Esta aldeia quer perder o selo da UNESCO. "Estamos num jardim zoológico?"

Com 17 habitantes e cerca de 100 mil turistas por ano, Vlkolínec divide-se entre preservar o património e recuperar a tranquilidade. “Os turistas vão onde querem e ficam a bisbilhotar todos os dias.”

A aldeia onde o selo da UNESCO já não é motivo de festa. Foto: Unsplash
A aldeia onde o selo da UNESCO já não é motivo de festa. Foto: Unsplash

“Estamos num zoo ou algo do género?” O protesto é feito por Anton Sabucha, um reformado de 68 anos, à agência de notícias France-Presse (AFP). Em frente ao portão da sua casa, as placas não deixam dúvidas: aqui os turistas não são bem-vindos.

"Propriedade privada". "Entrada proibida." "Proibida a fotografia". Placas com estes dizeres são os mais comuns de encontrar em Vlkolinec, uma pequena aldeia eslovaca classificada como Património Mundial da UNESCO desde 1993.

Com 45 casas de madeira inalteradas e menos de 20 habitantes, Vlkolinec é visitada por 100 mil turistas por ano. Os residentes, porém, não ficam satisfeitos com estes números. É caso para dizer que o desespero dos locais é real.

"Os turistas vão onde querem, tiram fotografias e ficam a bisbilhotar todos os dias", descreveu Sabucha.

Afinal, os visitantes chegam aqui atraídos pelas casas de madeira pintadas sobretudo em tons de branco, amarelo ou castanho e pelos trilhos de floresta que podem ser feitos a pé ou de bicicleta.

A aldeia onde o título da UNESCO já não é motivo de orgulho

Para a maioria das localidades, entrar na lista do Património Mundial da UNESCO é um sonho. Significa reconhecimento internacional, maior proteção e, quase sempre, mais visitantes. Mas esta pequena aldeia no norte da Eslováquia começa a olhar para essa distinção de forma bem diferente.

Em Vlkolínec, alguns habitantes acreditam que perder o estatuto seria a melhor forma de recuperar a tranquilidade.

Pode parecer contraditório, mas, quando vivem 17 pessoas num lugar que recebe cerca de 100 mil turistas por ano, a realidade torna-se bastante diferente daquela que os visitantes imaginam.

Escondida nas montanhas da região de Liptov, perto da cidade de Ružomberok, Vlkolínec é considerada um dos mais bem preservados exemplos de arquitetura rural tradicional da Europa Central. A aldeia nasceu no século XV e mantém um conjunto de cerca de 45 casas de madeira, pintadas em tons suaves, além de um campanário histórico e outros edifícios que praticamente não mudaram ao longo dos séculos. Foi precisamente esse valor patrimonial que levou a UNESCO a classificá-la como Património Mundial em 1993.

Os visitantes chegam atraídos pelas casas de madeira. Foto: Wikimedia // 10ricardo
Os visitantes chegam atraídos pelas casas de madeira. Foto: Wikimedia // 10ricardo

O problema é que Vlkolínec não é um museu. Continua a ser uma aldeia habitada e, para quem vive ali todos os dias, a constante presença de turistas começa a pesar.

Anton Sabucha, o residente mais antigo da aldeia, tornou-se a voz mais conhecida deste descontentamento.

Quando o turismo deixa de ser bem-vindo

Segundo o morador, muitos visitantes entram em propriedades privadas, fotografam janelas e jardins e passeiam como se toda a aldeia fosse um parque temático. A situação levou-o mesmo a defender que Vlkolínec estaria melhor sem o selo da UNESCO, caso isso ajudasse a reduzir a pressão turística.

O pior é que as queixas não ficam por aqui. Os residentes apontam também a falta de infraestruturas para receber tantas pessoas. Há quem denuncie a escassez de estacionamento, a inexistência de casas de banho públicas suficientes e situações em que turistas entram inadvertidamente em propriedades privadas ou utilizam jardins como alternativa às instalações sanitárias.

Jan Ondrik, presidente da associação de residentes de Vlkolinec, alertou que, às vezes, os turistas podem "fazer as suas necessidades no jardim de alguém" e contou que já encontrou turistas a entrar na sua casa.

Nem todos querem abdicar da UNESCO

Apesar da polémica, a ideia de abandonar a classificação está longe de reunir consenso. Muitos habitantes reconhecem que o estatuto da UNESCO foi essencial para preservar as casas históricas e garantir investimentos na conservação do património. Além disso, a autarquia de Ružomberok não pretende solicitar qualquer retirada da lista.

Uma discussão que divide moradores. Foto: Wikimedia // Maros M r a z (Maros)
Uma discussão que divide moradores. Foto: Wikimedia // Maros M r a z (Maros)

Os responsáveis locais defendem que Vlkolínec continua a ser uma "aldeia viva" e não um museu ao ar livre. Como forma de compensação pelos incómodos causados pelo turismo, os residentes recebem uma contribuição anual de cerca de 400€, embora vários considerem esse valor insuficiente face ao impacto diário da elevada afluência de visitantes. Aliás, as queixas têm vindo a crescer cada vez mais.

“Os residentes sentem que a câmara municipal está a fazer mais pelos turistas do que pelos residentes”, partilhou Ondrik.

Referência da notícia

Público. (2026). “Estamos num zoo?”? Aldeia eslovaca quer perder selo UNESCO devido a excesso de turismo.
Notícias ao Minuto. (2026). Vlkolínec tem 17 habitantes e recebe 100 mil turistas: "Estamos num zoo?".
Jornal de Notícias. (2026). A vila museu onde turistas não são bem-vindos.
NiT, Pincelli, I. (2026). Aldeia com 17 habitantes está cansada do turismo. Quer deixar de ser património da UNESCO.