investigação e políticas de conservação.

Há borboletas que fazem parar quem passa. Outras podem partilhar o mesmo habitat e enfrentar ameaças semelhantes, recebendo, ainda assim, uma atenção mais reduzida. Isto não se deve a uma menor importância ecológica, mas sim ao facto de serem visualmente menos apelativas aos olhos humanos.
A investigação contou com a participação de Eduardo Marabuto e Tatiana Carina Moreira-Pinhal, investigadores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

A equipa cruzou resultados de um inquérito internacional sobre a perceção da beleza das borboletas europeias com dados sobre atenção pública, investigação científica e instrumentos de proteção da natureza. O inquérito reuniu mais de 21 mil respostas provenientes de mais de 100 países.
A beleza no radar da ciência
Os resultados apontam para uma associação consistente entre a beleza percecionada e a atenção dedicada a cada espécie. As borboletas consideradas mais bonitas tendem a ser mais observadas pelo público e mais estudadas pelos investigadores.
O estudo não demonstra que ser bonita provoque automaticamente mais proteção. Mostra, sim, que a beleza está associada a padrões de atenção, investigação e conservação que se acumulam ao longo do tempo. Uma espécie muito fotografada gera mais observações. Uma espécie muito estudada gera mais conhecimento. Esse conhecimento pode, por sua vez, aumentar a probabilidade de continuar no centro das atenções.
A questão torna-se relevante porque a abundância de informação não coincide necessariamente com a urgência ecológica. Uma espécie pouco conhecida pode estar sujeita a riscos maiores sem despertar a mesma curiosidade.
O efeito-borboleta nas regras de proteção
Uma das conclusões mais surpreendentes surge quando os investigadores analisam instrumentos europeus de conservação. As espécies visualmente mais apelativas estão sobrerrepresentadas na Convenção de Berna e na Diretiva Habitats da União Europeia, dois mecanismos importantes para definir prioridades e orientar medidas de proteção.
O fenómeno ganha outra dimensão quando comparado com as Listas Vermelhas Europeias da IUCN. Nesse caso, os investigadores não encontraram uma representação desproporcionada das borboletas mais bonitas. Pelo contrário, espécies menos apelativas do ponto de vista visual também surgem entre as ameaçadas.

A diferença sugere que avaliar o risco de desaparecimento com base em critérios ecológicos pode produzir uma imagem diferente daquela que resulta de prioridades históricas e preferências humanas.
Também os dados têm olhos humanos
Há outro problema escondido nas plataformas de ciência cidadã. Uma borboleta que chama a atenção tem maior probabilidade de ser fotografada, identificada e registada.
O iNaturalist é um dos exemplos apontados pelos autores. Os dados de plataformas semelhantes a esta são extremamente úteis para conhecer a distribuição das espécies, mas não devem ser encarados como isentos de subjetividade. Também refletem os lugares onde as pessoas vão, o que procuram e os organismos que despertam a sua curiosidade.
Tatiana Carina Moreira-Pinhal alerta precisamente para este efeito. Os padrões de atenção dos utilizadores podem contaminar os dados que depois são usados em estudos científicos e em avaliações da evolução das populações.
Isso não significa que os registos sejam pouco fiáveis. Significa que precisam de ser interpretados com cuidado. A ausência de observações pode resultar de uma espécie ser difícil de encontrar ou simplesmente de despertar menos interesse.
Usar a beleza para proteger mais
Reconhecer este enviesamento não significa abandonar as espécies carismáticas. A beleza pode ser transformada numa ferramenta de conservação, desde que o seu alcance seja maior do que a própria espécie que desperta a atenção.
A beleza deixa de ser apenas um critério de escolha. Pode ser uma porta de entrada para uma conservação mais abrangente. Não é preciso, portanto, escolher entre as borboletas que atraem o olhar e aquelas que mais precisam de proteção.

O desafio está em fazer com que a atenção despertada pelas primeiras ajude a proteger também as segundas. E, para isso, é preciso começar por reconhecer que a natureza não vê a cara, mas sim o coração. Somos nós que o fazemos.
Referências da notícia
Leonardo Dapporto, Nicolas Mouquet, Claudia Bruschini, Saad Arif, Simona Bonelli, Adele Bordoni, Federico Cappa, Tatiana Carina Moreira-Pinhal, Gioele Moro, et. al.. Beauty bias in butterfly research and conservation. Current Biology.
Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C). Why do we protect the most beautiful butterflies?.