Ana Catarina Santos quer mostrar-nos que entre a ciência e a dança há um chão comum
Estudante da Universidade do Porto juntou duas paixões improváveis para despertar nos portugueses a curiosidade para um recurso natural que quase ninguém repara.

Caminhamos todos os dias sobre um dos ecossistemas mais complexos do planeta. Sustenta a agricultura, armazena carbono, filtra água, alberga milhões de organismos e torna possível quase toda a vida em terra firme. Ainda assim, poucas pessoas lhe prestam atenção. Talvez porque o solo esteja sempre presente nas nossas vidas.
É essa indiferença que Ana Catarina Santos quer contrariar. Estudante do Programa Doutoral em Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), encontrou uma forma pouco habitual de aproximar o público de um tema que raramente desperta entusiasmo.
À primeira vista, parecem mundos sem pontos de contacto. Num laboratório estudam-se organismos, processos ecológicos e ciclos naturais. Num palco, o corpo transforma emoções em movimento. No trabalho de Ana Catarina, porém, ambos convergem num objetivo comum. Fazer com que as pessoas olhem para o solo com outros olhos.
A nova linguagem da ciência
O projeto valeu-lhe recentemente reconhecimento nacional. A estudante foi distinguida pela Universidade do Porto graças a uma abordagem que procura aproximar ciência e sociedade através da expressão artística, mostrando que comunicar conhecimento pode exigir muito mais do que gráficos, artigos científicos ou conferências.
Fala-se frequentemente do ar que respiramos, da água que bebemos ou das florestas que importa proteger. Muito menos da fina camada de terra que sustenta todos esses sistemas naturais.
Foi essa constatação que levou Ana Catarina a lançar um inquérito dirigido à população portuguesa. O objetivo é, ainda antes de explicar a importância do solo, perceber quanto sabemos realmente sobre ele.

As respostas permitirão avaliar o nível de literacia dos portugueses nesta área e identificar ideias erradas, lacunas de conhecimento e aspetos que merecem maior atenção em futuras ações de comunicação científica.
Mas a investigadora pretende ir mais longe do que medir esse conhecimento. A pergunta que acompanha todo o projeto é outra. Como despertar curiosidade por algo que quase sempre passa despercebido? É precisamente aí que entra a dança.
Compreender o que os olhos não veem
O solo parece ser muito mais do que apenas terra. Mas basta observá-lo de perto para descobrir um sistema vivo, onde raízes, fungos, bactérias e pequenos invertebrados mantêm um equilíbrio essencial para a vida. É esse universo que Ana Catarina Santos procura tornar mais próximo do público, recorrendo a uma linguagem pouco habitual na investigação científica.
Através do movimento, a investigadora explora relações ecológicas, ciclos naturais e processos biológicos que, por serem lentos ou ocorrerem no subsolo, são difíceis de imaginar somente com palavras ou imagens.
A proposta desafia uma ideia ainda muito enraizada de que ciência e arte pertencem a mundos separados. Neste projeto, ambas perseguem o mesmo objetivo. Tornar compreensível aquilo que, tantas vezes, passa despercebido.
Essa abordagem ganha ainda maior relevância quando aplicada ao solo, um recurso natural decisivo para a produção de alimentos, para a regulação do ciclo da água, para o armazenamento de carbono e para a conservação da biodiversidade. Apesar disso, continua longe das preocupações quotidianas de grande parte da população.
Os resultados do inquérito lançado pela investigadora deverão ajudar a perceber até que ponto esse desconhecimento persiste e quais os aspetos que exigem maior investimento em educação e divulgação científica.
Um recurso discreto que sustenta a vida
Quando se fala em proteger a natureza, o pensamento dirige-se quase sempre para rios, oceanos ou florestas. O solo raramente ocupa esse lugar de destaque, embora todos esses ecossistemas dependam dele. É precisamente essa mudança de perspetiva que Ana Catarina Santos pretende promover.
O reconhecimento agora atribuído pela comunidade académica à sua investigação mostra que essa nova forma de comunicar ciência também encontra eco dentro das universidades.

Ao aproximar biologia, expressão artística e participação pública, o projeto propõe uma abordagem interdisciplinar para enfrentar um desafio que é igualmente interdisciplinar. Como envolver a sociedade na preservação de um recurso que quase nunca ocupa o centro das atenções?
A resposta talvez não passe por produzir apenas mais conhecimento, mas também por encontrar novas formas de contá-lo. Antes de aprendermos a cuidar do solo, é preciso, afinal, reparar nele.
Referência da notícia
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Participe no inquérito “O nosso solo: onde o saber cria raízes”.
Universidade do Porto. Bailarina cientista da FCUP quer ajudar os portugueses a saber mais sobre o solo.