Alguns pássaros cantam a mesma melodia por vários milhares de anos

As populações de pássaros-sol de colarinho duplo da África Oriental estiveram isoladas umas das outras durante centenas de milhares, senão um milhão de anos, mas ainda assim parecem muito semelhantes. Embora quase indistinguíveis na plumagem, algumas destas linhagens de pássaros alteraram muito os seus cânticos, enquanto outras não. Saiba porquê!

Pássaro-Sol
Segundo os investigadores de Berkeley, o canto dos chamados pássaros-sol que existem em ilhas do céu, muda ao longo de dezenas de milhares de anos. Fonte: University of California, Berkeley

Muitos dos pássaros que nos acordam todas as manhãs aprendem os seus cantos melodiosos da mesma forma que os humanos aprendem um dialeto, através dos pais e vizinhos. Mas para a maioria dos biólogos, aprender músicas por meio da mímica é um processo incerto e propenso a erros, resultando numa mudança lenta, mas inevitável, no canto ao longo dos anos.

Um novo estudo realizado por biólogos da Universidade da Califórnia, Berkeley (UC Berkeley), e da Universidade Estadual de Missouri, Springfield, documenta canções de pássaros da África Oriental que permaneceram quase inalteradas por mais de 500.000 anos, e talvez por até 1 milhão de anos, tornando as melodias quase indistinguíveis daquelas de parentes dos quais eles estão separados há muito tempo.

A natureza surpreendentemente estática dos seus cânticos pode dever-se à falta de mudança nos ambientes destas aves, ou seja, florestas montanhosas estáveis, as chamadas ilhas do céu, isoladas de outras populações de ilhas do céu da mesma espécie ou de espécies semelhantes por dezenas de milhares a milhões de anos.

A coloração das penas das aves também pouco se alterou, tornando a plumagem quase indistinguível uma da outra, embora algumas sejam espécies separadas, mas intimamente relacionadas.

Segundo Rauri Bowie, Professor de Biologia Integrativa da UC Berkeley, a ideia de que o canto dos pássaros muda rapidamente provavelmente surgiu de estudos de pássaros do Hemisfério Norte, que encontraram mudanças nas condições ambientais repetidamente, com glaciares a avançar e a recuar nas últimas dezenas de milhares de anos. Ambientes em mudança causam alterações na plumagem, canto dos pássaros, comportamento de acasalamento e muito mais.

Segundo Rauri Bowie, o canto é considerada uma das barreiras de isolamento pré-acasalamento mais importantes, uma das principais maneiras pelas quais os pássaros se diferenciam.

Os biólogos reconhecem dois tipos de barreiras ao acasalamento que tendem a gerar novas espécies de animais. As barreiras pré-acasalamento são sinais que impedem um indivíduo de acasalar com outro. Nos pássaros, isto pode acontecer porque não cantam a melodia certa ou porque não tem o mesmo que o outro pássaro.

Pássaros-sol da Ilha do céu

Os pássaros-sol são os mais diversificados e estão entre os grupos de pássaros mais coloridos da África e da Ásia, preenchendo um nicho ocupado por beija-flores nas Américas, embora não tenham relação com eles. Muitos possuem bicos curvos que lhes permite mergulhar fundo em flores recurvadas.

Bowie visitou quase todas as ilhas do céu na África Oriental entre 2007 e 2011 e gravou canções de 123 pássaros individuais de seis linhagens diferentes de pássaros-sol de colarinho duplo oriental.

Os investigadores desenvolveram uma técnica estatística para distinguir entre mudanças graduais e mudanças rápidas numa característica como o canto dos pássaros e descobriram que as diferenças de canto não pareciam correlacionadas com o tempo de separação das populações individuais, conforme estimado a partir de diferenças genéticas no ADN.

pássaro-sol de dorso-oliva
O pássaro-sol de dorso-de-oliva, originalmente um habitante de florestas de mangue, é comum no sul da China e no sudeste da Ásia, e varia do Pacífico Sul até à Austrália e Ilhas Salomão. Fonte: University of California, Berkeley

Duas populações de espécies separadas há muito tempo tinham cantos quase idênticos, enquanto duas outras espécies de aspeto semelhante que haviam sido separadas por menos tempo tinham cantos amplamente divergentes.

O que mais lhes surpreendeu ao realizar esta investigação foi o quão semelhantes eram estas melodias aprendidas de populações isoladas, dentro das espécies, e quão óbvias eram as diferenças entre as melodias onde elas ocorrem. Com base neste estudo, os biólogos argumentam que características como a melodia aprendida e a plumagem não derivam inevitavelmente em populações isoladas, mas que evoluem em pulsos, pontuados por longos períodos, talvez centenas de milhares de anos, de pouca mudança.

Os investigadores continuam as investigações na África Oriental para determinar o que leva alguns pássaros a alterar as melodias, mas não outros.