Tem mais de 3700 anos e ainda produz azeitonas: a história da oliveira mais antiga de Portugal

Há árvores que prosperam por décadas ou séculos. E depois há as oliveiras milenares, autênticas cápsulas vivas do tempo, capazes de testemunhar a passagem de civilizações inteiras e de continuar a produzir azeitona. Conheça a que já terá superado os 3700 anos em Portugal.

Oliveira do Peso, Herdade do Peso - Vidigueira. Imagem: © Nuno Fox, Expresso (2023).
Oliveira do Peso, Herdade do Peso - Vidigueira. Imagem: © Nuno Fox, Expresso (2023).

Em Portugal contam-se centenas de oliveiras com mais de dois mil anos de existência. Algumas já terão mesmo ultrapassado os três mil anos. A idade estimada destas oliveiras tem sido estimada através de um método científico desenvolvido por investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), que transforma características do tronco numa espécie de relógio biológico.

Durante bastante tempo a mais famosa foi a Oliveira do Mouchão, em Abrantes. Em 2018 a UTAD calculava a sua idade em torno dos 3350 anos, tendo sido contemporânea dos Fenícios, Celtiberos e Romanos e sobrevivido a invasões, migrações e profundas transformações da paisagem. Mesmo após milhares de anos de intempéries, esta célebre oliveira continuava a produzir azeitona em 2022.

Oliveira do Mouchão, em Abrantes. Imagem: © João Pinheiro, Wikimedia Commons.
Oliveira do Mouchão, em Abrantes. Imagem: © João Pinheiro, Wikimedia Commons.

Entretanto surgiu uma candidata mais antiga. Na Herdade do Peso, na Vidigueira, vive a Oliveira do Peso, cuja idade foi estimada em mais de 3700 anos de acordo com o reconhecimento realizado em 2021. Esta oliveira chegou a ser candidata ao concurso Árvore Portuguesa do Ano 2024, tendo ficado em terceiro lugar.

Segundo um comunicado da referida propriedade, a sua importância vai além de um único exemplar dado que, aquela que é a “oliveira milenar mais antiga da Herdade do Peso”, situa-se numa planície onde está “um conjunto de oliveiras cuja soma de idades ultrapassa os 7000 anos de idade”.

Eis como os investigadores calcularam a idade de uma árvore milenar

O método desenvolvido pela UTAD e já patenteado baseia-se num modelo matemático que relaciona a idade provável da árvore com características como o diâmetro, a altura e o perímetro do tronco. Em colaboração com a empresa Oliveiras Milenares, este método tem permitido estudar vários exemplares em Portugal e no estrangeiro, tendo permitido identificar a idade de outras oliveiras extraordinárias.

São casos disso a oliveira de Santa Iria de Azóia (idade estimada em cerca de 2850 anos) ou a de Monsaraz (idade estimada em cerca de 2450 anos). Refira-se ainda a existência de outras oliveiras milenares espalhadas por todo o país, sobretudo a sul do rio Mondego, embora também existam casos a norte: Estremoz, Montemor-o-Novo, Lagoa, Beja, Vilamoura, Évora e no Parque de Serralves (Porto).

A UTAD revelou ter sido convidada também a aplicar este método de investigação científica além-fronteiras, tendo estudado oliveiras em Espanha e França, incluindo exemplares em Bordéus, Girona, Málaga e na ilha de Menorca. Neste último território insular espanhol foi certificada uma árvore com mais de 2300 anos.

O segredo da longevidade das oliveiras

Segundo José Luís Louzada, investigador na UTAD, a mesma instituição de ensino onde foi desenvolvido o método científico que sustenta a datação destas árvores, uma das principais razões é a extraordinária capacidade de rejuvenescimento da oliveira.

Assim, um “pedaço de tronco, por mais velho que esteja, tem a capacidade de voltar a rebentar”, fazendo com que seja possível a árvore continuar “a produzir azeitona”. Entre outros fatores, este cientista atribui a longevidade ao facto de ser uma espécie “muito bem adaptada ao nosso clima mediterrâneo”.

Bem adaptada ao clima mediterrâneo, a oliveira combina resistência e capacidade de regeneração de uma forma excecional.
Bem adaptada ao clima mediterrâneo, a oliveira combina resistência e capacidade de regeneração de uma forma excecional.

No nosso país estas oliveiras localizam-se "especialmente a sul do Mondego" e podem, "em teoria", viver "uma eternidade, ultrapassando a idade das inúmeras gerações que passem pelo mesmo território".

Referência da notícia

Ema Gil Pires. (2026). Portugal guarda centenas de oliveiras milenares — e uma pode ter mais de 3700 anos.