Verme marinho da costa portuguesa revela potencial biotecnológico em investigação pioneira do IPMA
Um organismo discreto está a despertar o interesse científico graças a propriedades que poderão abrir oportunidades para diferentes setores.

As águas costeiras portuguesas escondem muito mais do que espécies conhecidas da ciência. Entre os organismos menos estudados encontra-se o Vermetus triquetrus, um gastrópode marinho que vive fixo ao substrato e forma recifes.
Agora, um estudo pioneiro conduzido por uma equipa do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) mostra que esta espécie poderá tornar-se uma fonte valiosa de compostos bioativos com interesse para áreas tão distintas como a nutracêutica, a cosmética e a indústria farmacêutica.
Da composição bioquímica às aplicações em saúde
Publicado na revista científica Marine Biotechnology, o trabalho representa o primeiro estudo aprofundado dedicado ao Vermetus triquetrus. A investigação analisou a composição bioquímica do organismo e avaliou a sua atividade antioxidante e anti-inflamatória, duas características particularmente relevantes na procura de novas moléculas naturais para aplicações em saúde e bem-estar.
Estas substâncias são amplamente estudadas devido às suas propriedades antioxidantes e ao potencial para integrar suplementos alimentares, formulações cosméticas ou futuros produtos farmacêuticos.
Um recurso marinho ainda por descobrir
A investigação diferenciou as duas principais unidades anatómicas do organismo, a massa visceral e o manto, permitindo compreender melhor onde se concentram os compostos com maior interesse biotecnológico. Segundo os investigadores, esta abordagem abre caminho a estudos mais aprofundados sobre a composição química da espécie e ao refinamento das frações extraídas da biomassa.

A equipa científica conclui que os resultados obtidos justificam novas etapas de investigação. O objetivo passa por caracterizar de forma mais detalhada os compostos presentes e avaliar o seu potencial em diferentes aplicações industriais, desde ingredientes para suplementos alimentares até moléculas que possam contribuir para o desenvolvimento de novos produtos nas áreas cosmética e farmacêutica.
O estudo foi assinado por André Breves, Carlos Cardoso, Cláudia Afonso, Joana Matos, Jorge Lobo-Arteaga, Cátia Bartilotti, Sabrina Sales, Sónia Pedro e Narcisa M. Bandarra. De acordo com o IPMA, o artigo despertou um interesse significativo na comunidade científica precisamente por explorar um organismo que permanecia praticamente inédito na literatura especializada.
Preservar a riqueza do oceano português
Esta descoberta integra um esforço científico muito mais abrangente. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto MAR2030 Genemare_Portugal, iniciativa que pretende criar o primeiro biobanco da biodiversidade marinha das águas portuguesas.
Ao reunir informação genética, bioquímica e biotecnológica de milhares de espécies, este repositório permitirá preservar recursos únicos e disponibilizar conhecimento para futuras investigações.

Mais do que um arquivo biológico, o biobanco pretende constituir uma infraestrutura estratégica para valorizar a biodiversidade portuguesa. O projeto abrange organismos que vão desde microrganismos até animais vertebrados e integra diferentes áreas científicas, incluindo genómica, metabolómica e biotecnologia aplicada.
Biodiversidade como fonte de inovação
A valorização sustentável dos recursos marinhos assume um papel cada vez mais relevante na economia azul. Espécies que durante muito tempo passaram despercebidas podem revelar compostos naturais com elevado interesse científico e industrial, contribuindo para a criação de produtos inovadores e de maior valor acrescentado.
Embora o percurso até uma eventual aplicação comercial ainda exija investigação adicional, os resultados agora publicados identificam esta espécie como uma promissora fonte de moléculas bioativas.
Ao mesmo tempo, reforçam a importância de investir na caracterização dos organismos que habitam as águas portuguesas. Cada nova espécie estudada aumenta o conhecimento sobre os ecossistemas marinhos e pode revelar recursos capazes de responder a desafios futuros nas áreas da saúde, do bem-estar e da inovação tecnológica.
Mais do que uma descoberta isolada, este trabalho evidencia o valor científico do oceano português e o papel do projeto MAR2030 Genemare_Portugal na construção de um legado que pretende preservar a biodiversidade marinha, aprofundar o conhecimento sobre os seus recursos vivos e abrir caminho a novas aplicações biotecnológicas baseadas na riqueza natural do país.
Referência da notícia
André Breves, Carlos Cardoso, Cláudia Afonso, Joana Matos, Jorge Lobo-Arteaga, Cátia Bartilotti, Sabrina Sales, Sónia Pedro e Narcisa M. Bandarra. Unveiling the Hidden Biotechnological Potential of the Vermetid Gastropod Vermetus triquetrus: Insights into an Unexplored Marine Resource.
IPMA. Artigo Científico sobre Gastrópode Marinho.