A geoengenharia no Ártico funciona: a experiência histórica que aumentou a espessura do gelo em 32 cm
Pela primeira vez, uma experiência realizada ao longo de todo um inverno demonstrou que inundar o gelo marinho com água do oceano pode torná-lo mais espesso, mais brilhante e retardar o seu derretimento. Será possível aplicar isto em grande escala?

O gelo marinho do Ártico tem vindo a diminuir há décadas e os modelos climáticos indicam que poderá desaparecer quase por completo durante os verões, ainda antes de meados do século. Enquanto o mundo tenta reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, alguns cientistas exploram e questionam-se: será possível proteger diretamente o gelo para ganhar tempo face ao aquecimento global?
Um estudo publicado na revista Earth's Future apresenta agora a primeira evidência obtida em condições reais de que uma técnica proposta há anos pode funcionar.
Durante o inverno de 2024-2025, uma equipa internacional realizou uma experiência em Cambridge Bay, no Ártico canadiano, onde inundou setores do gelo marinho com água bombeada do oceano. No final da época, as zonas tratadas apresentavam até 32 centímetros a mais de espessura do que aquelas onde não foi realizada qualquer intervenção, uma diferença equivalente ao afinamento registado nessa região nos últimos 50 anos.
Por que é que deitar água sobre o gelo pode torná-lo mais resistente?
A ideia parece contraditória, mas tem uma explicação física.
Quando o oceano começa a congelar durante o outono, o gelo aumenta gradualmente de espessura à medida que perde calor para a atmosfera. No entanto, a neve que cai sobre a sua superfície atua como um isolante, semelhante ao de uma casa, reduzindo a perda de calor e travando o crescimento do gelo.
Os investigadores aproveitaram esse mecanismo.
A savage summer of heat in the Arctic has taken 2020 to the second lowest sea ice extent on record.
— Scott Duncan (@ScottDuncanWX) September 7, 2020
The summer 2020 melt season has been summarised in a few seconds. The orange line is the long term average.
In short, we have lost an enormous amount of ice.
[1/5] pic.twitter.com/GT0O570IPt
Em vez de removerem a neve, bombearam água do mar sobre o gelo. A água encharcou a camada de neve e congelou rapidamente, formando uma nova camada sólida. Ao mesmo tempo, essa transformação permitiu que o frio penetrasse com maior facilidade e favorecesse um crescimento adicional a partir da parte inferior do gelo.
Para verificar se a técnica funcionava, a equipa transformou um quilómetro quadrado de gelo marinho num laboratório ao ar livre. Dividiram a área em onze setores: alguns permaneceram intactos e outros foram alvo de uma ou duas inundações em diferentes momentos do inverno. No total, bombearam cerca de 30 000 metros cúbicos de água do mar e, em seguida, realizaram mais de mil medições da espessura do gelo, além de observações com drones, sensores e satélites.
Os resultados confirmaram que as parcelas inundadas duas vezes alcançaram o maior crescimento, com aumentos entre 30 e 32 centímetros em relação às zonas de controlo.
Um efeito inesperado: o gelo também ficou mais brilhante
O aumento da espessura era o principal objetivo da experiência. No entanto, surgiu outro resultado que surpreendeu os investigadores.
Durante a primavera, o gelo tratado permaneceu muito mais branco do que o gelo natural.
As imagens obtidas com drones e satélites mostraram que as zonas tratadas destacavam-se claramente pelo seu maior brilho, um efeito que os modelos utilizados até agora nem sequer contemplavam. Os autores acreditam que o novo gelo possa conter uma estrutura interna diferente, com pequenas bolhas de ar capazes de dispersar melhor a luz, embora ainda seja necessário investigar esse mecanismo.
A equipa também testou uma segunda estratégia. Quando o degelo primaveril começa, a água costuma acumular-se em poças na superfície do gelo. Como essas poças são muito mais escuras, absorvem mais radiação solar e aceleram a fusão. Os investigadores perfuraram pequenos orifícios para drenar parte dessa água e verificaram que, em poucos dias, a superfície recuperou grande parte do seu brilho.
Mesmo assim, os próprios autores mostram-se cautelosos. O estudo demonstra que a técnica funciona em pequena escala, mas ainda há questões importantes a esclarecer antes de se pensar numa aplicação mais ampla. Será necessário avaliar os seus custos, a enorme complexidade logística de intervir em grandes superfícies e, acima de tudo, os seus possíveis impactos nos ecossistemas árticos e nas comunidades que dependem do gelo marinho.
Longe de se apresentar como uma alternativa à redução das emissões, os investigadores defendem que este tipo de intervenções só poderá tornar-se, no futuro, uma ferramenta complementar para conservar zonas especialmente vulneráveis. O que esta experiência realmente muda é que, pela primeira vez, uma ideia que até agora só existia em simulações por computador demonstrou funcionar no mundo real.
Referência da notícia
Blanchard-Wrigglesworth, E., Ceccolini, A., Smith, A., Woods, A., Sherwin, C., Borowski, K., et al. (2026). Artificial flooding leads to thicker and brighter Arctic sea ice.