A água do degelo da Antártida trouxe muito menos ferro do que os modelos climáticos previam
O degelo da Antárctida tem sido associado a um possível “lado positivo” para o clima: o ferro alimenta as algas que absorvem o CO₂. Mas novos dados de campo sugerem que o aumento do ferro foi sobrestimado.

Há muitos anos que os cientistas do Oceano Antártico esperam que o derretimento do gelo antártico possa ter um efeito positivo e ser benéfico para o clima.
A ideia era que mais água de degelo significava mais ferro no oceano e que o ferro poderia impulsionar a proliferação de fitoplâncton que extrairia o dióxido de carbono do ar. No entanto, medições recentes no terreno na Antártida Ocidental lançaram dúvidas sobre esta afirmação.
Investigadores da Universidade Rutgers-New Brunswick afirmam que a água de fusão de uma plataforma de gelo contribuiu com muito menos ferro do que muitos estudos supunham, e que a maior parte do ferro na área parece ter vindo de outro sítio.
As provas de campo batem a teoria
A equipa concentrou-se na plataforma de gelo Dotson, no mar de Amundsen, onde a água do oceano profundo, relativamente quente, flui para cavidades sob as plataformas de gelo flutuantes e provoca o derretimento a partir de baixo.
Em 2022, a equipa recolheu amostras de água nos locais onde a água do mar entrava na cavidade e onde voltava a entrar depois de se misturar com água do degelo, a fim de medir o que mudou, em vez de se basear em simulações.
“Tem sido amplamente assumido que o derretimento dos glaciares por baixo das plataformas de gelo contribui com uma quantidade considerável de ferro biodisponível para as águas dessas plataformas, num processo de fertilização por ferro impulsionado naturalmente pelos glaciares”, afirmou Rob Sherrell, professor da Rutgers e principal investigador do estudo.

Acrescentou que os novos resultados revisam essa suposição e que a quantidade de ferro transportada pela água do degelo era “várias vezes menor do que as estimativas anteriores”.
O principal autor do estudo, Venkatesh Chinni, mediu as concentrações de ferro, observando tanto o ferro dissolvido quanto o ferro aderido às partículas, enquanto outros investigadores utilizaram «impressões digitais» isotópicas para rastrear de onde provavelmente vinha o ferro, determinando essencialmente se coincidia com o derretimento do gelo, as águas profundas ou os sedimentos.
De onde vem o ferro
A divisão relatada pelos investigadores é bastante evidente. A água do degelo representou apenas cerca de 10% do ferro dissolvido que fluía da cavidade, de acordo com o estudo, enquanto a maior parte veio das águas oceânicas profundas (62%) e outros 28% vieram dos sedimentos da plataforma continental.
"Aproximadamente 90% do ferro dissolvido que sai da cavidade da plataforma de gelo vem de águas profundas e sedimentos fora da cavidade, não da água do degelo", disse Chinni.
Os dados isotópicos também indicaram outro aspeto importante: que por baixo do glaciar, onde a rocha-mãe se encontra numa camada de água de degelo com baixo teor de oxigénio, esta pode dissolver-se mais facilmente, libertando ferro.
“O que afirmamos neste artigo é que a água de degelo em si transporta muito pouco ferro e que a maior parte do ferro que transporta provém da trituração e dissolução do leito rochoso na camada líquida entre o leito rochoso e o manto de gelo, e não do gelo que está a provocar a subida do nível do mar”, explicou Sherrell.
Os resultados sugerem, portanto, que os modelos climáticos poderão ter de tratar o derretimento das plataformas de gelo como uma fonte de ferro muito mais pequena do que se pensava, dizem os cientistas.
Referência da notícia
Iron supply to the Amundsen Sea, Antarctica is dominated by circumpolar deepwater and continental subglacial sources, published in Communications Earth & Environment, February 2026.