Astrónomos descobriram que Marte possui uma camada protetora que bloqueia as partículas e a radiação destrutivas do Sol
Uma descoberta feita pela missão MAVEN da NASA demonstra que Marte possui um mecanismo de defesa contra o vento solar que, até agora, se pensava ser exclusivo dos planetas com magnetosfera.

Durante décadas, os cientistas consideraram que a presença de um campo magnético global era uma condição essencial para proteger um planeta da radiação e das partículas carregadas emitidas pela sua estrela. A Terra é o exemplo mais conhecido: a sua magnetosfera desvia grande parte do vento solar e impede que a atmosfera seja progressivamente erodida.
Sem essa proteção, o nosso planeta teria seguido um destino semelhante ao de Marte, que perdeu grande parte da sua atmosfera há milhares de milhões de anos e acabou por se tornar um mundo frio e árido.
O trabalho foi publicado na revista Nature Communications e foi liderado por Christopher Fowler, investigador da Universidade da Virgínia Ocidental.
A chave estava na atmosfera marciana
A descoberta foi possível graças aos dados obtidos pela sonda MAVEN (Mars Atmosphere and Volatile Evolution) da NASA, cuja missão se prolongou por mais de onze anos a estudar a atmosfera superior de Marte e os processos responsáveis pela sua evolução.
Até agora, o efeito Zwan-Wolf tinha sido estudado principalmente na Terra e noutros planetas dotados de fortes campos magnéticos. Aí, as partículas carregadas do vento solar colidem com as linhas do campo magnético e são obrigadas a contornar o planeta, reduzindo significativamente o seu impacto.
O que é surpreendente é que Marte não possui uma magnetosfera semelhante à da Terra.
Os investigadores descobriram que, na ausência de um campo magnético global, a própria ionosfera marciana — uma camada atmosférica eletricamente carregada pela radiação solar — pode gerar condições capazes de produzir este fenómeno.
Segundo os autores, o efeito ocorre provavelmente de forma contínua, embora normalmente seja demasiado fraco para ser detetado pelos instrumentos disponíveis.
Uma tempestade solar permitiu observar o fenómeno
A oportunidade surgiu em dezembro de 2023, quando uma poderosa ejeção de massa coronal proveniente do Sol atingiu Marte.
Esse evento extremo alterou profundamente o ambiente espacial que rodeia o planeta e amplificou o efeito Zwan-Wolf até níveis observáveis.
Fowler compara o processo à água de um riacho que contorna uma rocha. A diferença é que, no espaço, as partículas praticamente não colidem entre si. Em vez das interações físicas habituais, são as forças eletromagnéticas que controlam o movimento e o desvio das partículas.

Durante a tempestade solar, os cientistas observaram a formação de grandes estruturas magnéticas em torno de Marte. Estas configurações funcionavam como barreiras temporárias que desviavam o fluxo de plasma solar à volta do planeta.
As medições revelaram mudanças evidentes na direção do movimento do plasma precisamente nas bordas dessas estruturas magnéticas, um sinal inequívoco de que o efeito estava a ocorrer.
Uma proteção mais importante do que se pensava
A investigação revelou também que a ionosfera marciana gera uma espécie de magnetosfera induzida. Embora muito mais fraca do que a terrestre, esta estrutura cria linhas de campo magnético que envolvem o lado iluminado do planeta e ajudam a atenuar parte do impacto do vento solar.
Até agora, acreditava-se que o efeito Zwan-Wolf só se pudesse desenvolver em regiões situadas acima da atmosfera de um planeta. Detetá-lo diretamente dentro da ionosfera de Marte representa uma novidade científica significativa.
Os investigadores chegaram mesmo a encontrar evidências de que o fenómeno atinge altitudes muito baixas. Os sinais foram registados até aos níveis mais profundos explorados pela MAVEN, a cerca de 125 quilómetros da superfície marciana.
Implicações para todo o Sistema Solar
Esta descoberta poderá ter consequências que vão muito além de Marte. Os cientistas consideram que processos semelhantes poderão estar a ocorrer noutros corpos celestes sem campo magnético global, como Vénus, alguns cometas e até mesmo Titã, a maior lua de Saturno.
Compreender como o Sol interage com estes mundos ajudará a aperfeiçoar os modelos sobre a evolução atmosférica planetária e sobre os efeitos do clima espacial em diferentes ambientes do sistema solar.
Além disso, este tipo de investigação tem aplicações práticas. Compreender o comportamento das tempestades solares é fundamental para proteger futuras missões robóticas e tripuladas, bem como os satélites e sistemas tecnológicos dos quais depende a vida moderna na Terra.
O que começou como a observação de uma poderosa tempestade solar acabou por revelar que Marte possui uma forma inesperada de se defender. Embora não possua o poderoso escudo magnético terrestre, o planeta vermelho parece dispor de mecanismos próprios que, silenciosamente, continuam a enfrentar a influência do Sol.
Referência da notícia
NASA Says Farewell to MAVEN Mars Mission, Hosts Media Call Today - NASA
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