Serra da Malcata prepara o regresso do lince ibérico mais de duas décadas após a sua extinção local
A reserva natural, no município de Penamacor, volta a ganhar protagonismo com um novo plano que prepara a reintrodução da espécie numa região onde desapareceu há mais de vinte anos.

Durante grande parte do século XX, a Serra da Malcata foi um dos últimos redutos do lince ibérico em Portugal. A criação da Reserva Natural da Serra da Malcata, em 1981, procurou travar o declínio da espécie, mas a pressão acumulada ao longo de décadas acabou por ditar o seu desaparecimento.
A perda não resultou de um único fator. A transformação agrícola associada à campanha do trigo, promovida pelo Estado Novo entre 1931 e 1935, destruiu extensas áreas de habitat.

A caça furtiva, o uso de armadilhas destinadas a outras espécies e os incêndios recorrentes agravaram a mortalidade. A fragmentação do território reduziu os encontros entre machos e fêmeas, impedindo a renovação genética e acelerando o colapso da população local.
Um novo plano para proteger uma espécie emblemática
Mais de vinte anos depois, a Malcata volta a estar no centro da estratégia de conservação. O novo Plano de Ação para a Conservação do Lince Ibérico em Portugal 2026-2030 define a criação de uma área de reintrodução até ao final da década.
O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas está a trabalhar com a Câmara Municipal de Penamacor para delimitar um espaço cercado com cerca de 200 hectares. Esta área servirá para a aclimatação dos animais antes da libertação definitiva na reserva, permitindo que se adaptem ao território e reduzindo os riscos nas primeiras semanas.
Uma história luso-espanhola com um final feliz
A reintrodução na Malcata só é viável porque o lince ibérico vive atualmente uma recuperação sem precedentes. No início dos anos 2000, a espécie estava à beira de desparecer, com menos de 100 indivíduos em toda a Península Ibérica.
A primeira fase centrou-se na reprodução em cativeiro. Os primeiros linces foram libertados em 2011 e, até 2014, já tinham sido reintroduzidos 403 animais nascidos em centros especializados.
A expansão territorial foi rápida e acompanhada por um aumento consistente do número de fêmeas reprodutoras. Em 2024, o censo ibérico registou 2.401 linces, um crescimento de 280% face a 2019. Nesse ano, o número de fêmeas reprodutoras atingiu 470, aproximando-se da meta de 750 necessária para garantir um estado de conservação favorável.
O sucesso levou a União Internacional para a Conservação da Natureza a alterar o estatuto da espécie de “Em Perigo” para “Vulnerável” em 2024. Em Portugal, mais de 200 crias já nasceram em liberdade, o que é visto como um sinal de que as paisagens restauradas oferecem condições adequadas para a sobrevivência e reprodução.

O novo plano nacional visa reforçar áreas essenciais como a proteção legal, a melhoria do habitat, a gestão genética, a monitorização conjunta e a prevenção de conflitos. A mortalidade continua a ser um desafio, sobretudo devido aos atropelamentos.
A reintrodução na Malcata representa mais do que o regresso de um predador icónico de Portugal e de Espanha. É a oportunidade de restaurar um ecossistema que perdeu uma peça fundamental e de consolidar uma história de recuperação que, há vinte anos, parecia inimaginável.
Referência do artigo
Novo Plano de Ação para a Conservação do Lince-ibérico (PACLIP) – Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.
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