A fuga das águas do lago Loughareema é um fenómeno (ainda) inexplicável para os cientistas
Graças a um sistema de drenagem subterrâneo que os cientistas ainda não compreendem, este lago pode estar cheio de manhã e vazio algumas horas depois.

Ao passar pela estrada de Ballycastle, que atravessa o lago das terras altas de Loughareema, no condado de Antrim, é bem possível que se depare com um lago transbordante e cheio de vida. Mas pode também dar-se o caso de estar vazio e coberto por um leito de lama.
Rodeada por um pântano húmido e acessos difíceis, a paisagem está frequentemente envolta numa densa neblina, tornando-a num destino pouco frequentado para caminhadas ou piqueniques. Loughareema, para os habitantes, é um território assombrado e desolado onde as histórias de fantasmas se multiplicam.
Os fantasmas do lago
Reza a lenda que, algures, no início do século XIX, uma carruagem puxada a cavalos se afundou nestas terras lamacentas, enquanto o cocheiro tentava atravessar o lago.
A passagem poderia ser feita através de uma estrada que atravessa o lago, mas, na calada da noite, seria impossível ver se a linha de água estava baixa ou elevada.

A tradição oral conta que, desde então, nas noites em que o lago está cheio, um fantasma assombra este lugar e se alia a um kelpie, criatura aquática mítica, semelhante a um cavalo. Juntos unem as suas forças para atrair os mais incautos até às águas subterrâneas, que desaparecem sem deixar vestígio.
É somente mais uma história do folclore irlandês, fértil em lendas, mitos e contos populares transmitidos de geração em geração. Para os cientistas, o mistério verdadeiramente intrigante de Loughareema é bem distinto. Considerado um dos sítios geológicos mais enigmáticos da Irlanda do Norte, o fenómeno das águas desaparecidas não é ainda totalmente compreendido.
Sistema oculto de drenagem
Três riachos desaguam dentro do lago, mas a única saída de Loughareema é um dreno no fundo, que fica intermitentemente bloqueado e desbloqueado, originando mudanças dramáticas no nível da água.
Uma depressão na base do lago drena toda a água para canais subterrâneos. Através deste sistema de drenagem subterrâneo, ainda pouco estudado, a água é sugada, reaparecendo a 2,5 quilómetros de distância, na nascente do rio Carey, resultando num lago vazio até voltar a encher com as correntes vindas dos três ribeiros.

O mecanismo natural de Loughareema intriga os cientistas há décadas, ampliando ainda mais o mistério junto das comunidades locais. Mas tudo pode estar prestes a mudar com o estudo atualmente conduzido por investigadores do British Geological Survey em Belfast.
Uma luz sob o enigma
A investigação recorre a imagens captadas em time-lapse, que, ao longo dos últimos meses, registaram, pela primeira vez, os movimentos de enchimento e de esvaziamento do lago. Sensores de nível de água, instalados em diferentes locais, mediram igualmente a taxa de saturação e de escoamento do lago.
Os resultados, que se espera que sejam divulgados ainda antes do final de 2026, poderão não trazer uma explicação científica para as criaturas fantasmagóricas. Mas é bem provável que possam resolver finalmente o mistério que faz o Loughareema desaparecer e reaparecer.

Até lá, os irlandeses continuam cautelosos. Se passar pelo local, portanto, lembre-se de que a estrada de Ballycastle não é um lugar para se visitar depois do sol posto. Nunca se sabe quando uma mão se erguerá na escuridão para o arrastar até às trevas do sistema subterrâneo do lago Loughareema.
Referência da notícia
Kirstin Lemon. Geological Survey Northern Ireland.
Sacha Pere. Loughareema: The 'vanishing lake' in Northern Ireland that mysteriously drains and refills itself within hours. LiveScience.