Voluntários ajudam a recuperar seis quilómetros de linhas de água degradadas em Santarém

Árvores nativas, estacas de salgueiro e mantas de fibra de coco são aplicadas nas margens degradadas, com moradores envolvidos no restauro dos ecossistemas ribeirinhos.

Voluntários aplicam mantas de fibra de coco para proteger as margens da Ribeira do Mergulhão da erosão. Município de Santarém
Voluntários aplicam mantas de fibra de coco para proteger as margens da Ribeira do Mergulhão da erosão. Município de Santarém

Ramos de salgueiro são enterrados nas margens para desenvolverem raízes. Voluntários espalham mantas de fibra de coco, removem plantas invasoras e plantam árvores autóctones. Ao longo das linhas de água do concelho de Santarém, estas intervenções ajudam a restaurar habitats degradados e a devolver estabilidade a ribeiras sujeitas, durante décadas, a diferentes formas de pressão humana.

As tarefas fazem parte do projeto Reabilitar Troço a Troço, uma iniciativa que, desde 2010, combina recuperação ecológica com participação comunitária. Ao longo de 16 anos, permitiu intervir em 26 troços de linhas de água, num total de seis quilómetros, abrangendo cerca de 70% das freguesias do concelho.

Tão importante quanto reparar as margens é o objetivo de reaproximar as populações destes espaços naturais. Segundo a autarquia, muitos rios e ribeiras foram sendo progressivamente esquecidos à medida que o crescimento urbano afastou os habitantes do contacto direto com os cursos de água.

Participantes celebram a recuperação da Ribeira do Canal após mais uma jornada de voluntariado ambiental. Foto: Município de Santarém
Participantes celebram a recuperação da Ribeira do Canal após mais uma jornada de voluntariado ambiental. Foto: Município de Santarém

A mais recente ação decorreu na segunda quinzena de outubro, na Ribeira do Mergulhão, uma linha de água urbana pertencente à bacia hidrográfica da Ribeira das Fontainhas. A próxima intervenção está marcada para 7 de novembro, na Ribeira da Belida, afluente da Ribeira de Cabanas. Com essa operação, o número de troços recuperados deverá subir para 27 até ao final do ano.

Recuperar as margens com a ajuda da natureza

A recuperação aposta em soluções inspiradas nos próprios processos naturais. Em vez de recorrerem exclusivamente a estruturas artificiais, as equipas utilizam técnicas de engenharia natural e materiais locais ou biodegradáveis para estabilizar as margens e favorecer a regeneração da vegetação.

Árvores, arbustos, sementes de espécies autóctones, madeira, pedra e mantas de fibra de coco fazem parte das ferramentas utilizadas no terreno. Em conjunto, ajudam a reduzir a erosão, a fixar o solo e a criar condições para o crescimento das plantas.

Durante as jornadas de voluntariado, os participantes plantam amieiros, salgueiros e freixos, constroem entrançados de madeira e enterram estacas capazes de sustentar as raízes. Também removem resíduos e controlam espécies invasoras que ameaçam os habitats ribeirinhos.

Os benefícios destas intervenções vão além da estabilização das margens. O objetivo passa igualmente por melhorar a qualidade da água, recuperar áreas degradadas e criar condições para o regresso da fauna associada a estes ecossistemas.

Uma equipa multidisciplinar da Câmara Municipal de Santarém acompanha a evolução dos trabalhos e monitoriza as espécies presentes antes e depois das intervenções, avaliando os resultados ao longo do tempo.

Espécies que regressam às linhas de água

À medida que os habitats se recuperam, surgem os primeiros sinais positivos para a biodiversidade local. Segundo a autarquia, as intervenções realizadas ao longo dos últimos anos contribuíram para a conservação de espécies e para a recuperação de ecossistemas degradados, antecipando, em vários aspetos, objetivos que hoje integram o Regulamento Europeu do Restauro da Natureza.

Entre as espécies identificadas nos locais intervencionados encontram-se a boga-arqueada-de-Lisboa, listada como em perigo, e o lagarto-de-água, classificado como vulnerável.

Para divulgar esta riqueza natural, o município instalou painéis informativos junto aos troços recuperados. Os visitantes podem conhecer melhor as espécies presentes e aceder a conteúdos complementares através de códigos QR.

Recuperação ecológica com participação local

O reconhecimento alcançado pelo projeto ultrapassou o concelho. O Reabilitar Troço a Troço recebeu um prémio da plataforma ODSlocal e integrou a lista restrita de candidatos aos prémios europeus da iniciativa New European Bauhaus.

Das ações de restauro ao regresso da fauna, o projeto já mostra resultados em várias ribeiras de Santarém. Município de Santarém
Das ações de restauro ao regresso da fauna, o projeto já mostra resultados em várias ribeiras de Santarém. Município de Santarém

O envolvimento da população continua a ser uma das componentes mais valorizadas pelos promotores. As ações de voluntariado permitem aos participantes contribuir diretamente para a recuperação dos ecossistemas e conhecer melhor os cursos de água que atravessam as suas freguesias.

Para a Câmara Municipal de Santarém, a recuperação das ribeiras não passa somente por melhorar as condições ecológicas. O objetivo é também devolver as zonas ribeirinhas à vida quotidiana das comunidades, reforçando a ligação entre as pessoas e o património natural do território.

Seis quilómetros de linhas de água recuperadas podem representar uma pequena parte da rede hidrográfica do concelho. Mas cada troço restaurado acrescenta vegetação, reduz a erosão, cria habitat para a fauna e aproxima a população dos cursos de água. Em Santarém, a recuperação dos ecossistemas ribeirinhos continua a avançar troço a troço, com a ajuda da comunidade.

Referência da notícia

Município de Santarém. Projeto RTT - Reabilitação Troco a Troço.