Verme marinho da costa portuguesa revela potencial biotecnológico em investigação pioneira do IPMA

Um organismo discreto está a despertar o interesse científico graças a propriedades que poderão abrir oportunidades para diferentes setores.

O estuário do rio Mira é um dos ecossistemas da costa portuguesa com uma presença significativa do Vermetus triquetrus. Foto: Kyle Taylor, CC BY 2.0, Wikimedia Commons
O estuário do rio Mira é um dos ecossistemas da costa portuguesa com uma presença significativa do Vermetus triquetrus. Foto: Kyle Taylor, CC BY 2.0, Wikimedia Commons

As águas costeiras portuguesas escondem muito mais do que espécies conhecidas da ciência. Entre os organismos menos estudados encontra-se o Vermetus triquetrus, um gastrópode marinho que vive fixo ao substrato e forma recifes.

Apesar da sua presença relevante na costa nacional, sobretudo no estuário do rio Mira, permaneceu durante décadas praticamente ignorado pelos investigadores.

Agora, um estudo pioneiro conduzido por uma equipa do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) mostra que esta espécie poderá tornar-se uma fonte valiosa de compostos bioativos com interesse para áreas tão distintas como a nutracêutica, a cosmética e a indústria farmacêutica.

Da composição bioquímica às aplicações em saúde

Publicado na revista científica Marine Biotechnology, o trabalho representa o primeiro estudo aprofundado dedicado ao Vermetus triquetrus. A investigação analisou a composição bioquímica do organismo e avaliou a sua atividade antioxidante e anti-inflamatória, duas características particularmente relevantes na procura de novas moléculas naturais para aplicações em saúde e bem-estar.

Os resultados revelaram níveis elevados de atividade biológica e permitiram identificar uma concentração significativa de compostos polifenólicos, sobretudo na massa visceral do animal.

Estas substâncias são amplamente estudadas devido às suas propriedades antioxidantes e ao potencial para integrar suplementos alimentares, formulações cosméticas ou futuros produtos farmacêuticos.

Um recurso marinho ainda por descobrir

A investigação diferenciou as duas principais unidades anatómicas do organismo, a massa visceral e o manto, permitindo compreender melhor onde se concentram os compostos com maior interesse biotecnológico. Segundo os investigadores, esta abordagem abre caminho a estudos mais aprofundados sobre a composição química da espécie e ao refinamento das frações extraídas da biomassa.

Este é o aspeto do verme que, após estudado revelou atividade antioxidante e anti-inflamatória. Imagem: Breves et al./Marine Biotechnology (2026)
Este é o aspeto do verme que, após estudado revelou atividade antioxidante e anti-inflamatória. Imagem: Breves et al./Marine Biotechnology (2026)

A equipa científica conclui que os resultados obtidos justificam novas etapas de investigação. O objetivo passa por caracterizar de forma mais detalhada os compostos presentes e avaliar o seu potencial em diferentes aplicações industriais, desde ingredientes para suplementos alimentares até moléculas que possam contribuir para o desenvolvimento de novos produtos nas áreas cosmética e farmacêutica.

O estudo foi assinado por André Breves, Carlos Cardoso, Cláudia Afonso, Joana Matos, Jorge Lobo-Arteaga, Cátia Bartilotti, Sabrina Sales, Sónia Pedro e Narcisa M. Bandarra. De acordo com o IPMA, o artigo despertou um interesse significativo na comunidade científica precisamente por explorar um organismo que permanecia praticamente inédito na literatura especializada.

Preservar a riqueza do oceano português

Esta descoberta integra um esforço científico muito mais abrangente. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto MAR2030 Genemare_Portugal, iniciativa que pretende criar o primeiro biobanco da biodiversidade marinha das águas portuguesas.

Conhecido como Biobanco Azul – Banco Nacional dos Recursos Vivos Marinhos, o projeto tem como missão caracterizar, conservar e preservar o património biológico marinho nacional.

Ao reunir informação genética, bioquímica e biotecnológica de milhares de espécies, este repositório permitirá preservar recursos únicos e disponibilizar conhecimento para futuras investigações.

O trabalho da equipa do IPMA evidencia a importância de valorizar a investigação sobre o mar português. Foto: Pxhere
O trabalho da equipa do IPMA evidencia a importância de valorizar a investigação sobre o mar português. Foto: Pxhere

Mais do que um arquivo biológico, o biobanco pretende constituir uma infraestrutura estratégica para valorizar a biodiversidade portuguesa. O projeto abrange organismos que vão desde microrganismos até animais vertebrados e integra diferentes áreas científicas, incluindo genómica, metabolómica e biotecnologia aplicada.

Biodiversidade como fonte de inovação

A valorização sustentável dos recursos marinhos assume um papel cada vez mais relevante na economia azul. Espécies que durante muito tempo passaram despercebidas podem revelar compostos naturais com elevado interesse científico e industrial, contribuindo para a criação de produtos inovadores e de maior valor acrescentado.

O caso do Vermetus triquetrus demonstra precisamente como o conhecimento da biodiversidade pode gerar novas oportunidades.

Embora o percurso até uma eventual aplicação comercial ainda exija investigação adicional, os resultados agora publicados identificam esta espécie como uma promissora fonte de moléculas bioativas.

Ao mesmo tempo, reforçam a importância de investir na caracterização dos organismos que habitam as águas portuguesas. Cada nova espécie estudada aumenta o conhecimento sobre os ecossistemas marinhos e pode revelar recursos capazes de responder a desafios futuros nas áreas da saúde, do bem-estar e da inovação tecnológica.

Mais do que uma descoberta isolada, este trabalho evidencia o valor científico do oceano português e o papel do projeto MAR2030 Genemare_Portugal na construção de um legado que pretende preservar a biodiversidade marinha, aprofundar o conhecimento sobre os seus recursos vivos e abrir caminho a novas aplicações biotecnológicas baseadas na riqueza natural do país.

Referência da notícia

André Breves, Carlos Cardoso, Cláudia Afonso, Joana Matos, Jorge Lobo-Arteaga, Cátia Bartilotti, Sabrina Sales, Sónia Pedro e Narcisa M. Bandarra. Unveiling the Hidden Biotechnological Potential of the Vermetid Gastropod Vermetus triquetrus: Insights into an Unexplored Marine Resource.
IPMA. Artigo Científico sobre Gastrópode Marinho.