Sonda Perseverance regista relâmpagos em Marte: descargas elétricas captadas na sua atmosfera pela primeira vez
A atmosfera poeirenta de Marte sofre processos eólicos, que vão desde poeira e areia sopradas pelo vento, turbilhões de poeira de metros a centenas de metros, até tempestades de poeira de milhares de quilómetros, que, nos desertos da Terra, se podem eletrificar através de cargas triboelétricas.

Em Marte, os ventos levantam constantemente remoínhos de poeira fina. Foi no centro de dois destes remoínhos de poeira que o microfone do instrumento SuperCam, o primeiro a operar em Marte, registou acidentalmente sinais particularmente fortes.
Análises realizadas por cientistas do Institut de Recherche en Astrophysique et Planétologie (CNES/CNRS/Université de Toulouse) e do laboratório Atmosphères et Observations Spatiales (CNRS/Sorbonne Université/Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines) mostraram que estes sinais se tratavam de assinaturas eletromagnéticas e acústicas de descargas elétricas comparáveis aos pequenos choques de eletricidade estática que podem ser sentidos na Terra ao tocar numa maçaneta em tempo seco. Há muito teorizada, a existência de descargas elétricas na atmosfera marciana foi agora confirmada por observação pela primeira vez.
Como a poeira marciana cria faíscas
Estes fenómenos podem ser explicados pelo atrito entre minúsculas partículas de pó: carregam-se com eletrões e libertam as suas cargas sob a forma de arcos elétricos com alguns centímetros de comprimento, acompanhados por ondas de choque audíveis.

Na Terra, é sabido que as partículas de poeira podem carregar-se eletricamente, especialmente em regiões desérticas, embora isso raramente resulte em descargas elétricas. Em Marte, a atmosfera rarefeita, composta principalmente por dióxido de carbono, torna este fenómeno muito mais provável: a quantidade de carga necessária para formar faíscas é muito menor do que na Terra.
Implicações para a química e exploração de Marte
A descoberta destas descargas elétricas altera profundamente a nossa compreensão da química atmosférica marciana. Estes fenómenos mostram que a atmosfera de Marte pode atingir níveis de carga suficientes para acelerar a formação de compostos altamente oxidantes.
Tais substâncias podem destruir moléculas orgânicas à superfície, bem como inúmeros compostos atmosféricos, perturbando profundamente o equilíbrio fotoquímico da atmosfera. Esta descoberta pode explicar o desaparecimento surpreendentemente rápido do metano, que tem sido alvo de debate científico há vários anos.
As cargas elétricas necessárias para estas descargas afetam provavelmente o transporte de poeira em Marte, desempenhando assim um papel central no clima marciano, cuja dinâmica permanece em grande parte desconhecida. Podem também representar um risco para os equipamentos eletrónicos das atuais missões robóticas e constituir um perigo para potenciais futuras missões tripuladas.
O papel do microfone da SuperCam
O microfone do instrumento SuperCam a bordo do rover Perseverance da NASA registou os primeiros sons em Marte em 2021, um dia após a aterragem no planeta. Ligado diariamente, recolheu mais de 30 horas de sons do planeta vermelho: o vento a soprar, o ruído das hélices do helicóptero Ingenuity e, agora, descargas elétricas. Esta nova observação confirma o enorme potencial da acústica como ferramenta para a exploração planetária.
Referência da notícia
Baptiste Chide, Ralph D. Lorenz, Franck Montmessin, Sylvestre Maurice, Yann Parot, Ricardo Hueso, German Martinez, Alvaro Vicente-Retortillo, Xavier Jacob, Mark Lemmon, Bruno Dubois, Pierre-Yves Meslin, Claire Newman, Tanguy Bertrand, Grégoire Deprez, Daniel Toledo, Agustin Sánchez-Lavega, Agnès Cousin & Roger C. Wiens. Detection of triboelectric discharges during dust events on Mars. Nature (2025).