Aves marinhas subantárticas estão contaminadas: cientistas de Coimbra explicam os riscos

Aves marinhas subantárticas, mesmo em ilhas remotas, acumulam microplásticos e disruptores endócrinos transportados por oceanos, atmosfera e cadeias alimentares. Isto revela a contaminação global que o estudo liderado pela Universidade de Coimbra quantifica em sete espécies da Geórgia do Sul.

Até mesmo ecossistemas remotos são alcançados pela poluição gerada por microplásticos e contaminantes químicos, revelam investigadores de um estudo liderado pela Universidade de Coimbra, que detetaram estas substâncias em aves marinhas que se reproduzem em regiões subantárticas, como a Geórgia do Sul. Imagem: © Universidade de Coimbra
Até mesmo ecossistemas remotos são alcançados pela poluição gerada por microplásticos e contaminantes químicos, revelam investigadores de um estudo liderado pela Universidade de Coimbra, que detetaram estas substâncias em aves marinhas que se reproduzem em regiões subantárticas, como a Geórgia do Sul. Imagem: © Universidade de Coimbra

Um estudo internacional liderado pelo Centre for Functional Ecology (CFE) da Universidade de Coimbra revelou a presença de microplásticos e de compostos químicos associados ao plásticos em aves marinhas que se reproduzem em regiões subantárticas (Geórgia do Sul, por exemplo), evidenciando que a poluição por plásticos e substâncias associadas consegue até mesmo alcançar ecossistemas remotos.

A maioria das partículas identificadas nas aves marinhas subantárticas era de origem sintética

Publicado na revista Journal of Hazardous Materials, o trabalho analisou sete espécies de aves marinhas, incluindo algumas classificadas como “vulneráveis” ou em “risco de extinção”. Nos espécimes estudados foram identificadas 1275 partículas de origem antropogénica no trato gastrointestinal, correspondendo a uma média de cerca de 17 partículas por ave.

“As análises revelaram que a maioria das partículas identificadas era de origem sintética (59%), em particular plástico. Foram também identificadas partículas de origem natural, como celulose e algodão, mas de origem industrial, podendo conter compostos adicionais, como corantes, que podem persistir no ambiente”, explica Joana Fragão, aluna de doutoramento em Biociências da FCTUC e do British Antarctic Survey, no Reino Unido.

Segundo Joana Fragão, autora do estudo, 59% das partículas identificadas no trato gastrointestinal das aves marinhas possuía origem sintética, destacando-se o plástico, o que denuncia a grande influência antropogénica, inclusive em ecossistemas remotos.
Segundo Joana Fragão, autora do estudo, 59% das partículas identificadas no trato gastrointestinal das aves marinhas possuía origem sintética, destacando-se o plástico, o que denuncia a grande influência antropogénica, inclusive em ecossistemas remotos.

Para além dos microplásticos ingeridos, os investigadores detetaram no fígado e no músculo das aves vários compostos químicos com potencial de interferência endócrina (os chamados disruptores endócrinos), incluindo retardadores de chama, com concentrações particularmente elevadas no fígado. Estes compostos são conhecidos pelo seu potencial para afetar o funcionamento hormonal dos organismos.

Demonstrada a coexistência de microplásticos e poluentes químicos em aves marinhas de regiões remotas

Segundo Filipa Bessa, coautora do estudo, “os resultados evidenciam a presença simultânea de microplásticos e destes compostos em aves marinhas de regiões remotas, não tendo sido ainda estabelecida uma relação direta entre ambos nem avaliados os seus efeitos biológicos”.

De qualquer das formas, os investigadores sublinham que estas descobertas são cruciais para a compreensão da pressão crescente de diferentes tipos de poluentes sobre a fauna marinha e reforçam a necessidade de políticas internacionais mais robustas para a proteção da biodiversidade e redução da poluição marinha por plásticos e substâncias químicas persistentes.

Medidas como a implementação de programas de monitorização contínua de plásticos e poluentes químicos devem ser consideradas, incluindo em ecossistemas considerados isolados, tais como as regiões polares e subantárticas.

Referências da notícia

Joana Fragão, Clara Manno, Richard A. Phillips, Sara C. Cunha, José O. Fernandes, Luís A.E. Batista de Carvalho, Maria Paula M. Marques, José C. Xavier, Filipa Bessa, Co-occurrence of microplastics and endocrine-disrupting chemicals in subantarctic seabirds, Journal of Hazardous Materials, Volume 509, 2026, 142018, ISSN 0304-3894, https://doi.org/10.1016/j.jhazmat.2026.142018.

Estudo liderado pela UC deteta microplásticos e contaminantes químicos em aves marinhas subantárticas. FCTUC. 4 de maio de 2026.

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