Algas marinhas têm potencial surpreendente para remover poluentes persistentes dos rios

Investigadores da Universidade de Aveiro identificaram uma solução natural e eficaz para combater a contaminação da água, recorrendo a organismos capazes de absorver compostos químicos industriais.

Investigadores testaram diferentes espécies de algas, que demonstram elevada capacidade de remoção de contaminantes. Foto: Adobe Stock
Investigadores testaram diferentes espécies de algas, que demonstram elevada capacidade de remoção de contaminantes. Foto: Adobe Stock

As águas que correm sob as cidades carregam mais do que resíduos invisíveis. Transportam também a marca persistente de corantes sintéticos usados em larga escala pela indústria. Um estudo da Universidade de Aveiro aponta agora uma solução surpreendentemente eficaz. Macroalgas marinhas podem limpar essa contaminação com rapidez, baixo custo e impacto ambiental reduzido.

Os corantes sintéticos, amplamente utilizados nos setores têxtil, médico e químico, estão entre os poluentes mais difíceis de remover.

Resistentes à luz solar e à degradação biológica, permanecem nas massas de água meses ou anos. A sua estrutura química complexa favorece a acumulação nos sedimentos, permitindo que se disperse por longas distâncias. O resultado é uma pressão crescente sobre os ecossistemas aquáticos, agravada pela incapacidade de muitos sistemas de tratamento de lidar com estes compostos.

Os investigadores Thiago Silva, Eduarda Pereira e Bruno Henriques são os autores do estudo. Foto: Universidade de Aveiro.
Os investigadores Thiago Silva, Eduarda Pereira e Bruno Henriques são os autores do estudo. Foto: Universidade de Aveiro.

A dimensão do problema é expressiva, sobretudo na indústria têxtil, responsável por cerca de um quinto da poluição industrial da água a nível global. Na Europa, os contaminantes geram milhões de toneladas de resíduos todos os anos. Dados recentes mostram, inclusive, que a maioria dos rios e lagos do continente apresenta contaminação por substâncias persistentes e apenas uma fração reduzida atinge níveis considerados seguros.

Um filtro natural com resultados rápidos

As macroalgas podem vir a ser uma alternativa promissora. A equipa de investigação do Departamento de Química e do LAQV-REQUIMTE – Laboratório Associado para a Química Verde, da Universidade de Aveiro, analisou três géneros distintos, Fucus, Gracilaria e Ulva.

A investigação avaliou a capacidade de remover azul de metileno, um corante frequentemente utilizado como modelo científico. Os testes foram realizados em diferentes tipos de água e níveis de salinidade, simulando condições variadas. Os resultados revelam desempenhos surpreendentes.

A alga Ulva, em estado vivo, conseguiu remover até 92 por cento do corante em apenas seis horas. Em água doce, os valores foram ainda mais elevados. Já a biomassa seca de Fucus destacou-se pela rapidez, atingindo cerca de 96 por cento de remoção em meia hora, especialmente em ambientes mais salinos.

A diferença entre algas vivas e secas não se limita à velocidade. A biomassa seca atua de forma quase imediata, enquanto as algas vivas são mais fáceis de separar após o tratamento e mantêm a capacidade de absorver dióxido de carbono, contribuindo para reduzir emissões. Esta dupla função reforça o potencial das macroalgas como uma ferramenta ambiental com grande potencial.

Poluição invisível com impacto profundo

Os impactos dos corantes não se limitam à simples alteração da cor da água. Ao diminuírem a entrada de luz solar, prejudicam a fotossíntese e desequilibram os ecossistemas aquáticos. Alguns desses compostos são, além disso, potencialmente tóxicos e podem acumular-se ao longo da cadeia alimentar, com efeitos indiretos na saúde humana.

A alga Ulva remove mais de 90 por cento do corante da água em apenas seis horas. Foto: Universidade de Aveiro.
A alga Ulva remove mais de 90 por cento do corante da água em apenas seis horas. Foto: Universidade de Aveiro.

A persistência destes poluentes torna urgente encontrar soluções eficazes. As tecnologias convencionais continuam a enfrentar limitações técnicas e custos elevados. O recurso a organismos naturais surge, neste cenário, como uma alternativa mais sustentável e adaptável.

Do laboratório à escala industrial

A aplicação prática desta tecnologia exige, no entanto, um planeamento cuidadoso. Os investigadores defendem que o cultivo controlado de macroalgas deve ser privilegiado em relação à recolha direta no meio natural. Esta abordagem evita desequilíbrios ecológicos e permite garantir fornecimento contínuo.

A aquacultura de macroalgas, aliás, já é uma realidade consolidada em Portugal, o que facilita a integração desta solução em sistemas existentes. As algas podem ser cultivadas em ambientes controlados ou incorporadas em infraestruturas de tratamento de águas residuais.

A utilização de biomassa residual de outras atividades industriais abre ainda novas possibilidades de aproveitamento. O estudo da Universidade de Aveiro representa um primeiro passo. Os testes foram realizados com um corante modelo, mas o intuito é avançar para efluentes reais, em que a complexidade química é maior.

Ainda assim, esta é a direção, defendem os autores do estudo. As macroalgas afirmam-se como uma resposta viável, sustentável e economicamente competitiva. Num contexto de crescente preocupação com os recursos hídricos, as algas podem vir a desempenhar um papel decisivo na recuperação da qualidade da água e na proteção dos ecossistemas.

Referência do artigo

Macroalgas marinhas mostram elevado potencial para remover corantes poluentes da água. Universidade de Aveiro

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