Monsaraz prepara-se para receber missão análoga a Marte

A simulação espacial AMADEE‑27 reunirá cientistas, astronautas análogos e tecnologia avançada para testar operações, robótica e vida em isolamento num cenário inspirado no planeta vermelho.

Monsaraz, a vila medieval do Alto Alentejo, acolherá a missão AMADEE 27 em 2027. Foto: Município de Reguengos de Monsaraz
Monsaraz, a vila medieval do Alto Alentejo, acolherá a missão AMADEE 27 em 2027. Foto: Município de Reguengos de Monsaraz

Em abril de 2027, a paisagem alentejana de Monsaraz e a zona do Alqueva vão transformar-se num dos mais avançados laboratórios de exploração espacial do mundo.

Durante duas semanas, seis astronautas análogos vão viver isolados num habitat fechado, vestir fatos espaciais de última geração e testar tecnologias e procedimentos concebidos para futuras missões humanas a Marte.

A missão, denominada AMADEE‑27, é organizada pelo Fórum Espacial Austríaco (OeWF) e representa um novo passo na afirmação de Portugal como palco privilegiado para simulações planetárias.

Por que razão Portugal foi escolhido?

As missões análogas procuram recriar, na Terra, condições operacionais semelhantes às que os astronautas irão enfrentar noutros planetas. No caso da AMADEE‑27, o objetivo é simular uma missão humano‑robótica a Marte, testando tecnologias, procedimentos científicos, sistemas de suporte de vida e a interação entre humanos e robôs num ambiente controlado.

Monsaraz foi selecionada para a missão AMADEE 27 pelas suas condições geológicas semelhantes às de Marte. Foto: OeWF
Monsaraz foi selecionada para a missão AMADEE 27 pelas suas condições geológicas semelhantes às de Marte. Foto: OeWF

A escolha de Monsaraz não foi casual. A região apresenta características geológicas comparáveis às de Marte, com solos ricos em minerais específicos e uma morfologia que facilita a simulação de terrenos marcianos.

A proximidade do Observatório do Lago Alqueva, que assegura suporte científico e logístico, aliada ao envolvimento do INESC TEC, revelou-se decisiva. Portugal reúne, adicionalmente, excelentes condições geopolíticas e de segurança que viabilizam a operação — fator fundamental para missões que exigem a mobilização de equipas internacionais e o transporte de equipamentos sensíveis.

Como será organizada a missão?

O centro da operação será o Monsaraz Analog Research Station, um habitat modular fechado instalado num terreno adjacente ao OLA. É ali que os seis astronautas análogos vão viver em isolamento entre 5 e 18 de abril de 2027, seguindo protocolos rigorosos que simulam uma missão real.

A missão divide-se em três grandes pilares:

1. Fator humano

Os astronautas vão testar a resistência física e psicológica em condições semelhantes às de Marte: temperaturas elevadas dentro dos fatos, carga física intensa, isolamento prolongado e gestão de conflitos em ambiente fechado. Serão monitorizados parâmetros como ritmo cardíaco, temperatura corporal e stress, dados essenciais para o desenvolvimento de futuros fatos espaciais e protocolos de saúde.

2. Robótica e operações remotas

A missão vai testar a colaboração entre humanos e robôs, incluindo rovers autónomos. Um dos desafios centrais é simular o lapso de tempo real entre Marte e a Terra – de 4 a 20 minutos por cada comando. Todas as operações serão, por isso, coordenadas a partir do Centro de Suporte à Missão do OeWF, na Áustria, recriando os constrangimentos de comunicação de uma missão interplanetária.

3. Habitat e sistemas de suporte de vida

Serão testados sistemas avançados de biorregeneração, modelos de nutrição sustentável e tecnologias que permitam missões de longa duração. O intuito é perceber como os astronautas se adaptam a viver num ambiente fechado e autónomo.

No terreno, uma equipa técnica liderada pelo INESC TEC e pelo Núcleo Interactivo de Astronomia (NUCLIO) assegurará a logística e a segurança, sem interferir na simulação.

Como será selecionada a tripulação?

O OeWF concluiu recentemente o treino de uma nova classe de astronautas análogos. Os candidatos foram selecionados no início do ano e passaram por formação intensiva em operações espaciais, protocolos científicos e uso de fatos espaciais simulados. Estão agora certificados e aptos a integrar missões.

Missões análogas testam tecnologias, procedimentos e a resistência humana em ambientes terrestres que simulam desafios operacionais de futuras explorações planetárias. Foto: © OeWF (Florian Voggeneder)
Missões análogas testam tecnologias, procedimentos e a resistência humana em ambientes terrestres que simulam desafios operacionais de futuras explorações planetárias. Foto: © OeWF (Florian Voggeneder)

A tripulação final da AMADEE‑27, no entanto, não está ainda fechada. A equipa será composta por uma combinação de astronautas experientes e os novos elementos desta classe recém-treinada. A seleção terá em conta competências técnicas, capacidade de trabalho em equipa, resistência psicológica e aptidão física.

Como o público poderá acompanhar a missão?

Apesar do isolamento rigoroso exigido pela simulação, a população poderá acompanhar a AMADEE‑27 de forma muito próxima. O Observatório do Lago Alqueva será a principal ponte entre a missão e a comunidade, organizando sessões públicas, palestras e atividades de observação astronómica que permitem compreender o trabalho científico realizado no terreno.

O NUCLIO desenvolverá programas educativos dirigidos a escolas, oferecendo a oportunidade de interagir com investigadores e propor pequenas experiências científicas que poderão ser integradas na missão.

Além disso, o Fórum Espacial Austríaco fará transmissões digitais diárias, disponibilizando vídeos, relatórios e imagens das operações, incluindo saídas de campo com fatos espaciais, recolha de amostras e testes com rovers autónomos. Desta forma, mesmo sem acesso direto à zona de simulação, o público poderá acompanhar o desenrolar da missão.

Portugal no mapa das missões análogas

A AMADEE‑27 não é a primeira missão análoga realizada em Portugal. Insere-se, aliás, numa trajetória crescente que tem colocado o país no radar internacional da exploração espacial.

Em 2023, os Açores receberam a Missão CAMões, realizada na Gruta do Natal, na Ilha Terceira. O ambiente subterrâneo dos tubos de lava ofereceu condições ideais para simular os abrigos onde astronautas poderão viver na Lua ou em Marte, e a operação contou com forte participação de universidades portuguesas e do INESC TEC.

As missões análogas testam a coordenação entre astronautas e robôs, simulando operações remotas com atrasos de comunicação e tarefas complexas em ambientes extremos. Foto: © OeWF (Florian Voggeneder)
As missões análogas testam a coordenação entre astronautas e robôs, simulando operações remotas com atrasos de comunicação e tarefas complexas em ambientes extremos. Foto: © OeWF (Florian Voggeneder)

Dois anos depois, em 2025, Monsaraz acolheu a Monsaraz Mars Analog Mission, a primeira missão análoga em habitat fechado realizada em Portugal. Decorreu na mesma área exterior do Observatório do Lago Alqueva, onde agora se prepara a AMADEE‑27, e reuniu cinco astronautas – três portugueses e dois internacionais – para testar tecnologias de suporte de vida e de resistência humana em isolamento.

Em 2026, o Alqueva recebeu ainda uma simulação mais curta, de carácter pedagógico, dedicada a estudantes de Portugal, Grécia e Áustria, reforçando a dimensão educativa e de literacia científica associada a estas iniciativas.

Impacto para o ecossistema científico e económico português

A realização destas missões pode ter efeitos profundos no ecossistema científico, académico e económico português. Do ponto de vista da ciência e tecnologia, representam uma oportunidade para impulsionar investigação em áreas como robótica, geologia planetária, sistemas de suporte de vida, engenharia espacial e desenvolvimento de novos materiais.

No plano académico, envolvem universidades e centros de investigação em projetos internacionais de elevada complexidade, criando oportunidades de formação avançada e atraindo talento jovem para áreas STEM.

O impacto pode estender-se igualmente à economia e à indústria, estimulando empresas tecnológicas, serviços especializados, turismo científico e a criação de novos produtos e soluções com potencial de exportação. Estas missões têm, por fim, um efeito direto na formação e educação, inspirando estudantes, reforçando a literacia científica e aproximando a exploração espacial das comunidades locais.

O Fórum Espacial Austríaco (OeWF) já organizou 15 missões análogas de campo desde o início do seu programa de simulação planetária em 2006. Foto: © OeWF (Katja Zanella-Kux)
O Fórum Espacial Austríaco (OeWF) já organizou 15 missões análogas de campo desde o início do seu programa de simulação planetária em 2006. Foto: © OeWF (Katja Zanella-Kux)

Portugal, nos últimos anos, tem-se posicionado, assim, como um destino estratégico para missões análogas, combinando condições naturais únicas com capacidade científica crescente.

Referência da notícia

INESC TEC. INESC TEC apoia segunda missão espacial análoga em habitat em Portugal.
Fórum Espacial Austríaco. AMADEE-27 Mars Simulation.