A península Antártica sob o clima atual e futuros cenários de emissões baixas, médio-altas e muito altas

O termómetro do mundo: o que a Península Antártica nos diz sobre o futuro. Saiba mais aqui!

A Península é um autêntico 'hotspot' de biodiversidade, o equilíbrio deste ecossistema é muito sensível para as espécies sobreviverem.
A Península é um autêntico 'hotspot' de biodiversidade, o equilíbrio deste ecossistema é muito sensível para as espécies sobreviverem.

Reconhecida como uma das regiões mais sensíveis do planeta, a Península Antártica serve de base para este estudo, que analisa as suas recentes e céleres transformações para projetar cenários futuros face às emissões de gases com efeito de estufa.

Aquecimento atmosférico e oceânico

A Península Antártica tem registado um aquecimento significativo desde a década de 1950, com algumas estações a reportar subidas de 0,45ºC por década. Este ritmo é superior à média global. As projeções indicam que:

  • Sob o cenário de emissões muito altas (SSP 5-8.5), a temperatura média anual na Península poderá subir 4,23ºC face aos níveis atuais até ao final do século.
  • O número de dias com temperaturas acima de 0ºC poderá aumentar de 19,7 para 47,6 dias por ano no cenário mais gravoso.
Sabia que a Península Antártica é uma das regiões que mais depressa aquece em todo o Hemisfério Sul? Nos últimos 50 anos, a temperatura subiu quase 3°C, transformando radicalmente esta paisagem gelada.
Sabia que a Península Antártica é uma das regiões que mais depressa aquece em todo o Hemisfério Sul? Nos últimos 50 anos, a temperatura subiu quase 3°C, transformando radicalmente esta paisagem gelada.
  • A precipitação deverá aumentar, com uma transição notável de neve para chuva durante o verão, onde mais de um terço da precipitação poderá cair como chuva no cenário SSP 5-8.5.
  • No oceano, a intensificação dos ventos está a impulsionar a subida de Águas Profundas Circumpolares (CDW) quentes para a plataforma continental, acelerando o degelo basal.

Degelo e nível do mar

A criosfera da Península está sob forte pressão, com o gelo marinho a atingir recordes mínimos sucessivos entre 2022 e 2024. As plataformas de gelo, essenciais para travar o fluxo dos glaciares terrestres, estão a perder massa devido à fusão basal e superficial.

É provável o colapso das plataformas de gelo Larsen C e Wilkins até 2100 sob emissões muito altas. Já a plataforma George VI mostra maior resistência devido ao seu regime de fluxo compressivo, mas continua vulnerável a longo prazo.

A perda de massa dos glaciares terrestres aumentou para 21 gigatoneladas por ano (incerteza entre 9 e os 33 Gt) no período 2017-2020. As contribuições para a subida do nível do mar podem atingir 116,3 mm (incerteza entre de 66,9 mm) até ao ano 2300 no cenário de emissões mais elevado.

Impactos ecológicos e operacionais

As alterações físicas desencadeiam mudanças profundas nos ecossistemas, como por exemplo as áreas de distribuição de espécies pelágicas vitais, como o krill e as salpas, deverão contrair para sul.

A redução do gelo marinho já causou falhas reprodutivas catastróficas em colónias de pinguins-imperador.

Nos ecossistemas terrestres, o aquecimento pode beneficiar algumas espécies nativas a curto prazo, mas aumenta o risco de invasões por espécies não nativas e de ultrapassagem dos limites térmicos das espécies locais.

Os Pinguins-Imperador são a maior de todas as espécies de pinguins. Um adulto pode atingir 1,20 metros de altura (quase a altura de uma criança de 7 anos) e pesar até 45 kg.
Os Pinguins-Imperador são a maior de todas as espécies de pinguins. Um adulto pode atingir 1,20 metros de altura (quase a altura de uma criança de 7 anos) e pesar até 45 kg.

A nível operacional, o aumento de eventos extremos (como rios atmosféricos e ondas de calor marinhas) desafia a logística científica, o turismo e as pescas. A chuva pode comprometer o uso de pistas de aviação e tendas não preparadas para humidade.

Em suma, o estudo enfatiza que o futuro da Península depende das decisões tomadas nesta década. Seguir um caminho de baixas emissões (SSP 1-2.6), limitando o aquecimento global resultaria em mudanças moderadas e maior resiliência para a região.

Referência da notícia:

Davies BJ, Atkinson A, Banwell AF, Brandon M, Caton Harrison T, Convey P, De Rydt J, Dodds K, Downie R, Edwards TL, Gilbert E, Hubbard B, Hughes KA, Marshall GJ, Orr A, Rogelj J, Seroussi H, Siegert M, Stroeve J and Rumble J (2026) The Antarctic Peninsula under present day climate and future low, medium-high and very high emissions scenarios. Front. Environ. Sci. 13:1730203. doi: 10.3389/fenvs.2025.1730203