Portugal ajuda a construir satélite que vai desvendar os maiores segredos da matéria escura
Cientistas portugueses assumem a liderança tecnológica e a análise de dados da missão ARRAKIHS, projeto espacial europeu que ambiciona decifrar a evolução do Universo através de estruturas invisíveis.

O espaço profundo pode ser um imenso museu arqueológico onde o passado das galáxias está preservado sob a forma de destroços invisíveis a olho nu. É justamente nesta vasta escuridão que uma equipa de astrofísicos da Universidade do Porto planeia mergulhar na próxima década.
Através do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, os cientistas nacionais garantiram um papel crucial na missão ARRAKIHS, um projeto de exploração cósmica cuja fase de construção foi oficialmente validada pela Agência Espacial Europeia.
Com lançamento agendado para o ano de 2030, este satélite vai viajar pelo cosmos com o objetivo de captar a radiação mais ténue do Universo. A tecnologia de ponta desenvolvida pelo consórcio internacional promete revolucionar a astronomia moderna, transformando ideias teóricas em observações reais.
O contributo da academia portuguesa estende-se desde o desenvolvimento de software complexo até à engenharia de proteção térmica do telescópio, colocando o país num patamar de relevância internacional.
O enigma do modelo padrão da cosmologia
A grande meta desta viagem tecnológica prende-se com a validação do modelo de padrões de cosmologia, a teoria científica dominante que descreve a composição e o nascimento do Universo. Segundo este princípio conceptual, o cosmos é moldado por uma rede invisível de matéria escura fria, operando como um andaime a ditar o crescimento das estruturas celestes.
Embora represente a maior parte da massa do Universo, esta substância misteriosa não emite luz, sendo detetável apenas através da força gravítica que exerce nas estrelas vizinhas.

A comunidade científica enfrenta há décadas a dificuldade de comprovar se as simulações matemáticas correspondem à realidade das galáxias reais. É aqui que o satélite europeu assume protagonismo, focando as suas lentes nos halos estelares, que são nuvens gigantescas de astros dispersos e restos fósseis localizados na periferia de galáxias semelhantes à Via Láctea.
Estas zonas periféricas atuam como um registo histórico intacto, preservando os vestígios de colisões cósmicas ocorridas há milhares de milhões de anos.
Um centro de dados com comando português
A participação nacional nesta aventura espacial vai muito além da consultoria académica. Portugal conquistou a responsabilidade direta pelas operações dos instrumentos e pela gestão do centro de dados científicos da missão.
A tarefa, altamente especializada, exige desenvolver algoritmos de processamento de imagem sem precedentes na indústria de software nacional. Os programas de computador criados pelas equipas portuguesas vão limpar o ruído visual das fotografias espaciais, isolando as componentes estelares de baixo brilho até agora ocultas aos maiores observatórios terrestres.
Esta capacitação tecnológica promove o desenvolvimento de competências raras em análise de dados avançada e engenharia de sistemas.
Escudo térmico desenhado por engenheiros nacionais
A nível industrial, o envolvimento do país materializa-se no desenho e fabrico do isolamento multicamadas do telescópio. Trata-se de um subsistema de engenharia crítica concebido para proteger os espelhos e os sensores do satélite contra as oscilações térmicas extremas do ambiente espacial.
O sucesso alcançado nas fases preliminares do projeto, consolidadas com a entrega do relatório técnico de definição da Agência Espacial Europeia, resultou de anos de testes inovadores.

Os cientistas já operaram com sucesso uma câmara de demonstração num observatório espanhol e aperfeiçoaram modelos de alta resolução que antecipam os cenários de fusão galáctica. Estas etapas práticas confirmaram a viabilidade de uma tecnologia que promete reescrever os manuais escolares de astrofísica.
Nova era para a ciência espacial em Portugal
A integração neste consórcio pan-europeu, que reúne mais de 200 especialistas de 14 países, abre perspetivas promissoras para o ecossistema científico nacional. O projeto vai impulsionar a criação de bolsas de formação especializada, fixando jovens investigadores em território português através do contacto direto com agências internacionais de topo.
A tecnologia desenvolvida para mapear os vestígios arqueológicos das galáxias deixará, a longo prazo, um legado duradouro na indústria aeroespacial portuguesa. Ao liderar a gestão de dados e a proteção de hardware de uma das missões mais ambiciosas da Europa, a Universidade do Porto quer demonstrar que o futuro da exploração cósmica depende de ferramentas inovadoras desenvolvidas à nossa escala.
Referência da notícia
Universidade do Porto. U.Porto junta-se à ESA para explorar a arqueologia das galáxias.
Agência Espacial Europeia. Missão Espacial ARRAKIHS.