Jardins de retenção de águas pluviais: o que são e como ajudam a prevenir inundações nas cidades

As cidades estão à procura de soluções para combater as inundações causadas pelas chuvas torrenciais. Entre estas, os jardins pluviais — pequenos espaços verdes concebidos para recolher a água — aliviam a pressão sobre as redes de esgotos e reduzem o risco de inundações urbanas.

Os jardins pluviais reduzem o risco de inundações urbanas e aliviam a pressão sobre o sistema de esgotos.
Os jardins pluviais reduzem o risco de inundações urbanas e aliviam a pressão sobre o sistema de esgotos.

Tradicionalmente, a gestão da água da chuva nas cidades é feita através de uma rede complexa de esgotos, coletores e sistemas de drenagem. O problema surge quando as precipitações são demasiado intensas e a água atinge as condutas mais rapidamente do que estas conseguem escoá-la. No entanto, neste cenário, também a natureza pode tornar-se parte da solução.

Em particular, os chamados jardins de chuva, uma das ferramentas das infraestruturas verdes que estão a ganhar cada vez mais importância na luta contra as inundações urbanas. Trata-se de pequenas depressões verdes, criadas com várias camadas de solo, areia, cascalho e vegetação, que recebem a água proveniente de telhados, estradas ou superfícies pavimentadas e permitem que esta se infiltre progressivamente no solo.

É claro que não se destinam a substituir os sistemas de esgotos, mas a sua função pode ser complementar: retirar parte da água da chuva para que esta não chegue toda de uma vez à rede de drenagem.

Como funciona um jardim de chuva?

O mecanismo é simples. Durante um episódio de precipitação, a água é canalizada para uma zona ligeiramente mais baixa, onde as plantas e o substrato retardam o seu escoamento. Uma parte infiltra-se no solo, outra pode ser armazenada temporariamente e o excesso prossegue o seu percurso em direção ao sistema de drenagem.

Para além de reduzir o volume do escoamento superficial, este processo permite filtrar determinados contaminantes que a água arrasta consigo ao escorrer pelas estradas e outras superfícies impermeáveis. Além disso, pode contribuir para a recarga das águas subterrâneas e para a criação de pequenos espaços de biodiversidade dentro da cidade.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) considera que estas infraestruturas verdes são capazes de reduzir o escoamento superficial, armazenar temporariamente a água e evitar que os sistemas de drenagem fiquem sobrecarregados, um aspeto útil em cidades onde as precipitações intensas podem exercer uma pressão crescente sobre as infraestruturas urbanas.

Ottawa testa os jardins de chuva

Uma investigação recente da Carleton University (Ottawa, Canadá), publicada na The Conversation, oferece um exemplo concreto da eficácia desta solução. O cenário do estudo foi o bairro de Crystal Beach, depois de a capital canadiana ter registado 167 l/m² de chuva em apenas cinco horas, durante um episódio que as autoridades locais classificaram como "extraordinário", com cerca de 5 800 relatos de inundações em caves.

A água da faixa de rodagem é absorvida através das aberturas do lancil e graças à inclinação do asfalto.
A água da faixa de rodagem é absorvida através das aberturas do lancil e graças à inclinação do asfalto.

Durante três anos, os investigadores desenvolveram um modelo informático do bairro e aproveitaram o episódio real de chuva para comparar vários cenários: sem jardins de chuva, com instalações em propriedades privadas, com jardins ao longo das ruas e com ambas as soluções combinadas.

Os resultados mostram que a localização pode ser ainda mais importante do que a área ocupada.

  • Sem jardins, a água chegou a cobrir 8,4 hectares do bairro, cerca de 12% de Crystal Beach.
  • Os jardins situados exclusivamente em propriedades privadas reduziram a área alagada para 6,2 hectares.
  • Quando foram colocados ao longo das ruas, nas zonas para onde a água tende naturalmente a escorrer em declive, a área alagada diminuiu para cerca de dois hectares.
  • A combinação das duas estratégias permitiu reduzi-la para 1,2 hectares, 86% menos do que no cenário inicial. A profundidade máxima da água também diminuiu, passando de cerca de 1,5 metros para pouco mais de um metro.

Menos água e menos velocidade

Um dos resultados mais significativos diz respeito ao perigo das inundações. O modelo considerou particularmente preocupante a água que corria a mais de 0,6 metros por segundo, uma velocidade capaz de derrubar uma pessoa ou deslocar um veículo.

No cenário sem jardins, 1 095 metros quadrados atingiam este nível de perigo. Os jardins privados reduziram a superfície em cerca de um quinto, enquanto os jardins instalados ao longo das ruas conseguiram reduzi-la a zero no momento de maior inundação.

Além disso, quando ambos os tipos de jardins foram combinados, o volume total do escoamento superficial diminuiu 80% e o caudal máximo que a rede de canalização tinha de suportar reduziu-se quase para metade.

Uma solução a ter muito em conta, mas que não é milagrosa

Os investigadores salientam que os jardins de chuva não eliminam completamente o risco de inundações. Mesmo com ambas as estratégias, uma área equivalente a mais de dois campos de futebol ficou submersa durante o episódio extremo.

Além disso, nem todos os resultados podem ser automaticamente aplicados a qualquer cidade. As características do terreno, a inclinação, a intensidade das precipitações e a conceção da rede de drenagem condicionam a sua eficácia.

Por esta razão, o futuro da gestão sustentável das águas pluviais não parece consistir em escolher entre condutas e natureza, mas sim em combinar ambas. As infraestruturas tradicionais continuam a ser necessárias para transportar a água, mas os jardins de chuva podem garantir que uma parte significativa desta nem sequer chegue à rede, tudo ao mesmo tempo.

Referência da notícia

Jennifer Drake e Ali Zoghi. (2026). How cities can use rain gardens to help prevent flooding.